Já está no ar o foguetão mais poderoso do mundo

Esta é uma missão por que o multimilionário Elon Musk anseia desde 2011 quando anunciou estar a construir um veículo espacial três vezes maior que o Falcon 9. Como foi possível descolá-lo com segurança do Cabo Canaveral, de uma plataforma de lançamentos emprestada pela NASA, o Falcon Heavy acabou de se tornar no mais poderoso foguetão do mundo a chegar ao espaço. E abriu mesmo uma nova era da exploração espacial.

As 63,5 toneladas de carga que o Falcon Heavy leva equivalem a avião Boeing 737 já com passageiros, carga e cheios de combustível no interior.

O que torna Falcon Heavy especial é que ele consiste literalmente em três Falcon 9 juntos, o veículo de lançamento reutilizável que a SpaceX desenvolveu e que era até há instantes o único foguetão ativo da série “Falcon”. O veículo que a SpaceX lançou agora para o espaço, ao som de David Bowie, tem 27 motores responsáveis por fazer descolar o foguetão com 63,5 toneladas de carga a bordo e gerar uma força de propulsão equivalentes a 2.268 toneladas. Essa é a força necessária para levar toda essa carga para uma baixa órbita terrestre. E é graças a ela que o Falcon Heavy já é mesmo o mais poderoso foguetão do mundo, embora não ultrapasse o Saturn V.

A SpaceX precisava que este lançamento corresse bem. Se Donald Trump pretende mobilizar todos os recursos da NASA para levar o Homem de regresso à Lua, 46 anos desde a última vez que saímos da baixa órbita terrestre, os meios que faltam à agência espacial norte-americana podem estar nas mãos de Elon Musk. Um foguetão três vezes mais poderoso do que o reutilizável Falcon 9 e capaz de levantar quase 64 toneladas de carga significa que a SpaceX tem a receita para levar mais materiais para fora da Terra, sejam eles satélites ou pessoas.

Mas nem sempre foi assim. Em setembro de 2016, um Falcon 9 explodiu durante uma operação de preenchimento de propulsor para um teste de incêndio, um procedimento normal em qualquer pré-lançamento. O satélite de comunicação que estava a bordo, avaliado em 200 milhões de dólares, ficou completamente destruído. Elon Musk descreveu o evento como o “fracasso mais difícil e complexo” da história da SpaceX. O acidente foi causado pelo arrefecimento excessivo do oxigénio líquido usado como propulsante, que reagiu com outros compostos a bordo levando-os a explodir. É para evitar acidentes como estes que a SpaceX vai testar esta tarde o Falcon Heavy.

Mas Falcon Heavy é diferente. É bom, bonito e barato. Bom porque nunca se levou para o espaço um veículo com tantos motores (embora o Saturn V da NASA levasse mais carga), bonito porque é um passo necessário se Elon Musk quer mesmo levar a humanidade até Marte e é barato porque, se o Delta IV Heavy da United Launch Alliance gasta 350 milhões de dólares de cada vez que levanta voo, o Falcon Heavy fica-se apenas pelos 90 milhões. Esta é uma comparação importante porque o Delta IV Heavy também é um foguetão descartável e é o concorrente direto da família “Falcon” da SpaceX. Ainda assim, Elon Musk já vai com vantagem: o veículo da United Launch Alliance, mesmo com motores Boeing e sendo o preferido para transportar satélites espiões desde 2014, não consegue transportar nem metade do que um Falcon Heavy.

Com este lançamento, o Delta IV Heavy ficou a “comer pó”. A SpaceX tem assim mais capacidade de negociar com as agências espaciais, principalmente com a dos Estados Unidos, o transporte de satélites maiores de segurança nacional, veículos espaciais para Marte, módulos e carga para a Lua. Mais do que isso, a SpaceX enquanto empresa privada pode até entrar no campo do turismo: Elon Musk já admitiu que, correndo tudo pelo melhor, pode em breve vender dois bilhetes para uma viagem a bordo do Falcon Heavy.

A SpaceX sonha, mas mantinha os pés da terra: “É importante lembrar que esta missão é um  teste. Mesmo que não se completem todos os marcos experimentais que estão a ser feitos durante este teste, estaremos mesmo assim a recolher dados essenciais ao longo da missão. Em última análise, uma missão de demonstração bem sucedida será avaliada através da qualidade das informações que podemos reunir para melhorar o veículo de lançamento para os nossos clientes atuais e futuros”, acautela a marca num comunicado aos jornalistas.

Ainda assim, qual é o plano? A bordo do Falcon Heavy está o Tesla Roadster pessoal de Elon Musk e um manequim no lugar do condutor vestido com o fato espacial desenvolvido pela SpaceX — elementos que a marca escolheu para simular a massa da carga “de uma forma divertida”, em vez dos típicos blocos de cimento utilizados pelas outras empresas.

Mas há outro significado: embora o objetivo essencial do teste desta terça-feira seja perceber se o Falcon Heavy está preparado para levar carga para a baixa órbita terrestre, a Space X vai levar o carro de Elon Musk para uma órbita elíptica entre a Terra e Marte em redor do Sol. Por isso é que se escolheu um carro vermelho: “Um Tesla vermelho em direção ao Planeta Vermelho”, explica a marca, embora salvaguarde que o carro nunca vai ceder à gravidade de Marte nem contaminar o planeta. Isto é possível porque o Falcon Heavy é composto por três partes, mas as duas superiores vão separar-se na descolagem. À semelhança do Falcon 9, também o Falcon Heavy é provou ser reutilizável, por isso essas partes regressaram a Terra e aterraram em duas plataformas terrestres . A terceira parte vai parar na plataforma móvel “Of Course I Still Love You “, um bloco de aterragem no Oceano Atlântico concebida para receber um foguetão a altas velocidades.

A SpaceX já tem clientes para o Falcon Heavy: a Arábia Saudita quer aproveitar o foguetão para lançar um grande satélite de comunicação da Arabsat e a Força Aérea pretende lançar para o espaço uma carga de teste para possíveis novas contribuições entre as duas entidades. Estes são os dois grandes projetos já prometidos à SpaceX, mas há outros que incluem o lançamento de pequenos satélites secundários para a baixa órbita terrestre.

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