“De cobrador de táxi a jornalista premiado”

O MEU PASSADO: Nasci em 1986 na França, um bairro pobre da bonita cidade da Ganda, Este da província de Benguela. Mas, infelizmente, por causa da guerra, minha família mudou-se para cidade de Benguela, em finais de 1989. Eu tinha sete anos quando o meu pai abandonou-nos. Naquela época, morávamos no Kalohamwé, nos subúrbios do Lobito. Ali, passei os piores momentos da minha infância e, dos quais, porém, não gosto de lembrar (É por isso que me constrange a ideia de ir ao Lobito, porque reaviva as memórias de negras nuvens de guerra que surgiram no horizonte). Não obstante, a ida do meu pai a Luanda despedaçou o meu coração, porque gostávamos muito dele. Assim, a minha mãe teve de trabalhar muito para cuidar de cinco crianças. Mais tarde, nossa família mudou-se para Benguela. Na maior parte do tempo, vivíamos mudando de casa em casa, de bairro em bairro, como fazem os “sem-abrigos”. Em Janeiro de 2003, quando eu tinha 17 anos, saí de casa onde morava com a minha mãe e os meus irmãos, no Quioxe, periferia de Benguela. Fiquei muito triste, mas era necessário seguir o meu destino. E isso deixou um enorme vazio no meu coração. Eu gostava muito da minha família. Por isso, não conseguia entender por que razão aquilo estava acontecendo. Por causa dessa situação, comecei a faltar às missas, ao grupo de acólitos e, por conseguinte, desisti da vocação de ser padre… Procurar emprego era idealmente a alternativa para eu sobreviver com dignidade. Assim, tornei-me um jovem solitário, cabisbaixo e mergulhado nos labirintos da pobreza. Eu estava sempre a bater à porta de lojas e bares da cidade de Benguela, e acabei várias vezes ouvindo a frase: “não há vagas…continue procurando”. Muitas vezes, eu ia almoçar à casa da minha avó Paulina, no Campo de Ténis. É por essa feliz razão que mantenho até hoje uma super-relação familiar com essa generosa e bondosa senhora, a quem sou muito grato por me ter estendido a sua mão caridosa quando eu mais precisei.
Passado um tempo, procurei um ex-colega meu do Liceu, chamado Herlander. Ele disse-me que o seu irmão mais velho estava à procura de um cobrador de táxi. Eu nunca tinha trabalhado antes, a não ser vender gelados e guloseimas em casa e, às vezes, em escolas, praias e jardins. No entanto, fiquei muito entusiasmado por saber que finalmente ia começar a trabalhar. Apesar de alguma relutância, o Cacá, motorista e filho do proprietário do Toyota Hiace, acabou por me oferecer o tão desejado trabalho. Desta forma, fiquei muito aliviado ao saber que não ia mais passar fome e que teria algum dinheiro para comprar roupas, arrendar um quarto e estruturar a minha vida, mas principalmente sustentar os meus estudos. Eu estava a frequentar a 9ª classe na Escola de Formação de Professores de Benguela. À medida que o tempo passava, percebi que tinha de continuar o meu estudo custasse o que custasse, fosse qual fosse o preço. Todavia, eu entendi que, para mudar a minha vida, era necessário não só trabalhar como dedicar-me de corpo, alma e espírito à formação académica. Lembro-me de que, naquela altura, as pessoas fingiam que não me conheciam sempre que me vissem na praça da Caponte chamando: “lobito-lobito-lobito-lobito-lobito”. Era o sinómino da luta pela minha digna sobrevivência.
Nunca me esquecerei do que aconteceu num certo dia. Um grupo de jovens do Lubango que seguiam no táxi onde eu trabalhava encorajou-me ardentemente dizendo que tinha habilidades para outro trabalho, que não aquele no táxi. Naquele momento, pedi ajuda a Deus para me manter firme. Embora eu quisesse mudar de trabalho, não conseguia e então consegui segurar-me. Mas eu estava decidido a continuar o meu estudo e a não permitir que nada nem ninguém atrapalhasse o meu sonho.
Em meados de 2003, o meu irmão mais velho, Mário Honório, apercebera-se de que eu tinha deixado o serviço de táxi e então arranjou-me uma vaga no Secretariado Municipal da JMPLA em Benguela. Primeiro, trabalhei como estafeta. De seguida, fui promovido a Instrutor Político. Da Jota, como se costuma dizer, segui para ANGOP, que foi a rampa de projecção para eu crescer pessoal e profissionalmente
A perseverança mudou completamente a minha vida e nem fazia ideia de que as promessas de Deus estavam por vir no horizonte. Hoje, eu sou jornalista, poeta, consultor de Português Prático. Como repórter a serviço da Agência de Notícias de Angola desde finais de 2003, já tive o privilégio de viajar a vários países africanos como Namíbia, Sudão, Etiópia, Malawi. Em trânsito, acabei por respirar os ares do aeroporto da África do Sul e do Quénia. Em 2016, 13 anos depois que abracei a carreira jornalística, vi, vim e venci o Prémio Nacional de Jornalismo na categoria de Imprensa, o mais alto galardão da área em Angola. Uma sensação de alívio invadiu a minha família e amigos e o meu coração pulava de alegria. Parentes e amigos aglomeraram-se no Aeroporto da Catumbela, onde me receberam compartilhando de nossa felicidade.
Entretanto, vivi, por algum tempo, na Massangarala, à entrada da cidade de Benguela. Enquanto estava lá, em 2005, conheci uma jovem muito animada chamada Bita, e casámo-nos em 2007. Eu fiquei grato a Deus por me ter dado um presente tão maravilhoso. O nosso tesouro são os dois filhos que Deus nos deu.
Com paciência e fé, sigo confiante nas promessas de Deus. Estou muito grato a Deus por tudo o que fez por mim. Meu desejo é ser fiel a Deus para sempre.
Portanto, talvez poucos de entre vós sabiam que para chegar aonde cheguei superei muitos e muitos obstáculos da vida e venci. Não, porém, porque seja o mais forte, mas tão-somente porque o manto sagrado de Deus protegeu-me dos laços do inimigo. Quando olho para trás, orgulho-me de todas as dificuldades por que passei.
Obrigado por ler um pouco da minha história.
Que Deus abençoe e te conceda a graça da superação.




Narrado por José Honório

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