Causou comoção ver as cidades de Benguela e do Lobito silenciosas neste fim de semana prolongado, em que se tornou claro que longe, muito longe mesmo, vão os tempos áureos em que de Luanda, do Cuanza Sul, do Huambo, chegavam caravanas de nacionais e estrangeiros, para degustar o que a província oferece tanto no que se refere à culinária, mas, principalmente, aos encantos naturais que proporcionam as suas praias de areia branca, as paisagens deslumbrantes e a hospitalidade da sua gente simpática e hospitaleira.
Por algum tempo, porque oferecia segurança e tranquilidade, esta província tornou-se, por mérito próprio, rota nacional do turismo interno, mas também internacional, porque foi destino de cruzeiros. Estas cidades e a Baía floresceram, ganharam vida e o sector hoteleiro cresceu em todos os aspectos.
Para essa ‘seca’ no passado final de semana prolongado, contribuiu não só o aumento das tarifas cobradas pelas principais companhias aéreas mas, fundamentalmente, a degradação e a forma como está a decorrer a intervenção na estrada nacional nº. 100, que liga Luanda ao Lobito. Não foram só os efeitos da crise e da estagnação da economia. Somos de opinião, que a realização dessa empreitada, nos moldes em que decorre, devia ter obedecido primeiro à um estudo sobre o seu impacto na economia de Benguela. Parece-nos que era sim possível atenuar, diminuir os constrangimentos na circulação e os consequentes prejuízos aos veículos ligeiros e pesados e à economia, se em vez do ataque a ‘ilhas’ em toda a extensão dos cerca de 450 km (até a Barra do Cuanza) de estrada, as quatro empresas chinesas intervenientes encurtassem e interligassem as suas áreas de intervenção. Mas, enfim… como só os iluminados que funcionam na estrutura central do Governo sabem pensar no que é ou não certo para todo o país, não contam os efeitos colaterais que atingem quem tem que pagar impostos, tem despesas de funcionamento e de salários com o pessoal. Só que quando os interesses da governação não estão em consonância com os do sector privado, o progresso não anda, fica emperrado, como, infelizmente, está a acontecer.
O passado, não muito distante, recorda-nos que estes centros populacionais do litoral já estiveram em franco crescimento, atingindo o pico em 2010, com a construção de novas infraestruturas económicas e sociais, a renovação de estradas, de passeios, jardins, novas unidades hoteleiras e de restauração, realização de eventos nacionais e internacionais, conferências e para além da reabilitação do Caminho de Ferro, ganhou outros importantes aportes como foi o aeroporto internacional da Catumbela.
Por isso, causa também comoção, ver como em pouco menos de seis anos, quase todos esses ganhos conheceram um nível de degradação tão acentuado. É de partir o coração! E, incontornavelmente, esse estágio obriga todos os seus cidadãos e amigos da província à uma reflexão profunda, que conduza à maior intervenção e engajamento voluntário, na solução das questões que afectam essas comunidades, sob pena dessa regressão atingir níveis mais acentuados que os do período que antecedeu à conquista da paz.
Mesmo a calhar, lembramo-nos de uma constatação do escritor Manuel Rui Monteiro, há mais de 15 anos, durante o acto em que autografou algumas das suas obras no matagal em que se transformou a Estufa (ao lado da ponte sob o rio Cavaco), que as cidades de Benguela e do Lobito nunca estiveram sob guerra, e não se percebia porquê que tinham as estradas esburacadas. Logo, tal como naquela altura os buracos não tinham relação directa com a guerra nem eram consequência dela, a regressão que se assiste agora também não pode ser só, consequência da crise. Resolutamente, não aceitamos essa argumentação.
Contribuem sim, muitos outros factores e de entre eles, o mais influenciador, tem sido a ausência de um factor motivador e aglutinador da sociedade, em vez de desmobilizador. Perdeu-se, ao longo dos últimos seis anos, por imposições políticas do partido no poder, aquela mística contagiante, que para além de congregar benguelenses e lobitangas (incluindo os adoptados como eu) em torno de grandes causas para o bem comum, servia de elemento unitário. Mas os interesses pessoais sobrepuseram-se aos da maioria, atacaram-se pessoas, afastaram-nas, marginalizaram-nas, sufocaram-nas e esse fogo quase se extinguiu.
Não é que as forças influentes dessas duas praças deixaram de existir. Não! Elas estão vivas só que, por razões perfeitamente compreensíveis, optaram por se distanciar para, como se diz, “viverem tranquilamente, sem conotações, sem problemas”. E, de facto, conseguiram tranquilidade. Mas, no meio desse novo ambiente de apatia, quem mais se sentiu afectada foi a sociedade porque perdeu dinâmica, fechou-se, deixou de ser participativa e de ter iniciativas. Até a Associação das Acácias Rubras está distante, porque erroneamente, alguns filhos de Benguela entenderam que fica melhor em Luanda, porque é lá que está o poder. Mas será que é lá que está Benguela com os seus problemas do dia-a-dia?
Facilmente, é notório que essas duas cidades se ressentem ainda dos estragos causados por certa governação que chegou a Benguela, taxou quase todos como incompetentes, importou parceiros económicos e sociais da Huíla, de Luanda, do Namibe, da Tuga e “do raio que o parta”, como se diz por aqui. Esqueceu-se da velha máxima que dá conta, “que os governantes passam, mas o povo permanece sempre o mesmo”.
Agora, as novas autoridades administrativas dos dois municípios têm pela frente, um longo percurso para voltar a fazer funcionar a aliança com a sociedade. Em Benguela, até que já se deu o primeiro passo, com o envolvimento de alguns empresários locais na recolha de lixo e a tapar alguns buracos, porque já não há dinheiro para pagar as empresas prestadoras desses serviços acobertadas por dirigentes e governadores, que sugaram a teta até secar o leite. Mesmo tratando-se de acções paliativas, representam o restabelecimento ou o princípio da normalização de uma relação que já valeu ouro, mas que foi abruptamente interrompida por quem governou (e se beneficiou).
Não tem como (essa relação) não voltar a ser coesa, e não há como ser diferente, porque é essa sociedade que sofre com o lixo e com os buracos até porque quem foi trazido pelo ex-governador sumiu. Está a aguardar pelos pagamentos da Dívida Pública. Por isso ainda está patente alguma mágoa: “Fomos preteridos de forma maldosa a favor de empresários de outras paragens; tiraram o pão aos nossos trabalhadores muitos dos quais tivemos que despedir; faliram as nossas empresas em proveito das deles mas, agora, na hora do aperto, porque já não há dinheiro para eles, é a nós empobrecidos que pedem socorro; somos nós que aparecemos a colaborar, porque vivemos aqui e são os nossos filhos, irmãos, pais, tios, os nossos trabalhadores e as suas famílias, que podem ser afectados por doenças, que põem em risco de vida, centenas de famílias”. E deixam o recado: “…Que ao menos, sirva de lição para quem chegou”.
Entretanto, completaram-se três anos desde que as duas cidades foram varridas por intensas chuvas, que deixaram um saldo elevado e inolvidável de mortes e estragos materiais. Mas as valas de escoamento do Lobito que foram de seguida limpas com a intervenção da sociedade lobitanga, estão de novo cheias de terra e de lixo. Oxalá “Abril chuvas mil” seja desta vez benevolente, pois, afinal, quem pretendeu responsabilizar o então administrador pela falta de verbas não disponibilizadas pela governação central para realizar esse trabalho, também foi exonerado sem honra nem glória. Acabou por fazer menos ainda. Referimo-nos concretamente ao ex-governador e não ao ex-administrador, promovido entretanto para outro lugar influente mais próximo do ‘apóstolo’ João, e ainda bem, distanciado dos holofotes, porque é de difícil trato onde quer que passe. Mas em Angola é assim. O poder, mesmo transferido, continua useiro e vezeiro na elevação ou rotação da incompetência e dos comilões.
Provavelmente, o ex-governador mereceu essa promoção, porque idealizou, na zona dos Cabrais, um projecto de urbanização de grande sapiência, não concluído pelas famílias beneficiárias pela razão impeditiva que todos conheciam: falta de recursos.
As vozes críticas que se levantaram antes do início da construção das bases, incluindo a do administrador municipal exonerado, tinham razão. Resultado: as populações continuam na indigência. Mas o que fazer, se o ex-governador se acha um grande e iluminado visionário admirador de Donald Trump, que descobriu que combater a pobreza e dar dignidade aos angolanos discriminados pela governação do seu próprio partido, passa por construir casas com piscina, quando não há sequer água para matar a sede?
Enfim, para cada cabeça a sua sentença. Só que, os factos não desmentem. Em 43 anos de independência, de Sócrates Daskalos, passando por Kundi Payahama e João Lourenço, os benguelenses têm sido transformados em cobaias da governação central e do partido no poder e como resultado, a imunização está a conduzir à apatia geral. Já viram de tudo e mais alguma coisa em matéria de governação, por isso, nada mais os surpreende. Eles, os governantes, hão-de passar sempre, mas o povo continuará por cá, curando as mesmas feridas.
Contudo, não acredito que em matéria de estragos, algum dia alguém supere o 10.º homem que governou Benguela no pós-independência. Pelo menos no que toca ao mau (péssimo) relacionamento com a sociedade. Não se viu ninguém igual e com tanta apetência para disparar contra os seus próprios pés. Já emprestamos a nossa colaboração há pelo menos três governadores, em duas províncias e não vimos igual: servimos um que conseguiu aguentar-se por 12 anos e foi considerado administrativamente com dos melhores do país; outro, que pelo seu grande desempenho e competência, foi catapultado para primeiro-ministro e, finalmente, àquele que devolveu dignidade a Benguela, porque quando aqui chegou, o cenário e o ambiente era quase semelhante ao que se vive agora. Trata-se do general Armando da Cruz Neto. Merece pois a nossa reverência. Como os demais, também cometeu erros. Mas soube entrar e sair sem clivagens, devolveu autoridade aos directores provinciais descentralizando e descongestionando a governação. E Benguela beneficiou da sua elevada estatura e capacidade de convencimento das autoridades centrais, para trazer para este moinho investimento público distribuído por toda a província, municípios e comunas. Uma acção meritória de continuidade do que estava bem no desempenho da governação de Dumilde Rangel.
Ao 10.º ex-governador, para brilhar, faltou sobretudo humildade. Bastava-lhe apenas trabalhar com a sociedade para preservar o que herdou de bom ou melhorar a obra inacabada que encontrou. Mas não! Porque se colocou no mais alto patamar de superioridade, como uma sumidade, aos seus olhos preocupou-se mais em rotular como burros os que encontrou. Mas, quis o destino que o único espertalhão que governou Benguela em 43 anos de independência, saísse com o triste averbamento curricular de ter sido no seu consulado que mais benguelenses morreram, quer nos hospitais por falta de medicamentos, quer como consequência das chuvas. E enquanto os pobres morriam por falta de assistência, uma ala privada de luxo foi construída dentro do próprio hospital público, com meios e equipamentos públicos, com pessoal técnico pertencente e pago pelo hospital público, sem que se tenha dito até agora, quem foi o beneficiário das receitas geradas. Para além do Banco Externo que estava (ou foi) quase surripiado.
Homens dessa extirpe não estão dotados da sensibilidade que caracteriza os humanos e os líderes, nem conhecem o significado e o alcance do sentimento nobre de solidariedade. Os seus olhos só têm um objectivo: captação de imagens que se convertam em riqueza, não importa se por cima de cadáveres do seu próprio povo.
Para ilustrar a diferença, fomos ao nosso baú de recordações rebuscar um feito que homenageia o sempre saudoso comissário provincial/governador de Benguela Paulo Teixeira Jorge. Com milhares de deslocados à porta, quando a guerra atingiu o auge, fez meia dúzia de telefonemas, enviou alguns faxes e conseguiu por via das suas relações pessoais que no Porto do Lobito atracassem navios trazendo ajuda de todo o tipo, que serviram durante anos, para salvar milhares de compatriotas provenientes de outras paragens do interior. Não tirou qualquer proveito.
Mas porquê esse exemplo? Apenas porque achamos que é a sensibilidade, o espírito patriótico, o amor ao próximo, que distingue os bons dos maus dirigentes e governantes e deveria constituir o ponto central da actuação dos governadores: o fazer bem sem olhar a quem, que permite estabelecer a harmonia e a sã convivência. E isso não está, nem nunca esteve, intrinsecamente ligado à disponibilidade de qualquer fundo do OGE. Isso tem relação directa com o nosso íntimo, com boas práticas. Quem chega para governar, ao abrigo da transparência, deve-se auto impedir de fazer negócio com o Governo, por via directa ou indirecta (filhos, outros familiares e amigos). E menos ainda, abocanhar propriedade(s) ou meios que permitam constituir riqueza pessoal ou para os seus descendentes.
O caso da obra (embargada) na Praia do Pequeno Brasil, é só um pequenino detalhe do muito mal que se fez à Benguela em proveito próprio. Mas há outros casos de venda de terrenos, expropriações indevidas, atropelos à lei. A la long, o tempo se encarregará de nos apresentar mais um arguido para a história desta maravilhosa Angola, que está ainda muito longe de ser de todos nós, porque quem manda não são os governados. É quem governa.


Por: Ramiro Aleixo |Facebook

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