Em Estrasburgo João Lourenço largou a artilharia toda em cima de JES

Reacende-se a bicefalia. João Lourenço escolheu um palco estrangeiro para, definitivamente, demarcar o território do poder. Mas vários observadores estão persuadidos de que JES responderá na mesma medida. O Correio Angolense sabe, por exemplo, que decorrem negociações, em estágio avançado, para que a TV Zimbo venha a entrevistar José Eduardo dos Santos já nos nos próximos dias. Se a entrevista sair, seria o palco para a desforra de JES.

ão há unanimidade nas reacções do público ao primeiro discurso de um chefe de Estado angolano no importante areópago da política internacional que é o Parlamento Europeu em Estrasburgo. João Lourenço colheu fortes aplausos, mas também houve quem se mostrasse bastante decepcionado com a performance do presidente angolano. Entre estes últimos está o sociólogo moçambicano Elísio Macamo que teceu fortes críticas públicas ao discurso de João Lourenço diante dos eurodeputados (ver em OPINIÃO o comentário de Elísio Macamo).

Mas a verdade é que em relação à maioria dos analistas da política doméstica, João Lourenço teve nota alta. Isto devido ao facto de se ter demarcado, sem rebuços, das piores práticas de governação do seu predecessor, José Eduardo dos Santos, nomeadamente a corrupção e a impunidade, o crime de colarinho branco, bem como o saque e a gestão ruinosa dos recursos do Estado.

Na realidade, desde que está em funções como Presidente da República, nunca João Lourenço havia sido tão contundente em relação ao consulado de José Eduardo dos Santos, como se mostrou agora em Estrasburgo. E pode dizer-se que foi um autêntico soco no estômago do homem que lhe passou o leme do país.

De um modo geral considera-se que, desta vez, João Lourenço tratou realmente de demarcar o território, mostrando ser ele quem detém o poder e, mais do que isso, o que fará com ele. Mas o pior, na avaliação de muitos, é que esse ataque teve um cunho de forte humilhação a José Eduardo dos Santos, uma vez que que foi desferido num foro inesperado, se não impróprio – a partir de um palanque fora de Angola, tendo por audiência importantes dignitários estrangeiros.

As contas que se fazem agora é em relação ao efeito que isso possa ter causado no próprio José Eduardo dos Santos. É óbvia a sensação aziaga de humilhação e exposição pública que o ‘antigo senhor’ estará a sentir neste momento. Muito mais do que terá eventualmente sentido pela defenestração dos filhos Isabel e Zenu dos Santos dos cargos de gestores máximos da companhia petrolífera nacional, Sonangol, e do Fundo Soberano de Angola, bem como outros actos que redundaram, em tese, no afastamento da antiga família presidencial das principais fontes de dinheiro do país.

No entanto, observadores atentos da cena política angolana estão expectantes para o tipo de resposta que poderá vir de José Eduardo dos Santos. Alguns estão fortemente persuadidos que ele fará alguma coisa, o que pode passar, para já, por levar João Lourenço a pagar na mesma moeda. Olho-por-olho-dente-por-dente.

Para tais analistas, não será de espantar que nos próximos tempos, o presidente angolano venha a ser, na mídia em geral, ‘passageiro frequente’ de notícias nada abonatórias para a sua imagem. Sobretudo informação que o mostre igualmente como tendo estado envolvido nos actos de que hoje se apresenta visceralmente crítico. Tratar-se-ia, enfim, de enlamear a imagem de João Lourenço, expondo-o igualmente como um dos comensais da ‘farra’ que foi este país, no que diz respeito a actos de corrupção e saque do erário, durante o regime eduardista.

Correio Angolense sabe, por exemplo, que decorrem negociações – já em estágio avançado – para que a TV Zimbo venha a entrevistar José Eduardo dos Santos, o que poderia efectivar-se nos próximos dias. Caso se concretize a entrevista, que seria por sinal a primeira de uma estação televisiva ao antigo Presidente angolano, ela também se poderia converter numa oportunidade para José Eduardo dos Santos ‘dar o troco’ a João Lourenço.

A ocasião consolidaria igualmente a ideia de que, em território nacional, a televisão de Talatona é a estação, por excelência, para onde o clã do antigo PR vai carpir mágoas. Estamos lembrados que a Zimbo foi a escolha de Isabel dos Santos para a entrevista de resposta às graves acusações que lhe foram lançadas pelo seu sucessor na administração da Sonangol, Carlos Saturnino.

Dê por onde der, nesta novela, as cenas dos próximos capítulos acarretam igualmente desafios para o próprio MPLA. O partido da situação terá de mostrar, definitivamente, se apoia na íntegra os desígnios progressistas manifestados por João Lourenço, que será em princípio o seu próximo líder.

A campanha recentemente despoletada pelo MPLA no sentido de se promover uma homenagem a José Eduardo dos Santos passa publicamente a ideia de que o partido continua de certo modo agarrado ao passado. Com José Eduardo dos Santos a ser relançado como uma espécie de líder moral, paira mesmo uma sensação de que alguns círculos estarão a manobrar no sentido de se reacender o estado de bicefalia, que se julgava morto e enterrado.

Sem defender-se exactamente um cenário de vendetta contra José Eduardo dos Santos, a análise de muitos vai no sentido de que seria porém contraproducente estar a criar-se um cenário de endeusamento de alguém cuja imagem está enterrada até ao pescoço, em virtude das más práticas que conduziram o país para o atraso em que actualmente se encontra.

Acredita-se que tenha sido em face deste quadro que João Lourenço resolveu ir a Estrasburgo com toda a artilharia pesada, demarcando como nunca o fez o seu território. Tal como se pode, de resto, aferir pelo seguinte trecho do seu discurso diante dos parlamentares europeus.

João Lourenço dixit

“No quadro da moralização da sociedade, da criação de um melhor ambiente de negócios e de maior atenção ao investimento privado estrangeiro, levamos a cabo uma verdadeira cruzada contra a corrupção e a impunidade em toda a sociedade, com destaque para os chamados crimes de colarinho branco, cujos resultados positivos, asseguramos, em breve começaremos todos a sentir e a beneficiar.

Paralelamente, um conjunto de outras medidas vêm sendo adoptadas como a recente aprovação pelo Parlamento angolano da nova Lei da Concorrência que tem como objectivo prevenir e sancionar as acções dos agentes económicos que não cumpram as regras da concorrência, a aprovação da Lei do Investimento Privado, que se tornou mais atractiva para o investidor no geral, e em particular para o investidor estrangeiro.

Ali onde ainda foi possível, foram anulados contratos bilionários com a construção e gestão de importantes infraestruturas públicas, caso do Porto da Barra do Dande, por não se terem respeitado os mais elementares princípios da transparência e da concorrência. Foi aberto concurso público para novas licenças de telefonia móvel e a privatização em parte do capital da Angola Telecom. Estudos decorrem para a privatização em concurso transparente ou em bolsa de algumas empresas públicas de diferentes sectores, incluindo o petrolífero.

Foi há dias, aprovado em Conselho de Ministros, o novo modelo de comercialização dos diamantes, que acaba com os chamados clientes preferenciais, por outras palavras privilegiados, que tinham o monopólio do negócio em detrimento das empresas produtoras e até da própria concessionária, a EMDIAMA. Acreditamos que com esta medida veremos em breve o regresso das grandes empresas multinacionais do sector, quer das produtoras como das de comércio e de lapidação de diamantes.

No mesmo quadro de moralização da sociedade, combate à corrupção e à impunidade, decorrem nos competentes órgãos de Justiça processos crimes contra aqueles cidadãos que presumivelmente terão lesado o Estado em centenas de milhões de dólares americanos, aguardemos pelo seu desfecho.

Foi ainda aprovada a Lei do repatriamento de Capitais, que tem como objectivo fazer o repatriamento voluntário pelos seus detentores, dos avultados recursos financeiros, verdadeiras fortunas que um restrito grupo de cidadãos angolanos detém em paraísos fiscais ou em Bancos pelo mundo fora.

Foi nossa intenção dar-lhes a possibilidade de trazerem esses recursos voluntariamente para o país e com eles realizarem investimentos na nossa economia, criando riqueza, criando emprego, contribuindo desta forma para o fortalecimento da economia nacional.

Esta janela que se lhes abriu, será por um período exacto de seis meses que expira no final do corrente ano, findo o qual o Estado terá toda a liberdade e legitimidade de utilizar todos os instrumentos legais a seu dispor não só para localizar e recuperar a totalidade destes recursos, que são do povo angolano, como também de levar as barras da justiça os seus responsáveis.”



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