″O bolo, se fosse bem dividido, chegaria para todos, mas um …

O bispo de Benguela disse hoje que em África continuam a falhar princípios como a defesa da dignidade humana ou a promoção do bem comum, considerando que o silêncio sobre estas questões é um dos problemas do continente.

“Estamos nas instâncias de governação, vivemos nos nossos países essas necessidades e quando observamos situações que não correspondem a estes valores não podemos ser indiferentes porque calar-se numa situação de injustiça significa comprometer-se com a injustiça. Um dos males que temos no nosso continente é ficarmos calados, não dizermos nada, não nos comprometermos com a justiça, com o bem comum, com as causas sociais e continuamos sempre a atirar a culpa para os outros”, disse António Jaca.

O bispo de Benguela, Angola, falava hoje durante uma conferência sobre “Os desafios da Igreja à Sociedade” no âmbito do 13º Encontro de Bispos Lusófonos, que decorre até segunda-feira, na cidade da Praia.

“Culpas da guerra, culpas do partido único. É verdade que a situação era de instabilidade, mas hoje temos condições suficientes para sermos os que determinam o futuro dos nossos países”, considerou.

Para o bispo de Benguela, em África, nomeadamente nos países de língua oficial portuguesa, a “dignidade da pessoa humana não era e, em muitos casos, continua a não ser respeitada”.

“Por isso tivemos partidos únicos, ditaduras, guerras fratricidas, tivemos dificuldades com o multipartidarismo, em nos entender uns aos outros e continuamos, de uma ou outra maneira, a não conseguir por em prática este princípio fundamental do respeito pela dignidade humana”, reforçou.

Por isso, entende o bispo, a análise do desempenho dos países africanos – líderes, sociedade e Igreja Católica – “não é a melhor”.

“Viajando por vários países de África encontramos sempre os mesmos problemas. De desenvolvimento, de saúde, educação, circulação de pessoas e bens”, disse, ressalvando pela positiva o exemplo de Cabo Verde.

“Nos outros países ainda há muito a fazer. Temos um conjunto de situações que apelam a sermos fatores de transformação”, disse.

António Jaca encontra igualmente falhas na promoção do bem comum, apontando a concentração da riqueza num pequeno grupo como exemplo.

“O bolo, se fosse bem dividido, chegaria para todos, mas sabemos que um pequeno grupo tem três quartos do bolo e o resto vai-se contentando e se tiver um quarto já é muito”, disse, alertando para a importância do respeito pelo património da nação e pelo erário público.

“Em Angola, as notícias correm nestes dias sobre o desvio de 500 milhões de dólares que saíram para a conta de qualquer um. É o bem comum, da nação, que é de todos e que deve beneficiar a todos. Quando pomos em prática o respeito por estes princípios, acabamos com a desigualdade e as injustiças”, sublinhou.

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