Longe da lógica histórica de Benguela marcada pela cidadania, nos últimos tempos quase todos foram tomados pela apatia. Poucos, mas poucos mesmo tentam inverter a lógica. Benguela tornou-se na cidade do cada um por si e Deus para todos. Não importa se a casa do vizinho está em chama. Ninguém quer mais saber de ninguém, a vida do município foi entregue à sua sorte. Quando uns tentam fazer, pensam em primeira instância no interesse individual ou de grupinhos. Os oportunistas de costume assumiram o comando da cidade “Mãe das Cidades”.

 Mas, o inicio das obras de um ginásio no pequeno Brasil será que veio despertar essa veia adormecida? O que é certo é informação caiu para muitos como um balde de água gelada em junho. Parece que todos despertaram, mas pouco saíram da cartola, a maioria como sempre está a assistir o filme em cima do muro a espera do resultado. Cartas foram enviadas ao governo, encontros foram mantidos com o governador Rui Falcão até uma providência cautelar foi remetida ao tribunal. O grupo composto por jornalistas, escritores, arquitetos ambientalistas, empresários, advogados e alguns desempregados chamou para si o protagonismo para travar a “safadeza explícita” de Isaac dos Anjos na cedência de um espaço público a privados. Sem ouvir ninguém retalhou o bem público para os seus, quando a sensatez aconselhava um concurso público ou um leilão para ver quem apresentava melhor projecto. Usou o poder e impôs a sua vontade.  Porém para o universo das ilegalidades na costa de Benguela, as construções no pequeno Brasil são um problema minúsculo. O pequeno Brasil é apenas um detalhe que serve para afogar as magoas e frustrações dos que nunca saíram, mas assistiram de perto com direito a bilhete VIP o desfile das ocupações protagonizadas pela pequena burguesia instalada em Benguela, sem esquecer os humildes que também ficaram com a sua parte.

Movido de supostos interesses da maioria, partiram para a briga administrativa e judicial. Apelação é o nome da tática. Pouco interessa o veredicto das autoridades ou os interesses de outros benguelenses. Eles sentem-se os donos do município, são a casta superior. Para eles é só valido para cidade o que estiver dentro dos seus interesses. Escrutinam tudo, mas filtram nada.  Acham-se representantes de todos, sem nunca terem sido eleitos por ninguém, nem mandatados para tal, pelos mais de 500 mil habitantes do município.

Usurpação de um espaço público, atentado ao meio ambiente são alguns dos argumentos usados pela nata de “intelectuais” para travar a obra. Até ali não há muito para debater a sustentação, mesmo que nos parece despida de mais fundamentação técnica. Não houve nem da parte dos reclamantes como do construtor estudos para o efeito. Há aqui um universo de censo comum nas opiniões, desaconselhável quando se pretende falar de um assunto que exige mais conhecimento e mais estudos. Todas análises feitas são avulsas, carregadas de histeria e paixonites que podem esconder desejos e interesses inconfessos.

Sem lentes, vê-se que se está diante de uma luta cuja razão é fraca, mas é ampliada com desejos pessoais. Nenhum benguelense é mais benguelense que os benguelenses. Todos gozam dos mesmos direitos. Se uns têm o direito de chamar para si a exploração do espaço mediante a construção de empreendimentos para dar uma visão mais moderna, também não é menos legitima o desejo dos que querem que o espaço continue com o formato original. Deve haver sensibilidade de reconhecer isso mesmo. Mas torna-se difícil quando alguns que lutam, vistos pelos retrovisores, são autênticos viras casacas. Movem-se ao sabor do vento, são uns “prostitutos sociais”. Seguem o sentido de quem mais salvaguarda os seus caprichos. Fizeram e construíram assim a sua ascensão económica social e profissional. São virgens de ocasião que usam um povo que não conhecem. Haja oportunismo!

É estranho que quase todos, alias muitos deles gabam-se que vivem há mais de 50 anos na cidade de Benguela. Olhando para a realidade da zona costeira do município é fácil concluir que foi completamente usurpada nos últimos 25 anos, na sua maioria com construções precárias. O exemplo mais simples e fácil de apontar está a escassos metros a norte do pequeno Brasil. Ali surgiu um pequeno gueto bem nas barbas do mar com todos os riscos para as famílias que ali escolheram habitar. Os seus moradores fazem das suas. É tanta imundice que ninguém se atreve em usar aquela área para lazer. Então onde andaram esses escudeiros da costa?  Aqui mesmo na cidade de Benguela? Parece!… Só que ao que parece naquela época estavam do outro lado da barricada. Serviram-se dos que abocanharam as praias. Mas como agora pularam e estão do lado da advocacia dos “interesses mais nobres e tradicionais de Benguela” tudo mudou. Agora deste lado, que tal se refletir com verdade o estado da nossa costa? Será que interessa o estado em que se encontra? Para as futuras gerações é essa Benguela que se quer deixar?  Como transformar a zona costeira mais atrativa que se adeque as exigências de um município que se quer afirmar no cenário turístico nacional?

A praia é por excelência um valor natural acrescentado a ser explorado para transforma-la em ativo no desenvolvimento económico do município. Como está, não serve a ninguém!


Por: José Vilela

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