MATOU TRÊS “A MANDO DE SATAN”, NO LUBANGO, E ENTREGOU-SE À POLÍCIA


O caso, insólito, deixa estupefactos alguns e há quem diga que “talvez o mundo esteja a chegar ao fim”, afinal, nem sempre se acompanha histórias em que um criminoso decide voluntariamente pagar pelos seus crimes. Júlio Ndumbo diz que o diabo o tornou num assassino invisível


O PAÍS


Júlio Pereira Ndumbo, jovem, com um semblante longe de levantar qualquer suspeita de agressividade, tem 1metro e 60 centímetros de altura, olhos límpidos, próprios de quem não consome bebidas alcoólicas, e um ar calmo e sereno. Apresentou-se neste Sábado (04) à Segunda Esquadra da Polícia Nacional na cidade do Lubango, província da Huíla, assumindo ter morto três pessoas. Tudo começou no ano de 2017, conta ele. O jovem, com 21 anos de idade na altura, buscava a satisfação das suas necessidades materiais e decidiu estabelecer um pacto com o demónio, através de uma ceita denominada Satan. Com o pacto feito, segundo contou a jornalistas, Júlio Pereira Ndumbo teria todas as suas necessidades satisfeitas, bastando, para o efeito, honrar certos compromissos, que passavam por tirar a vida a pessoas.

Neste mesmo ano, em 2017, cometeu o primeiro homicídio da sua vida, no bairro Branco, em que foi vítima o seu próprio primo de apenas sete anos de idade. Júlio aproveitou-se de uma desavença que teve com o seu tio, pai da criança, para matar a criança, asfixiando o menor até à morte. “Eu pratiquei três homicídios voluntários. Tudo o que eu fiz, não foi a mando de Deus, foi para cumprir um pacto com o diabo. O primeiro homicídio foi por enforcamento, como vocês sabem, todo o homem precisa de dinheiro, por isso tentei seguir o satanismo”, disse. O homicida confesso explicou que depois da briga que teve com o pai da sua primeira vítima, apercebeu-se de que tinha chegado o momento de fazer parte do mundo do oculto.

“Com a raiva que eu já tinha do pai da criança, quando vi a criança, que dormia comigo e disse para mim mesmo: ‘hoje esta será a minha primeira vez no mundo do satanismo’. Aí, eu asfixiei a criança e ela morreu”, revelou. Depois de ter dado o primeiro passo, Júlio explicou que se seguiu então o momento de exigir que os “deuses do mal” cumprissem a sua promessa. O primeiro pedido que fez foi para que os mesmos o protegessem no sentido de que todo o crime que viesse a cometer nunca fosse descoberto. “Não devia revelar isso, mas eu já tive milagre do diabo. Depois do primeiro homicídio, eu disse: “fiz isto, agora é a vossa vez, têm de fazer com que todo o crime que eu cometer permaneça oculto”, contou. “O que foi atendido com sucesso”, disse. O crime que vitimou o seu próprio primo nunca lhe foi atribuído,  até ao dia em que foi apresentar- se às autoridades policiais. Esta força (crença) levou o jovem ao cometimento de um segundo homicídio no mesmo ano, desta vez com uma faca, tendo sido vítima um amigo do seu irmão. “O segundo homicídio também foi no ano de 2017.

A vítima já não foi uma criança, mas um adulto, na zona da Verdinha. Eu matei um jovem na zona da Verdinha, também, no bairro do Tchioco”, afirmou. Com a certeza de ser um homem invisível na prática de crimes, Júlio Ndumbo não parou por aí. Ainda na última Quinta-feira voltou a fazer das suas, desta vez a vítima foi um peixeiro de 29 anos que estava no local errado na hora errada. “No terceiro homicídio, no bairro A Luta Continua, já não foi por ordem de Satan, foi mesmo por minha vaidade. Foi numa briga. Tentei acudir um meu primo, apanhei uma bofetada no olho”. Inconformado com o gesto, que considerou ter sido humilhante para si, disse que foi buscar um martelo e seguiu o oponente do primo que o esbofeteara. “Eu bati com o martelo na sua cabeça e ele caiu. Eu sabia que estava morto. Aquilo para mim era normal, mas no dia seguinte ouvi que naquele bairro foi encontrado um jovem morto. Fui lá confirmar, e era ele mesmo, a minha vítima”, adiantou.

Tio da última vítima confirma que o autor do crime era desconhecido

A família de José Mupékua Tcholila, a última vítima de Júlio, diz que tomou conhecimento da morte do seu ente querido na manhã do dia seguinte à sua morte. Fernando Júlio, tio de José Mupékua Tcholila, contou à nossa reportagem que o corpo  do seu sobrinho foi encontrado por volta das seis horas do dia 2 deste mês, a 100 metros da casa onde residia. No local em que aconteceu o infortúnio ainda era possível, ontem, vislumbrar os vestígios de sague resultantes da agressão na região craniana da vítima. “Apercebemo-nos, por volta das seis horas, quando as pessoas iam para a igreja, alguns é que deram conta do corpo ali estendido. Daí, nós tivemos que ligar para a Polícia, que removeu o corpo. Até agora não sabemos de nada sobre quem foi o autor deste crime”, assegurou Fernando Júlio.

“O crime que cometi estava longe da descoberta humana”

Os pedidos feitos pelo jovem de 22 anos de idade (fará 23 este ano) pareciam surtir efeito, só que tudo não passou de uma mera ilusão, afinal, não há crime perfeito, ainda que falhe apenas a consciência. Segundo disse, se não fosse por um apelo divino, nem mesmo a inteligência do Serviço de Investigação Criminal (SIC) seria capaz de descobrir as suas façanhas, que já levaram para o outro mundo três pessoas. “Eu estou aqui não pela vontade do homem, porque o crime que eu cometi homem algum sabia. Eu vim por vontade própria, não foi a Polícia que me deteve”, frisou. Júlio Ndumbo contou que depois do terceiro homicídio (contra um homem errado, não o que agredira o seu primo) sentiu remorsos e contou tudo a um amigo.

“Disse que tinha matado três pessoas e quis saber se Deus me perdoava, ele respondeu-me que sim, se eu me entregasse à Polícia, e, assim, vim, no Sábado passado, entregar-me”, declarou. O jovem diz-se arrependido e quer pedir desculpas às famílias das suas vítimas, prometendo nunca mais voltar a cometer qualquer tipo de crime. Ainda assim, deixa um recado a todos os jovens da sua idade que pretendam alinhar pelo mesmo caminho. “Na verdade, estou arrependido pelos crimes que cometi. Eu quero dizer aos jovens que este é um mundo vaidoso e com curto tempo de vida. Quem ainda tem esse desejo de seguir o mundo de Satan, que desista, o diabo nunca é amigo do ser humano, por mais que ele te atenda, mais tarde vira- se contra ti”, recomendou. Nos últimos tempos, a província da Huíla tem vindo a ser palco de muitos homicídios, alguns com pretextos de crenças religiosas. Recentemente, OPAÍS publicou, na edição de 28 de Junho a morte de um senhorio pelo seu inclino “religioso”. Na altura, o autor do homicídio, de que foi vítima um cidadão de 36 anos da idade, no bairro Nambambe, arredores da cidade do Lubango, disse à nossa entrevista, que cometeu o crime “a mando de Deus”.

Socióloga defende maior investimento para a estabilidade social

Solicitada a analisar o caso, a socióloga e docente universitária Aida Nelson diz ser necessário que o Governo angolano invista mais na zona rural para a estabilidade social. Para a académica, as assimetrias aumentam cada vez mais os níveis de pobreza na sociedade, fazendo com que os cidadãos se tornem vulneráveis a qualquer promessa virada para a resolução dos seus muitos problemas materiais. “Primeiro temos de compreender a nossa realidade social. Infelizmente, nós, os angolanos, estamos a passar por um momento de crise económica e social, o maior dos nossos problemas são os valores e o grau das assimetrias, que é muito alto”, declarou. Face à essa situação, Aida Nelson considera que o Governo tem de investir mais nas zonas ruais e peri-urbana, porque as assimetrias tornam os homens pobres e a pobreza deixa-os mais vulneráveis.

Na sequência, Aida Nelson disse que nas circunstâncias de pobreza, a religião tem servido de escape para muitos cidadãos. “Em tempos de crise, a religião, às vezes, funciona como um escape. O cidadão procura na religião o consolo para as dificuldades que tem dentro da sua realidade social”, detalhou. “É necessário que os sociólogos e os psicólogos comecem a desenvolver as actividades para as quais foram formados. É necessário envolver toda a sociedade, desde os pais ao Estado”, rematou. Este homicida confesso foi apresentado ontem pela Polícia Nacional aos órgãos de comunicação social, na companhia de outros cinco cidadãos implicados na prática de crimes de roubo, furto e burla. O director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Comando Provincial da Policia Nacional, surpreendente Carlos Alberto, informou que estão a decorrer todos os trâmites legais para a sua apresentação ao Ministério Público. “Nesta altura decorrem todos os processos para que este homicida seja apresentado muito rapidamente ao Ministério Público”, garantiu.


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