Pacientes com “Tala” enchem cirurgia do Hospital Américo Boavida em Luanda

Cerca de 60 por cento dos pacientes internados no Serviço de  Cirurgia  Geral do Hospital Américo Boavida deram entrada com queixas de “Tala”.

Segundo observação clínica, a maior parte das pessoas chegou àquele estado porque, primeiro, tentou o tratamento tradicional. Mas, depois do diagnóstico, foi indicada a  assistência no bloco operatório, para limpeza ou  amputação.

Cerca de 60 por cento dos pacientes internados no Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Américo Boavida deram entrada com queixas de “Tala”. Segundo observação clínica, a maior parte das pessoas chegou àquele estado porque, primeiro, tentou o tratamento tradicional. Mas, depois do diagnóstico, foi indicada a assistência no bloco operatório, para limpeza ou amputação.

E onde se encaixa a Ordem dos Médicos, neste âmbito?

Neste âmbito, a Ordem dos Médicos é a organização que deveria desempenhar esse papel, designadamente, a estabelecer pontes entre a comunidade médica e a Direcção do país e, incansavelmente, levar as preocupações legítimas dos seus filiados, pugnando pelo respectivo equacionamento. Quando esta organização representativa da comunidade médica converter-se numa espécie de departamento orgânico do Minsa ou apêndice de algum Comité de Especialidade de determinado partido, pervertendo a sua natureza, o resultado será a sua manietação por essas estruturas político-administrativas, perdendo-se o potencial que lhe permitiria contribuir, autonomamente, para a construção do SiNS e do país.

Os médicos subalternizam o lado humanista da profissão, na busca de rendimentos?

Em nenhum ponto! Imolarse conscientemente na eventualidade de ser infectado com HIV (pela picada acidental de uma agulha), ao prestar assistência a quem dele é portador ou de uma qualquer outra infecção, não poderia ser superado por qualquer outro gesto de humanismo, nem confundido com o imperativo de juntar pecúlio. A intensa participação dos clínicos em instituições, outras que não as principais, não é movida pelo princípio de aplicar habilidades profissionais avantajadas a alguns doentes em detrimento de outros. É a diferença de condições de trabalho, nas instituições sanitárias, que permite actos assistenciais capazes de gerar resultados mais ou menos eficazes, em condições mais ou menos angustiantes. Por fim, a obtenção de rendimentos complementares é uma continuação do compromisso de continuar a tratar os menos beneficiados materialmente no serviço público. Isso porque, quando faltarem recursos ao médico para manter a sua vida pessoal e familiar, não disporá de condições físicas e de saúde para continuar a estar ao lado dos menos favorecidos. Buscar rendimentos alternativos, sem defraudar a disciplina laboral, é reforçar a disponibilidade de tratar os indigentes.

Que passos deu a medicina convencional, para prevenir alguns malefícios da medicina tradicional?

Os malefícios das práticas alternativas não são “alguns”. São muitos. E a nação que a coloca em pé de igualdade com a Medicina regride nas trevas. À semelhança dos avanços em perscrutar o Universo, a Medicina perscruta actualmente os domínios moleculares e submoleculares, a caminho de uma nova Era da Ciência Médica, que permitirá o tratamento preciso do indivíduo e não da doença. É aos governos que cabe optar pelo prodígio científico ou iludir e fazer regredir a população, pela adopção igualitária das práticas obscurantistas! Entendo ser necessário esclarecer conceitos. A Medicina como ciência não é separável em “convencional” e “tradicional”. Tudo o que se opõe à ciência não é mais tradicional que a própria ciência. Convidamos a adoptar as terminologias “Medicina” e “Práticas Alternativas”, pois uma prática é algo que provém do costume e não precisa de sastifazer o rigor do Método Científico, que é universal, demonstrável e repetível.

Semântica à parte … Mas este posicionamento não contradiz a sua tese de “Institucionalização da Medicina Tradicional”, defendida há alguns anos? Ou assume a inexistência desta no nosso país?

A chamada “Medicina Tradicional”, no nosso país, assume facetas diversificadas, como a fitoterapia, a geoterapia, adivinhação, expiação, “cura” espiritual, exorcismo, uso de amuletos, além de práticas supersticiosas bizarras, que, por exemplo, inculcam em doentes com SIDA ou psicopatas aspirantes a fortunas, a violação de crianças da primeira infância ou virgens. Têm sido publicitadas virtudes de equipamentos que realizam uma pretensa “desintoxicação de todo corpo” e outras que “detectam todas as doenças”, um pouco à semelhança dos computadores de diagnóstico das avarias dos motores de automóveis. A tese que sempre tenho defendido e à qual faz alusão tem em conta que as insuficiências do serviço público deixam muitas pessoas sem outra opção, que não seja a de se virarem para os praticantes desses actos alternativos. Considerando a quase inevitabilidade desses comportamentos, a melhor opção é “institucionalizá-los”, como forma de submetê-los à monitorização adequada, permitindo aos actos que tenham algum efeito orgânico placebo ou mesmo pretensamente virtuoso e desencorajando as práticas manifestamente nocivas, que são, indubitavelmente, a maioria.

Assume então que as “práticas alternativas” prejudicam mais do que ajudam…

Actualmente, é profusa a propaganda ardilosa, hertziana e na imprensa do nosso país, fazendo alarde a prestadores de “tratamentos espirituais”, naturalistas e seitas religiosas que curam tudo, quando, na realidade, apenas atrasam o tratamento correcto e agravam as doenças. Quanto à secundarização das questões semânticas, enquadra-se justamente no desafio a que a Medicina está submetida em Angola e em outros países com extremas dificuldades sociais, onde se fala de médicos convencionais e tradicionais, doutores dos hospitais e de clínicas espirituais, doutores de clínicas de medicina natural, doutores espíritas, etc. São pródomos de que estamos, com profundo pesar, a bater no fundo!


Fonte: JA

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