POR QUE A TV ZIMBO É MAIS VISTA EM ANGOLA?

Por: Carlos Alberto (cidadão e jornalista)

Segundo a Marktest, a TV Zimbo é a televisão mais vista em Angola, à frente, pela primeira vez, da TPA (canal público). Por que será? Se o antigo director da TV Zimbo é o actual presidente do Conselho de Administração da TPA – e antes de estar no novo cargo até foi o responsável pelos conteúdos da TPA, altura do estudo -, qual será a razão para essa contradição? “Mais vista” significa “maior qualidade”? Ou por ser um canal aberto? A TPA sempre esteve à frente da TV Zimbo, segundo estudos feitos pela mesma empresa. Mas a TPA tinha mais qualidade – no tempo de José Eduardo dos Santos – que agora? Esses estudos valem o que valem. Não pretendo ser advogado da TPA, mas esses estudos, para mim, só mostram uma coisa: o nosso público é também atípico, tal como o país. Aqui em Angola, “ter mais audiência” nunca significou “ter mais qualidade”. O nosso público sempre provou que não avalia “qualidade” do que é produzido. Somos um público que segue outras lógicas. É só ver que a TPA, no tempo de JES, mostrava um país cor-de-rosa, quando a TV Zimbo até fazia um jornalismo mais equilibrado – embora se desconfie que o “equilíbrio” era para inglês ver, uma vez que os “donos” eram (são?) os mesmos – , e sempre esteve à frente da TV Zimbo. A TPA “manipulava” uma Angola inexistente – e hoje podemos ver que tudo era mentira -, mas sempre esteve à frente da TV Zimbo, em termos de audiência, segundo estudos da mesma empresa. Isso prova que o nosso público não consome “qualidade”. Consome “qualquer coisa”. E o “imediatismo” está também no ADN dos nossos telespectadores. Dito de outro modo: não temos ainda um público crítico nos conteúdos que são divulgados. É só ver que a TPA, que fazia tudo menos jornalismo, sempre esteve à frente da TV Zimbo. É verdade – e devo dar mão à palmatória – que a TV Zimbo hoje está mais “convidativa” em termos de divulgação de conteúdos. Hoje já se vê uma TV Zimbo com uma linha editorial menos fechada que antes. Mas por que será se os donos são os mesmos? Não era mais fácil a TPA ter mais audiência agora que mostra coisas que não mostrava noutrora? Tenho uma possível explicação: o problema não está na “qualidade”. O público não segue “qualidade”. O público segue “inovação”. E “inovação” não significa necessariamente “qualidade”. É só lembrar que a TPA 2, da Semba Comunicação, tinha mais audiência que o próprio canal 1 da TPA (alguns programas). Seguiu-se “o novo” e não “a qualidade”. No entanto, como dizia, a TV Zimbo hoje mostra mais diversidade de conteúdos. E vou basear-me no jornal principal das duas televisões. Hoje a Zimbo, com Amílcar Xavier, oferece ao público conteúdos que mais se aproximam a um jornalismo sério. A TPA não produz matérias que coloquem em causa a figura de João Lourenço. E a justificação é clara: enquanto os conselhos de administração dos órgãos públicos estiverem reféns da nomeação do Titular do Poder Executivo, nunca teremos uma TPA com margem de criatividade que consiga produzir conteúdos que fiscalizem a gestão de quem está no poder. Se repararem, a TPA só produz “audiência” para mostrar erros da gestão de JES. Enquanto a TV Zimbo se preocupa em mostrar que os erros continuam com a gestão de João Lourenço. Isso mostra que o que mudou são os “interesses”. Se tirássemos o Francisco Mendes da TPA para a TV Zimbo, talvez fizesse o mesmo (ou melhor) que o Amílcar Xavier. Se tirássemos o Amílcar Xavier da TV Zimbo para a TPA, talvez fizesse o mesmo (ou pior) que o Francisco Mendes. São cenários possíveis. Querem testar? Façam a troca! Vão perceber que o problema da perda de audiência da TPA para a Zimbo não está ligado à qualidade técnica dos recursos humanos, nem aos meios. Está ligado a “interesses”. Interessa à TPA “idolatrar” João Lourenço, tal como o fazia com José Eduardo dos Santos. Interessa à TV Zimbo mostrar que João Lourenço não é tão perfeito quanto parece. O que mudou são “os interesses”, porque o principal actor político é outro. Portanto, meus senhores, a “audiência” da TV Zimbo hoje tem a ver com “interesses”. Não tem a ver com “qualidade” dos recursos humanos. Não se gabem tanto!

Carlos Alberto
08.11.2018


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