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Já só falta o compadre Tomás

Já só falta o compadre Tomás

 Já deu para perceber que o Presidente João Lourenço está a demorar-se a estabelecer os alicerces que lhe permitam materializar uma das promessas mais caras que fez aos eleitores: colocar em primeiro lugar os problemas dos trabalhadores e das famílias.

Enrolado na laboriosa tarefa em que se encontra, de separar as batatas podres da cesta – e o mesmo é dizer exonerar uns e nomear e promover outros, como tem vindo a fazer – a verdade é que aquelas políticas e medidas que se espera que verdadeiramente venham a ter efeito na qualidade de vida dos cidadãos, devolvendo-lhes a dignidade e autoestima perdidas, ainda levarão o seu tempo. Haja, pois, paciência para esperar.


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Mas depois de ter tirado das sacas do Governo e de várias instituições públicas as batatas mais apodrecidas, personificadas fundamentalmente pelos filhos do seu antecessor, José Eduardo dos Santos, esse troca-troca de João Lourenço está em vias de se deparar com uma linha de bifurcação que representará para si um outro enorme desafio.

De facto, perfila-se no horizonte algo que também desafia o novo Presidente da República a ser coerente com o que vem prometendo. É que João Lourenço tem relações particulares e interesses privados que podem perturbar o seu avanço no que diz respeito à cruzada contra a corrupção que vem reiteradamente prometendo.

Convenhamos que foi uma prova difícil, excruciante mesmo, tirar do caminho a “ex-Princesa” Isabel dos Santos e o seu meio-irmão José Filomeno dos Santos “Zenu”, de dois conglomerados do país como a Sonangol e o Fundo Soberano. Mas o que aí vem tem o seu quê de complicado para João Lourenço, já que o obrigará a ter de se virar para o seu próprio umbigo. Isto é, terá de voltar-se para a sua própria clientela, os seus amigos e compadres – que afinal também os tem –, sendo que muitos deles podem chamar-se de “dedo e unha”.

Augusto Tomás, ministro dos Transportes, é um desses amigos. Melhor, Tomás não é simplesmente amigo, é um compadre.

Os dois já eram compadres por via do casamento de filhos, uma prática que passou a fazer parte dos códigos de conduta da alta roda da sociedade luandense, cujos membros são basicamente uma extracção do regime. Os respectivos rebentos passaram a casar-se entre si, em enlaces determinados seja pela conveniência não apenas de juntar “trapos e amores”, seja também pela conveniência de unir nomes para fortalecer e salvaguardar interesses de famílias e dinastias, em negócios e até no jogo político.

Por essa razão mesmo é que há coisa de pouco mais de um mês, os “Lourenço” e os “Tomás” resolveram dar mais um nó na corrente que liga as duas famílias. Dessa vez pela via do apadrinhamento por João Lourenço de uma filha de Augusto Tomás.

A questão agora é saber se João Lourenço terá coragem de tirar também do caminho o “compadre” que irá, sem dúvidas, revelar-se um estorvo na cruzada presidencial não apenas contra a corrupção, como também contra a má governação.

Até aqui João Lourenço foi fechando os olhos e fazendo ouvidos de mercador diante dos dedos acusadores que se têm levantado contra o ministro dos Transportes, aliás, já desde os tempos do governo liderado pelo antigo Presidente. Augusto Tomás tornou-se, sem dúvidas, um dos membros mais longevos do Executivo, mas essa durabilidade colide claramente com a deficitária performance que o seu pelouro vem colhendo.

O Ministério dos Transportes é hoje um dos departamentos ministeriais com os trabalhadores mais descontentes, apesar do volumoso orçamento que estoirou à pala de uma falaciosa campanha de marketing que desenvolveu nos últimos anos, alegadamente com o fito de levar satisfação e felicidade aos funcionários e às empresas do sector.

A campanha, já se sabe, redundou em fiasco, não obstante a pipa de massa que com ela foi gasta. O resultado é o que se tem visto e sem ajuda de lupa. Um ambiente laboral quase explosivo que se vive em praticamente todas as companhias tuteladas pelo Ministério dos Transportes. Desde as rodoviárias às ferroviárias, das portuárias e marítimas às aéreas e aeroportuárias.

Mas não são apenas os funcionários que andam com o nome do titular dos Transportes atravancado ao pescoço. Na verdade, os angolanos cansaram-se das manias de grandezas do ministro, que debita projectos megalómanos ao almoço e ao jantar.

Se André Luís Brandão, o antecessor de Augusto Tomás, foi um descaso total com as suas responsabilidades, o actual titular dos Transportes tem sido um verdadeiro “pimpeiro”. Já prometeu metro de superfície na capital, mas ninguém viu boi! O mesmo se passou com um prometido circuito de transporte rápido que seria implantado em Luanda – a tal de Bus Rapid Transport (BRT), que até autocarros com timbre e logótipo do projecto Augusto Tomás se deu ao desplante de mostrar aos citadinos de Luanda, tomando-os a todos como a uns tansos!

Enfim, muita lata e muito dinheiro mal gasto é o que os angolanos têm visto desse ministro amante de projectos megalómanos e que tem vindo a transformar Angola num cemitério de elefantes brancos. Desde o novo aeroporto internacional de Luanda – o tal que será o “maior de África” – que não há meio de “descolar”, a outro prontinho, na Catumbela, mas que se transformou em objecto de mera ornamentação – para não dizer que é um aeroporto fantasma.

As linhas ferroviárias todas do país custaram no conjunto um fortunão, mas tecnicamente estão ultrapassadas, sendo usadas por comboios que andam à velocidade de um burro. Com modelos de vias que tiveram validade no passado, não suportando locomotivas velozes de última geração, arriscam-se todas a ser desmanteladas dentro de mais uma década.

As empresas rodoviárias que servem a cidade capital do país, Luanda, estão todas com autocarros a cair aos pedaços, mas isso não é culpa apenas das más estradas. Deve-se também ao facto de haver muitos esquemas ilícitos envolvidos na importação das viaturas, negócios em que tem as mandíbulas enfiadas gente graúda do topo do Ministério dos Transportes, que lucra com as más políticas de sobressalentes.

Enfim, o Presidente João Lourenço vai ter de coser-se como achar melhor, mas uma coisa está proibido de fazer: eternizar a permanência de Augusto Tomás como ministro dos Transportes. Deve demitir o compadre, dê por onde der!


Correio Angolense

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