Uma incursão pela vida privada de JES: a silenciosa ausência da ex-Primeira-dama

Não é coisa de mentideiro: a figura feminina que acompanhou JES durante os últimos 30 anos tem sido a grande ausência do seu séquito familiar. E este é um aspecto que não se pode ignorar neste momento, quer eventualmente pelas repercussões que tal facto possa ter sobre a personalidade do ex-PR, quer pelo que isso representa para o seu equilíbrio emocional, em tempos de forte pressão como são indiscutivelmente os que ele vive presentemente.


FONTE: CORREIO ANGOLENSE


Poucos duvidam que ao arrastar consigo para a cidade do Huambo o essencial dos homens que com ele governam o país exactamente no dia em que José Eduardo dos Santos (JES) celebrava o seu 76º aniversário, João Lourenço, o novo homem forte do poder em Angola, procurou, estrategicamente, esvaziar as probabilidades do seu antecessor na presidência angolana vir a transformar a sua residência no bairro chique do Miramar num local de culto e romaria por parte dos “colunáveis” da capital angolana.

E João Lourenço alcançou, em parte, esse objectivo. Na passada terça-feira, 28, dia dos anos de José Eduardo dos Santos, a mansão do Miramar esteve longe de se converter na ‘meca’ dos homens e mulheres ‘que contam’ neste país – algo que teria, indubitavelmente, acontecido se as circunstâncias no panorama político de Angola não tivessem levado uma volta e JES continuasse a ser o homem do leme. Para tanto, basta lembrar que, há sete anos, no jantar comemorativo do 69º aniversário de JES estiveram no palácio da Cidade Alta mais de dois mil convidados.

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Os ponteiros do relógio político mudaram mesmo. Mas, em bom rigor, não se poderá dizer que JES já tenha perdido completamente a aura que o tornava no centro de todas as coisas no país. Admitamos que apesar de não ter tido o aparatoso séquito  do costume a partilhar com ele o “tchim-tchim” na sua mansão do  Miramar, JES ainda logrou conservar muito da mística e simbolismo de homem de poder, o que se pode desde logo avaliar pelo vasto programa de homenagem que a direcção do MPLA entendeu dedicar-lhe. Uma jornada que teve início a 21 deste mês e deverá estender-se até 04 de Abril de 2019, dia da Paz e da Reconciliação Nacional.

É provável que sejam os últimos estertores do culto de personalidade que lhe foi outorgado nos longos anos de poder. Mas isso só será integralmente avaliado quando ele entregar totalmente a João Lourenço a liderança do MPLA, durante o conclave extraordinário do partido a ter lugar já em Setembro próximo.

De modo que, por ora, se pode concluir que JES ainda não está tão sozinho quanto parece. Sente-se perfeitamente no ambiente o pegajoso ulular de orfandade que muitos ainda lhe prodigalizam. Na verdade, se há alguma solidão em JES, essa mede-se sobretudo pela ausência da esposa, Ana Paula dos Santos. Afinal, não é coisa de mentideiro: a figura feminina que acompanhou JES durante os últimos 30 anos tem sido a grande ausência do seu séquito familiar. E este é um aspecto de que não se pode passar ao largo neste momento, quer eventualmente pelas repercussões que tal facto possa ter sobre a personalidade do ex-Chefe de Estado angolano, quer pelo que isso representa para o seu equilíbrio emocional, em tempos de forte pressão como são indiscutivelmente os que ele vive presentemente.

A sustentável leveza da “Primeiríssima”

Há muito, de facto, que Ana Paula dos Santos deixou de ser vista ao lado do marido em grandes eventos públicos. Em rigor, a tomada de posse do novo Chefe de Estado, no dia 26 de Setembro de 2017, foi a última grande cerimónia pública em que José Eduardo e Ana Paula foram vistos juntos. E há mesmo quem afiance que naquele dia ela já não chegou a mudar-se para a mansão do Miramar, aonde o marido terá ido sozinho. Depois disso apenas se apresentaram juntos, se tanto, num ou dois actos de foro restrito e familiar, como um casamento. Há registos socialmente marcantes da ex-Primeira-dama comemorando o último revéillon com amigos no Palmeiras Club, conhecida casa de eventos da socialite luandense.

A partir do momento em que JES desposou Ana Paula dos Santos, a imagem da instituição presidencial passou a ter um ‘antes’ e um ‘depois’. Antes de 31 de Março de 1991, o dia em que ambos se casaram, faltava uma figura feminina para dar, diga-se, um toque moralizador ao palácio. Um chefe de Estado sozinho na Cidade Alta não se revelava contraproducente somente por passar como que a imagem de um Adão no Jardim do Éden sem a companhia de Eva. Isso também não infundia suficiente dignidade e respeitabilidade à instituição. Mas mais do que isso é que não era um bom exemplo para as famílias da sociedade angolana em geral.

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Até então, no seio do MPLA, sobretudo entre os seus históricos e patriarcas, existiam fundadas preocupações com os mexericos e falatórios suscitados pela condição de “solteiro maior” do mais alto magistrado da nação. Quando, aos 37 anos, José Eduardo dos Santos tornou-se presidente angolano, estava praticamente separado da russa Tatiana Kukanova, com quem casara em primeiras núpcias durante o tempo em que foi estudante em Baku, na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), sendo desse casamento que nasceu a primogénita Isabel dos Santos. Do casamento com Ana Paula, entretanto, resultaram quatro filhos – uma menina (Joseana) e trêss rapazes (Breno, Houston e Danilo, o rapaz do episódio do relógio em Cannes) – que se juntaram aos outros cinco que JES já tinha: Isabel, Tchizé, Zenu, Zedú e Joes.

Além de ter posto em ordem muita coisa no palácio presidencial – inclusive aspectos mais triviais como a decoração – Ana Paula, a graciosa aeromoça dos voos presidenciais que encantou José Eduardo, terá tido o condão de funcionar como um regulador e amortecedor de tensões psicológicas do Presidente em momentos cruciais. Foi assim no dia em que se viu obrigada a declarar, sem o menor rebuço, que “o avião é do meu marido!”.  Essa afirmação, é verdade, caiu mal aos jornalistas angolanos e grande parte da sociedade. Mas, para o bem e para o mal, a primeira-dama mostrava deste modo que partilhava integralmente com o marido-Presidente os tempos de bonança e de intempérie.

Certo, contudo, é que José Eduardo dos Santos, homem que dificilmente cede a pressões, preferiu esticar a corda e correr até ao limite. À Ana Paula restava o consolo de ter sido, como lhe competia, uma Primeira-dama atenta à componente social do cargo, que dinamizou empenhadamente dando corpo à Fundação Lwiny, ao Comité Miss Angola e outras acções no universo da mulher rural. Ter-lhe-á faltado, se quisermos assim chamar, a componente de aconselhamento mais científica e técnica – como aquela de que é capaz a sua sucessora, Ana Dias Lourenço, junto do actual Presidente da República.

Ao longo do tempo logrou diminuir a sisudez característica da personalidade de JES, levando-o a ter, apesar dos espartilhos do cargo, uma vida “pública e social” mais visível. É com Ana Paula que JES passou a ir com maior frequência a festas particulares, de casamentos a aniversários, assistir a shows musicais e, vez por outra, até a assistir a um filmezinho em estreia e a comer em restaurantes. A exemplo do dia de aniversário da esposa, em Outubro de 2005, salvo o erro – em que levou-a a jantar, como faria um cidadão comum, no Restaurante Tambarino, na zona da Maianga. Voltou a fazer outro tanto em 2010 na Esplanada Grill, propriedade da filha Isabel, à Ilha de Luanda.

Sabe-se hoje que se dependesse completamente de Ana Paula, JES teria abdicado há muito da presidência de Angola. Por estilo, forma de ser e encarar a vida, para a antiga Primeira-dama de Angola o poder tinha tempo para ser exercido e muitas vezes deixou essa ideia devidamente vincada. Mas é, sobretudo, agora que JES está fora da cena do poder – em  sentido formal e de Estado – que Ana Paula “cede” e prova que estava farta de viver sob os espartilhos do poder. E fá-lo da pior forma possível, pois à vista das gentes mais ciosas dos aspectos morais não é aceitável que ela não esteja com o marido naquele que é certamente o momento mais crítico da sua vida. É que JES saiu da chefia do Estado a caminho de ser octogenário e está quase tudo a desabar sobre si, num ambiente asfixiante e próximo da caça às bruxas. O seu consulado político-governativo é alvo de clara contestação popular, para não falar já do rigoroso escrutínio que impende agora sobre a riqueza que permitiu que os ‘súbditos da sua corte’ amealhassem, com primazia para os filhos.

Há neste momento, como é natural, clara curiosidade do público em saber se Ana Paula e José Eduardo irão reconciliar-se. Mas o facto é que será agora, com a cada vez maior abertura da sociedade, que o lado privado e íntimo do antigo presidente estará, de um modo geral, mais exposto ao escrutínio da sociedade. Sobretudo porque esse aspecto da sua vida sempre esteve oculto, mais oculto do que seria recomendável, mesmo para um homem com a aura e responsabilidade de Estado que ele teve.

Contudo, daqui para a frente, espera-se sobretudo que José Eduardo dos Santos (JES) consiga se dedicar a aspectos pessoais e privados da vida que o exercício formal do poder de Estado não lhe permitiu fazer. À semelhança do que fez terça-feira última, pode sair de casa no Miramar e ir ver mais vezes os ‘canucos’ da AFA, a academia de futebol de que é patrono. Também pode cavaquear mais vezes com amigos chegados – pelo menos aqueles que tiverem a coerência e hombridade de não se evadirem da sua rede de relações. Viajar e escrever as suas memórias são coisas que se recomendam igualmente nesta nova etapa.

Amigos e ritos de iniciação

Enfim, por natureza introvertido, ao longo do seu consulado, JES deixou escapar muito pouco dos seus relacionamentos, matéria em que foi absolutamente selectivo. Mas, pouco ou muito, sabe-se que passou por amizades na sua infância e juventude que acabaram por marcar a sua rede de relações pessoais na actualidade. Por coerência e princípios, ele tem relacionamentos construídos antes mesmo de se ter lançado na causa de libertação de Angola do jugo colonial e que hoje se perpetuam na atenção que dedica às organizações que constituem as suas falanges de apoio. Sem mencionar o carro-chefe que é a Fundação Eduardo dos Santos (FESA), a AkwaSambila e o Movimento Nacional Espontâneo são duas organizações em que estão corporizados os ritos iniciáticos por que passou na infância e juventude. É através delas que JES transfere e proporciona apoios ao seu bairro de infância, o Sambizanga, ainda que não tenha conseguido fazer dele o que Mobutu Sesse Seko fez de Gbadolite e Hophouet Boigny de Yamoussoukro. Contudo, JES esboçou nos últimos anos do seu consulado uma tentativa de fazer e deixar obra no mítico “Sambila”, com uns poucos empreendimentos que estão no entanto longe de proporcionar às gentes do seu torrão natal uma vida mais condigna. É muito pouco, pouquíssimo mesmo, o viaduto que deu maior e melhor mobilidade viária para quem sai da zona portuária e balnear da Boavista para o São Paulo. Também não acrescenta grande coisa o conjunto de apartamentos sociais que foi erguido no Bairro da Petrangol, nas cercanias da refinaria de Luanda.

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Não são muitos os verdadeiros amigos de JES. Mas, a partir do Sambizanga, com efeito, ele possui uma categoria de amigos e relações dessa época a que moralmente está ligado, seja pela gratidão, seja pela partilha de ritos de iniciação. A alguns até hoje rende e paga tributos, mesmo que postumamente. Por isso, não nascem do acaso a afinidade e a deferência que tem pelo bancário Sebastião Lavrador, com cuja família JES privou na infância, quando viviam perto um do outro, nas imediações do mercado de São Paulo, no Sambizanga. A casa da família de JES localizava-se num extremo da praça e a família de Zé Kiconha, pai de Sebastião Lavrador, residia do outro lado.

É a título póstumo a enorme consideração que JES tem por alguém que em vida se chamou Mário Santiago. Inicialmente muito poucas pessoas conseguiram ver as razões para que o antigo Campo da Revolução, no Sambizanga, levasse o nome dessa figura e, anos depois, o então Presidente angolano tenha mesmo pensado em transformar numa casa-museu a residência de família em que viveu esse “ilustre desconhecido”.

Mas já não é segredo. Mário Santiago diz muito a JES. Na verdade, por detrás dele está toda uma família com a qual JES privou na infância e juventude, cujo patriarca foi o velho Santiago, antigo fiscal do Porto Comercial de Luanda de origem santomense. Além de Mário, o ancião teve vários outros filhos, entre os quais José e Bia Santiago; esta última integrou o conjunto musical Kimbambas do Ritmo, da qual José Eduardo dos Santos também fez parte. Bia Santiago ainda vive e é uma das beneficiárias do conjunto de fogos habitacionais construídos no Bairro da Petrangol.

Mário Santiago também foi um dos integrantes do grupo de sete companheiros que em 1961 empreenderam com JES a conhecida fuga de Luanda para o Congo a fim de engrossar as fileiras do MPLA no maquis. Diante de algumas críticas em surdina, fazendo-lhe ver que, politicamente, Mário Santiago estava longe de ter a grandeza de um Agostinho Neto e, culturalmente, de se equiparar a um vulto como Óscar Ribas, JES reformulou o projecto inicial de fazer da residência dos Santiago um museu. Em lugar disso surgiu um centro de formação que leva o nome do pai, José Avelino dos Santos. O pretexto, portanto, para uma homenagem no interior da própria família do ex-Presidente angolano, cujo patriarca foi um velho e humilde calceteiro que, com o seu próprio suor e trabalho, deixou a sua marca na construção das calçadas da parte velha e histórica da cidade de Luanda.

Ficou por fazer uma homenagem menos discreta e mais pública a outro membro da família por quem JES nutria forte estima e uma particular dívida de gratidão. Os parcos proventos que o pai conseguia reunir do duro ofício de calceteiro juntavam-se, todos os meses, aos rendimentos do irmão mais velho, obtidos do humilde ofício de carpinteiro. Foram estes parcos recursos que asseguraram a formação de José Eduardo dos Santos até ao 7º ano no emblemático Liceu Salvador Correia.

Amigos de dedo e unha: um “duque” entre eles…

Não são muitos os amigos verdadeiros de JES, que podem aliás ser contados pelos dedos das mãos. Na confraria dos mais chegados, e também a título póstumo, destaca-se Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy” com quem, a exemplo de Mário Santiago, JES partilhou muita coisa na juventude passada no Sambizanga. Mas, ao contrário de Mário, com Loy a trajectória foi até ao pós-independência, adentrando pelas questões de Estado.

Há fortes razões para presumir que se Loy não tivesse falecido, o seu nome teria sido a opção mais forte a considerar para a questão da sucessão presidencial. Íntimos que eram, é provável que a passagem de testemunho fosse bem menos turbulenta. Dos conhecidos “7 magníficos” que sobreviveram à epopeia da luta armada de libertação contra a colonização portuguesa, Loy é o que mais longe foi no goto de JES. Quanto aos restantes, sempre que possível, JES manteve-se próximo, embora com a discrição ditada pelo cargo e a personalidade introvertida. Estão nesse rol o falecido Afonso Van-Dúnem “Mbinda”, bem como o embaixador Brito Sozinho, ambos também natos do Sambizanga.

Sem ter integrado o famoso septeto da fuga para o maquis, mas igualmente íntimo do antigo presidente, está Pedro Sebastião, antigo comissário político da unidade de desembarque e assaltos da Guarda Presidencial, que depois ascendeu a ministro da Defesa e foi feito embaixador em Espanha, governador do Zaire, etc.

Junta-se aos “chegados” uma personagem improvável, também ela selecta nos seus relacionamentos. Trata-se do diplomata Elísio Figueiredo (ex-embaixador em Londres, Singapura e Nações Unidas), apelidado como o “Duque”, pela personalidade de homem de maneiras e gostos refinados e sofisticados. Da primeira fornada de estudantes bolseiros enviados pelo MPLA nos tempos do ‘maquis’, por via da política, EF conquistou a confiança e tornou-se um dos íntimos de JES, de quem apadrinhou um dos filhos. Com ele chega a cavaquear nas ocasiões em que isso é possível, já que o “Duque, como se sabe, raríssimas vezes está em Angola.

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