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Tundavala – um estádio de milhões em queda livre

Quando a 29 de Dezembro de 2009, o então primeiro-ministro, António Paulo Kassoma, sob chuva miúda inaugurou aquela que seria a maior infra-estrutura desportiva da região sul do país – o Estádio Nacional da Tundavala -, a escassos dias do CAN2010, ninguém imaginava que se viria a revelar num verdadeiro “gigante de pés de barro”, hoje prestes a ruir.

 

A odisseia do gigante, edificado no sopé da Serra da Chela, no bairro do Tchioco, começou com o lançamento da primeira pedra para a construção, que durou quase um ano, passando pela realização de importantes jogos, tanto do CAN2010, como para outros compromissos dos Palancas Negras.

Nessa altura, foi palco de feliz memória para a selecção nacional: empate a zero contra a Namíbia em Dezembro de 2011, vitória sobre os “Leões Indomáveis” (1-0) em 2012, goleada à Libéria, por 4-1, em Setembro de 2013, na despedida da campanha para o Mundial2014.

O último foi a 13 de Junho, com a vulgarização da República Centro-Africana (4-0), jogo em que se revelara Gelson Dala, tendo marcado na estreia dois golos. Tratou-se da primeira jornada do Gr. B qualificativo ao CAN2017, do Gabão.

Hoje, para quem acompanhou desde o começo a história do Estádio, a imagem que se apresenta é de “cortar o coração”, pois a relva desapareceu por completo e deu lugar a capim que já chegou a atingir meio metro.

O Estádio era abastecido por uma conduta da rede normal e que quase sempre falhou, o que levou à seca da relva.

Desde a inauguração já foi obrigado a fechar as portas por quatro vezes, para recuperação da relva, mas nunca demorou tanto como agora, pois já lá vão dois anos sem actividade desportiva, acolhendo de vez em quando manifestações religiosas, pois as culturais evitam aquele local.

O gerador “desaparecido” fragilizou o sistema de rega, que sofreu um novo golpe, com o furto das eletrobombas. Até agora não há culpados e nem há processo-crime na Procuradoria sobre o assunto.

Ninguém aceita falar sobre a questão, nem procuradores, porta-voz da delegação do Ministério do Interior ou administrador da infra-estrutura, mas fonte que acompanha o caso disse que as autoridades sabem quem o levou.

No interior do Estádio nota-se a depredação da banca de imprensa, por completo, há também registo de saques de mobiliário e loiça sanitária dos WC, para onde não sobe água, enquanto nas bancadas as cadeiras estão danificadas pelo sol.

Os três anos sem salário afugentaram os 20 trabalhadores da área de limpeza e manutenção, deixando o administrador do mesmo à sua sorte. Até hoje já passaram por ele três gestores.

O director nacional para a política desportiva, António Gomes, prometera em 2015, no Lubango, que o governo da Huíla e o ministério da Juventude e Desportos adoptariam soluções viáveis para a manutenção do normal funcionamento do Estádio, com abertura de mais quatro furos de fornecimento água para a rega, mas não passou disso.

Hoje regista movimentos, já que nele funciona uma academia de polícia, serviços de identificação civil e criminal, e o seu estacionamento é usado para provas de desportos motorizados.

Outras infra-estruturas desportivas na mesma situação

A sintomática situação do Estádio da Tundavala não é um caso isolado. Os estádios da Senhora do Monte e Benfica do Lubango, que também beneficiaram de investimentos públicos tendo em vista o CAN2010, padecem do mesmo mal, embora esse último esteja a ser recuperado pelo clube que o detém.

Denominado 11 de Novembro, o estádio do Benfica do Lubango teve um financiamento de quatro milhões de dólares, cujas obras incidiram sobre toda estrutura física e a aplicação de um novo relvado, em 2009.

O estádio Senhora do Monte, entregue pela administração do Lubango à gestão do Desportivo da Huíla, só serve para congressos religiosos. Não se faz absolutamente nada para recuperá-lo.

Com capacidade para seis mil lugares, teve a reabilitação custeada também pelo Estado e custou 12 milhões de dólares.

Neste momento, o único Estádio em pleno funcionamento e que também foi reabilitado na mesma ocasião é o do Ferrovia da Huíla, e que acolhe as partidas do GirabolaZap.

Por seu lado, o pavilhão Multiusos da Nossa Senhora do Monte, construído em 2006 para o Afrobasket do ano seguinte, está em situação mais difícil. O piso ainda está bom, mas tem os dias contados em função das infiltrações de água na parte superior e corre o risco de ruir.

Dez anos após ter acolhido a prova africana, a estrutura carece de manutenção urgente. Os funcionários abandonaram-no, o único que resiste é o seu administrador, António Ernesto, que tem que contratar trabalhadores eventuais para casos pontuais, quando há dinheiro.

Tem sido usado para actividades religiosas e culturais, mas a montagem de palcos sobre o piso de madeira vai prejudicando a sua durabilidade.

Há necessidade de se reabilitar o sistema de canalização e da cobertura, para além dos balneários, e revisão nos pilares de sustentação, pois algumas paredes apresentam fissuras.

Nenhuma destas estruturas dispõe de um orçamento para manutenção, mas, sabe-se que o estádio da Tundavala necessitaria de pelo menos 12 milhões de Kwanzas mês para este fim, enquanto o pavilhão principal e os seus dois anexos de cinco milhões.

A reacção das autoridades

Em declarações à Angop, no quadro desta reportagem, o director provincial da Juventude e Desportos, Joaquim Tyova, afirmou que o seu pelouro controla todas as infra-estruturas desportivas, incluindo as que estão ligadas ao desporto escolar.

As principais são os estádios e os pavilhões da Nossa Senhora do Monte que depende directamente da direcção do ponto de vista de manutenção e conservação.

Sobre o estado actual, disse que todas as infraestruturas estão a funcionar e que decorre com regularidade a manutenção e conservação das mesmas.

“Estamos com problemas do relvado do Estádio da Tundavala e da Sra. do Monte, neste último houve problemas na avaria das bombas. Foi entregue ao Desportivo da Huíla, mas está com dificuldades de recuperar o relvado”, disse.

Quanto ao estádio da Tundavala, admite que foram saqueados todo o sistema eléctrico e electrónico. “Temos um problema de segurança e asseguramento da zona onde esta localizado o sistema de bombagem da relva, onde foi furtado todo o material de rega da relva e a sua recuperação exige muito dinheiro”.

Reconhece que o governo da província não tem a capacidade para repor a relva e de todo o sistema que foi saqueado no estádio da Tundavala.

“Para além do relvado, há necessidade de manutenção de mais cinco sistemas no estádio, nomeadamente, a limpeza, o electrónico, sensores, elevadores, painéis electrónicos, enfim, um conjunto de elementos que devem ser salvaguardados para não perdermos na totalidade a infra-estrutura”, frisou.

“Perdemos lá o principal sistema que é o do relvado, mas os outros estão a funcionar, infelizmente ainda não temos a resposta da Polícia Nacional, responsável pela guarnição e que está a trabalhar na investigação dos furtos que existiram e vão comunicar qualquer novidade”, continuou.

Quanto ao gerador desaparecido, afirmou que a direcção dos desportos fez queixa e a polícia está a trabalhar no sentido de encontrar os responsáveis, mas para todos efeitos, o governo provincial procura uma solução no próximo orçamento (2018) reservar uma parcela para repôr a operacionalidade do estádio.

Sobre o Multiusos da Senhora do Monte, afirmou que foi construído com material “bastante descartável”.

“Estamos a falar de contraplacado, um material inapropriado para pavilhões a nível de competições e consciência dos nossos jovens. Queríamos substituir toda a infra-estrutura por uma de betão. Temos muito vidro, o vidro é um material que facilmente quebra”, afirmou.

Sublinhou que depois de 2007, previa-se uma reabilitação para 2011, que “infelizmente” não aconteceu, porque não existe dinheiro, mas que tem trabalhado na reposição dos equipamentos que vão se deteriorando, lamentando a falta de orçamento para este fim.

Para essas pequenas obras, revelou a fonte, faz-se “pequenos” alugueres, quando há actividades religiosas, culturais. “As desportivas não digo, pois temos 20 associações desportivas, cada uma paga cinco mil Kwanzas, valor que hoje em dia não compra geralmente uma sanita que se quebre”.

Quanto às actividades culturais ou religiosas, essas rendem entre 10 a 12 mil Kwanzas.

A respeito do Pavilhão anexo II, erguido por ocasião do Can2008 de andebol, Tyova afirmou que tinha problemas de açambarcamento, mas conseguiu-se substituir as janelas descartáveis que facilitavam o acesso dos vândalos.

“Nos próximos meses vamos recolocar as sanitas, que estão totalmente depredadas e intervir nos balneários para coloca-los em condições”, sublinhou.

Quanto ao anexo I, a estrutura resiste, segundo o director. O material está intacto, “bem” conservado, mas há um problema na entrada, na qualidade das portas, que deve ser também solucionado.

Gestão das estruturas

Sobre este assunto, Joaquim Tyova precisou que é de sua responsabilidade, pelo que nomeou um administrador para cada estrutura, formados em gestão de infraestruturas pelo Ministério da Juventude e Desportos em 2014 em Luanda.

“Temos três administradores nomeados que vão gerindo os aspectos burocráticos na contratação de pessoal, olhar para infra-estrutura se está degradada ou não e informar a direcção, fazer o marketing para atrair serviços para arrecadar pequenos fundos para manter funcional, sobretudo a área de limpeza”.

Terciarização dos espaços

“Adiamos um processo de terciarização dos espaços que temos. Por exemplo, no estádio da Tundavala temos espaços para armazéns, lojas, bancos, e para outras actividades”, explicou.

crescentou que avaliado o local, empresas e agências bancárias deram conta que a relação custo-benefício não lhes garante sustentar o negócio que querem colocar. Os privados estão a recuar de investir no estádio”, frisou.

Fez saber ainda que há lá um restaurante que um dos empresários da província estava a gerir e lamentou que não teve rendimento, por isso teve que fechar o estabelecimento.

Considerou que a localização do espaço não está a favor de um ambiente de investimento que se quer para os empreendedores.

 

Manutenção

Para o entrevistado esse é o “grande” cavalo de batalha, pois a manutenção é dispendiosa. O Estádio da Tundavala, por exemplo, precisa de 12 milhões de Kwanzas/mês, sendo que só o relvado está taxado em dois milhões.

Os três pavilhões precisam de cinco milhões de Kwanzas mensais para manutenção. “Esse dinheiro nunca existiu e não existe. Estamos a depender apenas destes pequenos alugueres de 50 mil Kwanzas por actividade”.

Retorno financeiro

Segundo o director, o governo provincial definiu uma filosofia de funcionamento, baseada numa tabela que as administrações das estruturas aplicam para cada actividade, mediante a especificidade.

“Estamos à procura de uma parceria válida para o estádio da Tundavala, um investidor que diga que quer ficar com o estádio. O que o Estado ganha com a infraestrutura é que existe mais um campo para competição”, revelou.

Apelo à sociedade         

Joaquim Tyova tranquiliza: “A situação está salvaguardada, o que precisamos da sociedade é que nos compreenda, que temos de facto dificuldades para a manutenção dessas infra-estruturas por falta de financeiros para obter recursos humanos, materiais na gestão e manutenção das mesmas”.

 

Ficha técnica do Estádio da Tundavala         

O estádio herdou o nome de um dos maiores destinos turísticos da província, a sétima Maravilha da Fenda da Tundavala, após um concurso público para atribuição de uma designação em que concorreram 112 propostas.

A infra-estrutura foi edificada numa área de 25 mil e 807 metros quadrados pela construtora chinesa “Sinohydro Corporation LTD”, com um orçado de USD 69 milhões e capacidade para 20 mil espectadores.

Comporta 20 casas de banho, igual número de salas Vip, duas cabines de transformação com capacidade para 15 mil kV (quilovolt), uma sala presidencial, bancada de imprensa, quatro balneários para jogadores, duas salas para treinadores e igual número para árbitros.

Possui ainda sete postos médicos para atendimento ao público, jogadores e convidados Vip, 14 lojas, um restaurante e parque de estacionamento para 2.000 viaturas.

A iluminação do estádio está fixada em estrutura metálica composta por 408 holofotes de dois mil watts cada.

No estádio existem ainda salas de controlo e iluminação do recinto, de televisão, de imprensa e de jornalistas com capacidades para 65 e 200 pessoas, respectivamente, entre outras componentes.

A obra contou com a participação de 750 trabalhadores, dos quais 300 angolanos e os restantes chineses.

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