“O maior polígamo de sempre de Benguela”

O centenário de um “leão”

Com o estigma dos Karkamanos fresquinho na memória, quem conheceu Francisco “Velho Norton” da Silva depois da Dipanda, equivocar-se-a de imediato com um Bóer às hordas do apartheid.
Ledo engano. Pois que a polidez do seu umbundu, a finura do seu tchokwe, a perfeição do seu português ou a eloquência do seu suaíli, deitam abaixo todas as teorias da aparência. Um viandante desta Angola, seja da carreira da Eva, do comboio Camakove ou de barco sem caravelas, conheceu este país de lés-a-lés como ninguém.
De barba refinada e cabelo grisalho de inveja justificando os cacimbos que carregava no dorso dos seus 1,74 metros de altura, o Velho Norton, completa neste sábado, 25/10, o seu centenário de nascimento (1914). Morreu aos 87 anos com a lucidez de leão.
É claro que tinha tudo de um leão. Da demarcação territorial à caça que praticou aos hipopótamos no rio Kuando. Estudou na Missão Protestante do Alto Zambeze no Moxico. Passou pelo Salvador Correia em Luanda e acabou por fazer o curso geral de medicina.
Praticou ginástica e natação onde foi campeão da Província de Angola em mergulhos. Foi funcionário da Companhia de Diamantes de Angola e afilhado do general Norton de Matos, duas vezes Governador de Angola.
Do âmago do seu bem murado quintalão ao Largo da Peça, mantinha 14 mulheres oficiais. Teve mais de 62 filhos, registos legais. Centenas de netos e bisnetos, hoje espalhados pelo país, Portugal, Inglaterra, Suíça, Canada, etc.
O maior polígamo de Benguela, resguardava no seu coração uma predilecta, segundo confissões da entrevista que me deu nos anos 90. Das suas andanças amorosas, Velho Norton idolatrava o calor das luchazes/Moxico, por serem as mulheres mais sensuais de Angola. “Cantam, disparatam, descompõem a nossa mãe, excitam…” e mais não digo sobre este erotismo Norton. E confessa que a poligamia é pré-histórica. Fundamenta recorrendo a monarquia do rei Salomão: “Abraão tinha uma mulher, a Sara. Ela tinha uma formosa escrava egípcia. E o Abraão andava a olhar para ela de olho esquerdo ou direito?… Direito, olhar sempre…”.
Velho Norton, era filho de um militar de carreira que passou para a Administração Civil colonial. Durante a partilha de África à luz das deliberações da Conferência de Berlim, 1884/5, seu pai bateu-se com o General Norton de Matos para que a saliência Leste do Cazombo, que compreende o Parque Nacional da Cameia, Fronteira com a Zâmbia, fosse incorporado no território angolano. Daí a justificação da saliência ter sido demarcada à régua.
Neste centenário, é justo dedicar um preito à um filho de Benguela que marcou história, mas que se assumia como Kamutagre puro por razões que só ele conhecia.
Peregrino religioso. Foi católico de baptismo, migrou para protestantismo, regressou a igreja católica romana. Nos últimos anos de sua vida, era crente da Igreja Adventista do 7º Dia.
Foi sua, a ideia de se atribuir o nome “KALUNGA” ao imponente cine Kalunga de Benguela, em homenagem aos Deuses dos Rios “kalunga kameia”.
Dedicou-se ao comércio e a pecuária onde chegou de ter mais de mil cabeças de gado bovino e uma incontável criação de caprinos e suinos.
Na decrepitude dos 81 anos, reconheceu que a poligamia é dolorosa e reprova a sua prática. “Hoje, desaconselho a bigamia. Uma mulher chega muito bem”, dizia antes de partir para outra dimensão da vida. Nos cem anos de nascimento do Velho Norton, restam as saudades de um homem profundamente humano, conselheiro, prosador e galante.
Lilas Orlov.
Fotos de ELIAS NORTON
PUBLICADO NA EDIÇÃO DE 24 OUTUBRO 2014 DO SEMANÁRIO AGORA.


Foto de Lilas Orlov.

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