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As 15 polémicas do milionário que fundou a IURD

As 15 polémicas do milionário que fundou a IURD

Edir Macedo fundou a IURD em 1977 e é um dos homens mais poderosos do Brasil. E polémicos: há acusações, 11 dias de prisão e o “chuto na santa”. Em Portugal, tem agora o caso das adopções ilegais.

Edir Macedo é um dos homens mais poderosos e mais ricos do Brasil. Move multidões e construiu um império empresarial na área da comunicação social alegadamente usando os dízimos que recolhe dos milhões de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus. Quem o conhece, diz que não olha a meios para atingir os seus fins. “O bispo Edir Macedo já falou em reunião de pastores que, para a obra de Deus, vale até gol de mão”, confessou um ex-bispo daquela igreja — que se diz evangélica e neopentecostal, mas que é rejeitada pela Aliança Evangélica Portuguesa, que não a considera uma igreja evangélica.

Em 1977, Edir Macedo criou uma nova igreja num pequeno coreto no Rio de Janeiro. Quatro décadas depois, a IURD tem mais de oito milhões de fiéis em mais de 180 países. Mas também foi acumulando polémicas ao longo da história. Edir Macedo chegou a estar preso por charlatanismo, foi acusado em dezenas de processos em tribunal por lavagem de dinheiro e uso de documentos falsos, e, mais recentemente, soube-se através de uma investigação da TVI que terá estado alegadamente envolvido numa rede de tráfico de crianças e adoções ilegais a operar em Portugal.

A compra da Record e a construção de um império empresarial

A ambição de Edir Macedo de entrar no mundo dos media era antiga: em 1978, apenas um ano depois da fundação da IURD, a igreja conseguiu comprar 15 minutos de antena na Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro. Nessa altura — escreveu Macedo na sua autobiografia, Nada a Perder –, os cultos começavam a encher e a pequena funerária onde funcionavam já não era suficiente para acolher todos os que queriam assistir. Os meios de comunicação social foram a solução. Seis meses depois do primeiro programa de rádio, a IURD alugou um espaço de emissão na TV Tupi, às 7h30 da manhã, para transmitir o programa “O Despertar da Fé”.

Os primeiros passos estavam dados e a IURD nunca mais largou a televisão. Mas os grandes negócios só aconteceriam na década seguinte. Primeiro com a compra, em 1984, da Rádio Copacabana, do Rio de Janeiro — Edir Macedo explica, na sua autobiografia, que teve de vender uma casa que tinha construído em Petrópolis para pagar a rádio. Depois, com a compra da Rede Record em 1989 — a transação mudou definitivamente o rumo da IURD e foi o primeiro grande escândalo financeiro protagonizado por Edir Macedo.

A fortuna de Edir Macedo — estimada em 1.200 milhões de dólares pela Bloomberg, em 2013 — vem daquele conglomerado de media. Mas muitos contornos da compra ainda estão por explicar. Macedo comprou a Record por 45 milhões de dólares, depois de longas e difíceis negociações. Quando soube, por um outro bispo da IURD, que a Record estava à venda, Edir Macedo decidiu recorrer a um dos seus pastores, o ex-deputado federal Laprovita Vieira, para liderar a compra em nome dele. “Eu sabia que, se aparecesse logo de imediato, a negociação seria superfaturada ou desfeita possivelmente por preconceito. Tudo poderia ir por água abaixo”, escreveu Macedo.

Edir Macedo é o dono da TV Record, uma das mais importantes estações televisivas do Brasil (Fotografia: IURD)

Mesmo estando afastado das negociações para garantir que o negócio avançava, Edir Macedo não quis deixar de ir às reuniões para saber em primeira mão o que se passava. Numa delas, quando o processo estava parado devido a um impasse sobre o valor do negócio, uma vez que a igreja ficou sem dinheiro para pagar a segunda metade da entrada, entrou disfarçado de motorista do pastor que estava supostamente a liderar a negociação. E terá sido mesmo ele a resolver o impasse, levantando-se da cadeira, revelando a sua identidade e exigindo uma solução.

Contudo, segundo conta Macedo, o dono da Record mudou de ideias e na mesma semana decidiu voltar atrás e recusou renegociar a dívida. Edir Macedo diz que resolveu o problema com oração. Fechou-se na casa de banho e rezou. “Olha, a compra desta emissora está nas Tuas mãos! Se conseguirmos a Record, muito bem! Se não, paciência! Se o Senhor não me ajudar, não vou fazer mais nada! Rendo-me!”, terá dito Macedo durante a oração, segundo a sua autobiografia. A compra acabaria por seguir em frente e ainda hoje é usada por Edir Macedo como exemplo do “poder da oração”.

O sucesso do negócio foi apenas o início dos problemas para o bispo, que estava prestes a tornar-se num dos maiores milionários do Brasil. Logo a seguir à conclusão do negócio, a autoridade tributária brasileira lançou uma investigação à transação. Conclusão: Edir Macedo teria utilizado empréstimos sem juros da Igreja Universal do Reino de Deus para financiar a aquisição — que foi feita em nome próprio, não em nome da IURD. Contudo, não tinha declarado esse rendimento e acabou por ser condenado por isso, como explica a agência Bloomberg.

Apesar de a Constituição impedir confissões religiosas de serem donas de rádios e televisões, a IURD controla hoje em dia 23 emissoras de televisão, 40 de rádio e pelos menos dois jornais diários, além de duas gráficas onde além de jornais de circulação nacional e regional é impresso também o jornal oficial da igreja, a Folha Universal.

Macedo recorreu da decisão do tribunal, argumentando que tinha comprado a Record em nome da IURD, para criar a primeira televisão evangélica do mundo. Novo problema legal: a Constituição brasileira impede que confissões religiosas sejam donas de rádios ou televisões. Confrontado com isto, Edir Macedo mudou de argumento e afirmou que, afinal, tinha comprado a Record para si próprio. O caso arrastou-se nos tribunais durante anos e anos. Só em 2011 é que a Justiça brasileira acabou por absolver o bispo, com a justificação de que Macedo controla completamente a IURD e que a usa em seu benefício particular.

Apesar de a Constituição impedir confissões religiosas de serem donas de rádios e televisões, a IURD controla hoje em dia 23 emissoras de televisão, 40 de rádio e pelos menos dois jornais diários, além de duas gráficas onde, além de jornais de circulação nacional e regional, é impresso também o jornal oficial da igreja, a Folha Universal. Nada, à exceção de alguns imóveis, está em nome da igreja, mas sim em nome de alguns dos mais importantes bispos da IURD e do próprio Macedo.

Em 2007, a Folha de São Paulo revelou a estratégia supostamente usada por Edir Macedo e os seus bispos para garantir que o património nunca sai do domínio da IURD, nem mesmo quando os bispos entram em conflito com a igreja e a abandonam. Quando compram uma empresa ou participações em alguma empresa, os bispos alegadamente assinam também outros documentos: um contrato com a IURD dizendo que têm uma dívida fictícia para com a igreja no valor daquelas ações e um contrato de passagem dos títulos para um outro bispo (o nome do destinatário é deixado em branco e escolhido no momento, se necessário). A publicação do artigo valeu à jornalista Elvira Lobato um processo de pressão através dos tribunais, tendo de enfrentar mais de cem casos por danos morais movidos por fiéis e pastores em vários pontos do país.

O “chefe” de quem não se fala na TV

Os lucros da Record aumentaram exponencialmente, muito graças ao dinheiro que a IURD lá coloca para pagar algumas horas de emissão diárias, vindo dos dízimos pagos pelos fiéis. Edir Macedo diz que tudo o que faz com a Record e a IURD é puramente para fins religiosos, mas os seus detratores acusam o dono da rede televisiva — a segunda mais importante do Brasil, a seguir à Globo — de apenas usar a IURD para financiar a Record e, assim, enriquecer.

“A igreja paga milhões à Record, muito mais do que o valor da programação, para que ele possa expandir a sua cadeia de televisão. Ele [Edir Macedo] usa um artifício legal para uma coisa injusta”, acusa Silas Malafaia, pastor e líder do movimento Vitória em Cristo, da Assembleia de Deus, um dos mais conhecidos pastores do país e assumidamente opositor de Macedo, em declarações citadas pela Bloomberg.

Apesar de uma liderança discreta — a TV Record é uma televisão generalista onde nem sempre está em evidência o facto de pertencer à IURD –, a figura de Edir Macedo é uma espécie de tabu na estação. Basta olhar para o talk show de Fábio Porchat, fundador da Porta dos Fundos e um dos mais conhecidos humoristas brasileiros, no canal. Em ano e meio de emissões, o humorista, conhecido por fazer piadas com figuras públicas brasileiras, fez apenas duas referências, ambas implícitas, ao dono da cadeia.

Na primeira vez, logo no programa de estreia, o “chefe” é apresentado, numa piada, como uma figura sombria, de quem se tem medo.

A segunda, numa espécie de consultório com o apresentador Ronnie Von, em que são lidas várias cartas de cidadãos “comuns”: o senhor Luiz Inácio (primeiro nome de Lula da Silva), o senhor Michel (Temer) e o senhor Edir. A referência a Edir teve enorme repercussão na imprensa brasileira: Fábio Porchat brincava com Edir Macedo, considerado “intocável” na estação.



Graças à fortuna que acumulou ao longo dos anos com a Record, o líder da IURD é hoje um dos empresários mais ricos do Brasil. Voa em jato privado, usa um luxuoso apartamento em Miami e conquistou um lugar no ranking dos multimilionários da revista Forbes. Mas continua a exigir a todos os fiéis que paguem o dízimo — ou seja, 10% dos seus rendimentos — à igreja. O dinheiro, aliás, é um tema recorrente nas suas pregações. “Dar o dízimo é estar no altar de Deus, tal como Jesus foi o dízimo de Deus para a humanidade”, disse o bispo, num dos seus sermões.

A influência política: da “bancada da igreja” à presença de Dilma no templo

Ao mesmo tempo, o bispo tem uma grande influência na esfera política. Aliás, as igrejas evangélicas, no geral, têm um papel muito relevante na política brasileira. No parlamento brasileiro há, inclusivamente, uma Frente Parlamentar Evangélica — mais conhecida como “bancada da igreja”, ou “bancada evangélica” –, que reúne deputados e senadores evangélicos de vários partidos que se organizam para fazer lobby contra questões como o direito ao aborto, a eutanásia ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Desta bancada fazem parte membros conhecidos da IURD, entre eles o ex-senador e atual prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo.

Prova da influência de Edir Macedo na política foi a presença da ex-Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, do atual Presidente, Michel Temer, do Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e do ex-prefeito Fernando Haddad, entre outros políticos brasileiros, na inauguração do Templo de Salomão, a sede da IURD, a 31 de julho de 2014.

“A Igreja construiu algo simbólico, uma representação histórica de algo maior”, terá dito Dilma ao bispo Macedo, de acordo com o que relata na sua autobiografia.

Dilma Rousseff esteve ao lado de Edir Macedo na inauguração do templo (Miguel Schincariol/AFP/Getty Images)

Globo refere que a obra terá custado cerca de 680 milhões de reais (cerca de 175 milhões de euros). O bispo, na sua autobiografia, garante que o templo foi construído “única e exclusivamente” com donativos dos membros da IURD, graças a uma mão de obra de 1400 homens, que trabalharam “24 horas por dia, 7 dias por semana, sem parar e a todo o vapor”.

Segundo a Exame, é o maior espaço religioso do Brasil. O templo foi construído ao longo de quatro anos num terreno de 35 mil metros quadrados — a dimensão de cinco estádios de futebol — e tem 100 mil metros quadrados de área construída. Para a obra, foram utilizadas pedras vindas de Israel, duas toneladas e meia de ferro, duas toneladas de aço e 145 mil sacos de cimento. O espaço conta ainda com “quatro tamareiras de quinze metros de altura” e o Jardim das Oliveiras, para o qual foram importadas 12 árvores com cerca de 300 anos, relata Edir Macedo na sua autobiografia.

Tem quatro edifícios, sendo que um deles, com a nave da Igreja, tem espaço para dez mil pessoas sentadas. As paredes estão decoradas com 12 menoras e no altar, refere ainda a Exame, há um tapete rolante que leva a dízima dos fiéis para a sala-cofre do edifício. O templo inclui ainda 60 apartamentos para os pastores que lá trabalham — um deles pertence ao bispo. Os cultos contam ainda com um sistema de tradução simultânea que “permite a mil estrangeiros de cada vez compreender tudo o que se diz”, refere o bispo na sua autobiografia.

Os 11 dias na prisão

Edir Macedo foi detido no dia 24 de maio de 1992, num domingo, pelas 13h30, depois de um culto na Igreja de Santo Amaro, em São Paulo. Estava no carro, a caminho de casa, com a mulher e a filha Viviane.

“A imagem permanece estática na minha mente: dezenas de viaturas da polícia corriam na nossa direção. (…) Eles acenavam com violência. Alguns colocavam a cabeça para fora da janela do carro e gritavam comigo. O carro é cercado. Metralhadoras, revólveres e um tremendo aparato de armas pesadas apontadas a mim e à minha família”, relatou Edir Macedo na sua autobiografia.

Em causa estava uma acusação movida pelo Ministério Público de São Paulo, que alegava que o património pessoal do fundador da IURD já era de perto de 100 milhões de reais e que esse dinheiro tinha sido obtido de forma ilícita através da igreja. O Ministério Público acusava Edir Macedo de curandeirismo, charlatanismo e estelionato, crimes contra a boa-fé dos fiéis e que poderiam resultar em vários anos de prisão, de acordo com a lei brasileira.

O momento em que Edir Macedo é preso (Fotografia: IURD)

A justiça brasileira deu seguimento àquela acusação e ordenou a detenção de Macedo na prisão de Vila Leopoldina durante 11 dias, numa cela com mais de 20 pessoas. A prisão foi ordenada depois de cinco membros da Universal terem referido às autoridades brasileiras “ter perdido tudo o que tinham em prol da Igreja Universal do Reino de Deus à espera de um milagre, que nunca aconteceu”, segundo a edição de 25 de maio de 1995 da Folha de S.Paulo.

Campos Machado, na altura deputado do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e um dos advogados de Macedo, afirmou que o bispo tinha sido detido devido a uma “perseguição política, religiosa e empresarial”.

Edir Macedo relatou a sua experiência na prisão na sua autobiografia. “Não havia lugar para dormir, as camas já estavam ocupadas e o chão, tomado de colchões. A cela era para presos com ensino superior. O chefe dos presos aproximou-se e também me explicou as regras do dia-a-dia. Só existia uma latrina para todos. (…) Horas mais tarde, recebi um pequeno colchão e, com a ajuda dos outros presos, arranjei um canto para me acomodar.”

Edir Macedo na prisão (Fotografia: IURD)

À medida que os dias iam passando, de acordo com Edir Macedo, “cada vez mais pessoas, personalidades ou pessoas comum, mesmo as que me criticavam, passaram a demonstrar apoio”. Mas a verdade é que os pedidos de habeas corpus continuavam a ser rejeitados.

Ao fim de sete dias, gravou uma mensagem para a rádio a pedido das autoridades brasileiras, para acalmar os fiéis da IURD depois de rumores de que estavam a planear invadir a prisão. Ao fim de uma semana detido, foi presente a tribunal para prestar declarações, mas foi libertado apenas a 4 de junho.

O líder da IURD foi absolvido pela 21.ª Vara Criminal de São Paulo, de acordo com uma notícia publicada em 1995 pela Folha de São Paulo. Descontente, o Ministério Público decidiu recorrer da sentença para uma instância superior, tornando a pedir prisão para Macedo três anos depois — mas Edir Macedo tornaria a ser absolvido.

Edir Macedo escreve que a Igreja Católica esteve por trás da sua detenção.” O clero mandava e desmandava no Brasil, mais do que nos dias de hoje. (…) A Cúria não admitia o surgimento de um povo livre da escravidão religiosa por eles imposta”, conta na sua autobiografia. De acordo com Edir Macedo, na sala de audiências, quando foi presente a tribunal, estava “um homem de batina, provavelmente um padre ou outro integrante da ordem eclesiástica do Vaticano” a tirar notas. “Esta cena, até hoje, ainda não foi devidamente explicada.”

O “chuto na santa”, o maior escândalo religioso do Brasil

A igreja de Edir Macedo não teria de esperar muito até se ver envolvida num dos maiores escândalos religiosos de que há memória no Brasil: o célebre ‘chuto na santa’. A 12 de outubro de 1995, dia em que se assinala o feriado nacional em honra de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil, o bispo Sérgio von Helde insultou, esmurrou e pontapeou uma estátua daquela invocação de Nossa Senhora, durante o programa “O Despertar da Fé”, da Rede Record.

Durante alguns minutos, o bispo, que apresentava aquele programa matinal na emissora, criticou a tradição católica de venerar imagens de santos — que as igrejas protestantes consideram idolatria — e pontapeou a estátua para provar que se tratava apenas de um objeto. A atitude chocou o país, maioritariamente católico, e desencadeou dezenas de processos em tribunal contra Von Helde e a IURD, por intolerância religiosa. Tanto a conferência episcopal brasileira como as próprias igrejas evangélicas do Brasil condenaram a atitude.

O episódio do ‘chuto na santa’ foi de tal maneira grave que o próprio Edir Macedo teve de intervir e fazer um pedido de desculpas público. Mas, na sua autobiografia, prefere desvalorizar as agressões, acusando os meios de comunicação social de terem repetido as imagens até à exaustão para “incitar os católicos” contra a IURD. Von Helde acabaria por abandonar a IURD depois do episódio.

Acusações: lavagem de dinheiro, charlatanismo, curandeirismo. E sempre absolvido

Desde a operação de compra da Record, Edir Macedo tem-se visto envolvido em dezenas de processos judiciais. Já foi acusado de várias coisas: difamação, charlatanismo, estelionato (por incentivar ao pagamento do dízimo), curandeirismo e até por utilização de documentos falsos. Dos mais de 20 processos em tribunal de que foi alvo e que já foram julgados, Edir Macedo saiu sempre absolvido.

O primeiro grande processo em que se viu envolvido levou-o mesmo à prisão, por 11 dias, em 1992. As idas de Edir Macedo a tribunal começaram a suceder-se a partir de 2004, ano em que o Ministério Público, no estado de São Paulo, moveu um grande processo contra ele na sequência da investigação da autoridade tributária à compra da Record. A acusação argumentava que Edir Macedo, a sua mulher (que também entrou como acionista) e outros bispos envolvidos no negócio não tinham dinheiro suficiente para adquirir a Rede Record por 45 milhões de dólares e que, na verdade, os seus nomes foram utilizados para ocultar a verdadeira origem do dinheiro: a IURD, que por lei não poderia ser dona da emissora.

A acusação deixava claro que Edir Macedo, a sua esposa (que também entrou como acionista) e outros bispos envolvidos no negócio não tinham dinheiro suficiente para adquirir a Rede Record por 45 milhões de dólares e que, na verdade, os seus nomes foram utilizados para ocultar a verdadeira origem do dinheiro: a IURD, que por lei não poderia ser dona da emissora.

Edir Macedo acabaria por ser absolvido, mas não sem antes ser chamado a tribunal várias vezes. Logo no ano seguinte, em novembro de 2005, o Ministério Público moveu uma nova acusação contra Edir Macedo, pedindo a suspensão da circulação do livro Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demónios?, um dos vários escritos pelo fundador da IURD. Em causa estavam as várias referências “preconceituosas e discriminatórias deferidas contra outras formas de manifestações religiosas e credos, em especial aos cultos afro-brasileiros”, argumentaram os procuradores, acusando Macedo de atentar contra a liberdade religiosa.

O livro “não se restringe à explanação e divulgação das ideias próprias à religião que é adotada por quem o escreveu, mas sim se predispõe a tratar pejorativamente outra religião e seus adeptos, incitando à discriminação”, lia-se na acusação. A suspensão da venda do livro não duraria muito. Em setembro de 2006, um tribunal federal de Brasília tornou a autorizar a distribuição da obra, argumentando que o princípio constitucional da liberdade de expressão se sobrepunha à questão da liberdade religiosa.

Em fevereiro de 2006, ainda antes de o processo do livro se resolver, já o Ministério Público movia uma nova acusação contra Edir Macedo. Desta vez, a acusação visava tanto Macedo como os outros seis diretores da Rede Record, por alegadamente terem importado equipamentos de radiodifusão para a emissora de forma ilegal e por terem supostamente apresentado documentos falsos à inspeção do Fisco. Em causa estavam transações referentes à década de 90, altura em que a emissora importou cerca de 1,7 toneladas de equipamento para TV e rádio. Os documentos apresentados à inspeção na altura não correspondiam ao real valor dos bens importados e veio a concluir-se serem falsos.

O caso acabaria por não dar em nada, sobretudo por questões práticas. Antes da conclusão dessa investigação, a defesa de Edir Macedo conseguiu libertá-lo do caso.

Um fiel, que sofria de uma doença mental, doou a totalidade do seu salário, contraiu um empréstimo bancário e ainda vendeu um terreno para entregar todo o dinheiro que conseguiu à IURD, para receber em troca uma “chave do céu” e um “diploma de dizimista”.

Mais tarde, em 2009, o Ministério Público voltou à carga, desta vez para dar início aos processos mais graves e que por mais tempo se arrastariam: lavagem de dinheiro, fraude fiscal e associação criminosa. Os procuradores acusaram Edir Macedo e outros nove elementos da IURD de alegadamente passarem o dinheiro oriundo dos dízimos dos fiéis para empresas de fachada que estavam registadas em nome da igreja, isenta de impostos. Dessas empresas, o dinheiro seguiria para outras, sediadas em paraísos fiscais nas ilhas Caimão e na ilha de Jersey. O dinheiro regressaria depois ao país para ser utilizado em benefício dos envolvidos, nomeadamente na compra de meios de comunicação social — terá sido assim que Macedo conseguiu comprar e depois expandir a Rede Record.

Além dos crimes associados às transações ilegais — todas feitas em nome de bispos da IURD, mas nunca de Edir Macedo, para não manchar a imagem do líder da igreja — os bispos foram também acusados de enganar os fiéis da IURD e de os obrigar a dar dinheiro à igreja. Segundo o jornal O Globo, um fiel, que sofria de uma doença mental, doou a totalidade do seu salário, contraiu um empréstimo bancário e ainda vendeu um terreno para entregar todo o dinheiro que conseguiu à IURD, para receber em troca uma “chave do céu” e um “diploma de dizimista”.

Um pastor denuncia um esquema financeiro

Em 2011, a justiça brasileira abriu um novo processo contra Edir Macedo e outros três líderes da IURD, novamente por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O Ministério Público também queria uma acusação por estelionato contra os fiéis, mas o tribunal acabou por não considerar esse crime. No centro da ação movida pelo Ministério Público esteve o procurador Sílvio Oliveira. Segundo o Estadão, o procurador argumentou que os fiéis foram iludidos com o “oferecimento de falsas promessas e ameaças de que o socorro espiritual e económico somente alcançaria aqueles que se sacrificassem economicamente pela igreja”.

Na acusação, o procurador denunciava como o dinheiro dos dízimos ia diretamente para as tais empresas em paraísos fiscais e regressava diretamente para as mãos dos bispos, para adquirirem participações em empresas ligadas à comunicação social. “É assim que o dinheiro doado pelos seguidores da Igreja Universal do Reino de Deus, através de engenharia financeira enganosa, acabou por se transformar em ações de empresas de rádio e televisão”.

Um dos chamados pastores da IURD cujos nomes foram utilizados sem consentimento nestas operações financeiras, Waldir Abrão, denunciou todo o esquema em 2009. Num depoimento em tribunal, Abrão disse que o seu nome foi usado em pelo menos 20 empréstimos fictícios: o dinheiro terá vindo do estrangeiro, de uma empresa offshore, e servido para financiar a compra de uma estação de televisão em Goiânia. Waldir Abrão, que tinha sido diretor da IURD na década de 80 e vereador no Rio de Janeiro, revelou às autoridades todo o esquema alegadamente utilizado pela igreja para aumentar o seu património.

Waldir Abrão disse que o seu nome foi usado em pelo menos 20 empréstimos fictícios: o dinheiro veio do estrangeiro, de uma empresa offshore, e serviu para financiar a compra de uma estação de televisão em Goiânia.

Uma semana depois de ter prestado estas declarações, o antigo pastor foi encontrado inconsciente no corredor do prédio onde vivia, no Rio de Janeiro. Como relatou a Folha de São Paulo, Abrão estava caído no chão com um ferimento na cabeça. Foi transportado para o hospital, onde viria a morrer dois dias depois. A polícia ainda investigou a morte do antigo religioso, mas sem conclusões.

Além dos alegados esquemas financeiros que passavam pelas empresas offshore, a IURD terá operado também, durante mais de uma década, um suposto esquema de desvio de fundos a partir de Portugal. A denúncia foi feita pelo antigo bispo Alfredo Paulo Filho, que foi responsável pela IURD em Portugal (e que agora também protagoniza algumas das denúncias na reportagem “O Segredo dos Deuses”, da TVI). Segundo o ex-bispo, a igreja criou uma rota ilegal para trazer dinheiro de Angola para Portugal e, posteriormente, enviá-lo para o Brasil.

“O governo de Angola não permitia tirar dinheiro de lá e a igreja em Angola era mais forte que em Portugal”, disse Alfredo Paulo Filho à Folha de São Paulo. Por isso, segundo ele, o dinheiro dos dízimos dos milhares de fiéis da IURD vinha dentro do jato privado de Edir Macedo até Portugal, onde era depositado na conta da igreja como se fossem ofertas dos fiéis portugueses. O caso avançou para a justiça, mas no sentido oposto, com a igreja a mover um processo contra o ex-bispo por calúnia e difamação. Tudo porque Alfredo Filho Paulo não tinha provas do alegado esquema em que participou. “Minha prova sou eu. Participei e vi”, garantiu.

Os gladiadores do altar e as acusações de intolerância religiosa

A última grande polémica da IURD antes do escândalo divulgado pela TVI estalou em 2015, depois de a igreja de Edir Macedo ter anunciado a criação dos “Gladiadores do Altar”, uma milícia composta por jovens fiéis destinada a combater o inferno. O objetivo do grupo era mesmo “entrar no inferno e ganhar almas”, mesmo que isso implicasse morrer. Os gladiadores, considerados por muitos uma espécie de força paramilitar, chocou o país e motivou inúmeras queixas por parte de outras religiões, que acusavam a igreja de ameaçar outros cultos.

Logo em 2015, o Ministério Público Federal anunciou que iria investigar aquele grupo da IURD, na sequência de uma queixa apresentada por religiões afro-brasileiras (que Macedo considera “demoníacas”) em seis estados do Brasil. A Justiça brasileira aceitou as queixas por supostamente conhecer o histórico de perseguição de membros da IURD a estas religiões minoritárias, que se intensificou com a criação do grupo de jovens uniformizados.

Em resposta às acusações, a Igreja Universal disse que o projeto tinha sido mal entendido. “Buscar uma motivação violenta ou condenável em jovens uniformizados que marcham e cantam unidos em igrejas é tão absurdo quanto enxergar orientação fascista em instituições como o Exército da Salvação e o Movimento Escoteiro, ambas organizações mundiais com origem cristã e que, como a Universal, também utilizam a analogia militar de forma positiva e pacífica”, disse na altura a IURD, num comunicado.

A chegada a Portugal e a nega da Aliança Evangélica

A Igreja Universal instalou-se em Portugal em 1989 quando, conta Edir Macedo na sua autobiografia, o bispo Paulo Roberto Guimarães inaugurou o primeiro templo num “pequeno salão” na Estrada da Luz, em Lisboa. O primeiro culto contou com a presença de menos de 20 pessoas e o número de fiéis foi-se multiplicando “muito devagar”, porque “o preconceito era muito forte”, relata o bispo.

A estratégia de expansão utilizada no Brasil foi replicada em Portugal: chegar aos meios de comunicação. Apesar da resistência, o pastor conseguiu arranjar um espaço na rádio e, três anos depois, a igreja conseguiu alugar um espaço de 30 minutos na SIC.

A integração da IURD em Portugal esteve longe de ser pacífica. Logo nos primeiros anos, o bispo Edir Macedo deslocou-se a Lisboa para uma reunião com a Aliança Evangélica Portuguesa, associação que congrega todas as igrejas evangélicas do país. Na altura, explica Macedo no seu livro, era preciso ser aceite naquela associação para que a IURD conseguisse o registo de atividade religiosa. Na autobiografia, Edir Macedo conta que a reunião acabou por ser em vão.

O pedido de adesão da IURD foi rejeitado pela Aliança Evangélica Portuguesa porque as práticas da Igreja Universal não se adequavam ao Evangelho, segundo a Comissão Consultiva de Ética e Teologia da Aliança explicou na altura à revista Visão. Ao Observador, o presidente da AEP, António Calaim, disse recentemente que a doutrina e prática da IURD “não respeitam os valores e os princípios da Aliança Evangélica”, pelo que “dificilmente” a IURD poderá ser reconhecida enquanto igreja evangélica ou filiada na organização.

“Com Aliança ou sem Aliança, orientei os nossos bispos e pastores a seguir em frente, sem olhar para qualquer tipo de discriminação ou desdém com o nosso trabalho”, escreve Edir Macedo no seu livro. A partir dali, as polémicas sucederam-se.

A compra do cinema Império em Lisboa

Já com um número de fiéis consolidado, a igreja decidiu que estava na altura de abrir um grande templo, de dimensões consideráveis, que servisse de sede nacional para o culto. Debaixo de olho estava já um edifício emblemático da cidade de Lisboa: o cinema Império, na alameda D. Afonso Henriques, que tinha deixado de funcionar como cinema no final da década de 80. Macedo deu ordens para que a IURD em Portugal comprasse o edifício, mas o negócio não correu bem na primeira vez, já que a Lusomundo mantinha um projeto para construir ali um centro comercial.

O cinema Império, em Lisboa, antes e depois de ter sido adquirido pela IURD para ali instalar a sede nacional da igreja

Quando a câmara de Lisboa não aprovou o projeto para a instalação do centro comercial, a IURD tornou a apresentar uma proposta de compra e acabou por fechar o negócio, comprando o imóvel por dois milhões de contos (dez milhões de euros), que terão sido pagos em dinheiro.

No ano seguinte, Edir Macedo esteve em Portugal para o primeiro evento de grandes dimensões no país, à semelhança dos vários que ia protagonizando no Maracanã, no Brasil. Em dezembro de 1993, contava a revista Visão, Macedo conseguiu convencer Valentim Loureiro — na altura presidente do Boavista e candidato do PSD à câmara de Gondomar — a fazer-lhe um desconto no aluguer do Estádio do Bessa: pagou apenas 800 contos para usar o estádio, em vez dos habituais mil, com a promessa de “não estragar a relva”.

O relatório das secretas portuguesas

Entretanto, a IURD continuava o seu trabalho de expansão e de aquisição de meios de comunicação social. Em 1993, já a rádio Placard, no Porto, e a rádio Liz, em Leiria, recentemente adquiridas pela igreja, viam os seus funcionários serem substituídos por funcionários brasileiros. As suspeitas de que a organização era alvo no Brasil levaram o Serviço de Informações de Segurança português a investigar a IURD.

No relatório enviado em 1994 ao Ministério da Administração Interna, nada a assinalar. E a IURD pronuncia-se publicamente: “Ficávamos imensamente gratos se os nossos telefones deixassem de estar sob escuta”.

Quando a IURD quase comprou o Coliseu do Porto

O evento no Estádio do Bessa, com perto de 50 mil fiéis, marcou o início da expansão da IURD no norte do país, que iria culminar naquela que foi a maior polémica da história da igreja em Portugal: a tentativa de compra do Coliseu do Porto, em 1995, para transformar a histórica sala de espetáculos na sede da IURD no norte, que só viria a ser impedida devido à intervenção de um conjunto de artistas portugueses, que se acorrentaram ao edifício e organizaram um espetáculo em defesa da manutenção daquele espaço cultural.

Manifestação em frente ao Coliseu do Porto, a 4 de agosto de 1995 (Fotografia: Coliseu do Porto)

O negócio, aliás, chegou a estar quase fechado, uma vez que a IURD assinou um contrato-promessa com a Aliança UAP, dona da Empresa Artística, que era a proprietária do Coliseu. Contudo, tudo se alterou quando o bispo João Luís, então líder da IURD em Portugal, disse em público que o Coliseu se transformaria na Igreja Matriz da Universal no Porto. A empresa recuou, alegando que essa intenção contrariava o contrato-promessa. E a câmara municipal interveio, sublinhando que “aquele recinto, uma das mais importantes salas de espetáculos da cidade, foi criado com fins culturais e não religiosos”, e que assim se deveria manter.

Importante neste processo foi a mobilização popular em torno do Coliseu. Quando a notícia de que o edifício poderia ser vendido veio a público, vários intelectuais, artistas, políticos e muitos portuenses juntaram-se às portas do Coliseu para uma manifestação em defesa daquele lugar. Mais tarde nesse ano, foi organizado o espetáculo “Todos pelo Coliseu”, destinado a angariar fundos para a aquisição do edifício. GNR, António Pinho Vargas, Óscar Branco, Maria Clara, Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa e Mário Viegas foram alguns dos artistas que subiram a palco nessa noite, em que foi também criada a Associação dos Amigos do Coliseu do Porto.

A chegada da Record a Portugal

No Porto, a IURD tentou também expandir o seu domínio nos meios de comunicação social, tentando comprar o jornal Comércio do Porto. O negócio com a Lisgráfica esteve quase fechado, mas a empresa que detinha a maioria do capital da publicação acabou por recuar por causa da polémica com o Coliseu do Porto.

A influência mediática da Igreja Universal em Portugal consolidar-se-ia em 2005, com a instalação definitiva da Rede Record em Portugal. O canal já era transmitido em Portugal desde 2003 nos operadores de televisão por cabo, mas só naquele ano passou a ter estúdios em Lisboa, que servem também de base para as operações da estação na Europa.

Nesse ano, o líder da Record Internacional, Aroldo Martins, negava a influência da IURD nos canais da Record, sublinhando que a igreja era apenas um dos clientes. O facto de Edir Macedo ser um dos donos da Rede Record, argumentou Aroldo Martins, “não quer dizer que a Igreja tenha espaço de graça”. Contudo, grande parte da emissão europeia da Record — sobretudo durante a noite — é hoje ocupada com programas da responsabilidade da IURD, como o “Despertar da Fé” ou o “Decisão”.

A “ficha de cadastro” com que preparou o primeiro encontro com a mulher

A família de Edir Macedo sempre esteve envolvida na Igreja Universal de Deus, em particular a mulher, Ester Bezerra. O casal conheceu-se na Igreja Nova Vida, que ambos frequentavam, mas antes de casar Edir foi “precavido” e investigou “a ficha de cadastro” de Ester “no escritório da Igreja”. “Descobri que era de uma família evangélica, cujo avô tinha sido pastor de uma denominação tradicional. E passei a ‘persegui-la’”, escreve na sua autobiografia.

Em apenas oito meses, o casal começou a namorar, ficou noivo e casou a 18 de dezembro de 1971. Edir tinha 26 anos e Ester 22. Um ano depois, Ester engravida da primeira filha do casal. Cristiane nasce em 1973 e, dois anos depois, chega Viviane. Aliás, a IURD foi criada na sequência do nascimento da segunda filha do casal, que nasceu com Lábio Leporino e Palato Fendido. Edir Macedo escreveu na sua biografia:

“Em vez de procurar consolo no meus entes queridos ou mesmo na Igreja, parti para cima do problema com uma ira incontrolável. Decidi orar. Mas não foi uma oração comum. Fechei as mãos e, com raiva, esmurrei a cama inúmeras vezes.

— Meu Deus, agora ninguém me vai parar. Nenhuma família, nenhuma esposa, nenhum futuro, nenhum sentimento, nada. Ninguém me há-de parar! Ninguém, ninguém! Chega, chega!

Ali foi gerada a Igreja Universal Reino de Deus.”

O casal conheceu-se na Igreja Nova Vida, que ambos frequentavam, mas antes de casar, Edir foi “precavido” e investigou “a ficha de cadastro” de Ester “no escritório da Igreja”

O terceiro filho do casal, Moyses, só surgiu em 1985. Segundo a sua versão, uma mulher foi entregar o filho a Ester durante um culto, dirigido por Edir, dizendo que queria dá-lo ao casal:

“Olhei o menino, passei a mão sobre a cabeça dele, peguei-o do colo de Ester e voltei-me para a mãe da criança:

— A senhora está a dar-me este bebé?
— Sim — respondeu ela, caminhando em direção ao altar.
— Por favor, suba aqui e explique isso ao microfone, diante de toda a Igreja.
— Desde que fiquei grávida, pensei em dar o meu filho a vocês.
— A senhora tem a certeza? A senhora sabe o que está a dizer? A senhora sabe quantas testemunhas há aqui?
— Sim, tenho a certeza disso.

Ergui a criança sobre a minha cabeça e consagrei-a a Deus em oração juntamente com toda a Igreja presente naquele momento.

— Nasceu agora o Moyses da Igreja Universal.”

Ester Bezerra e as duas filhas, Cristiane e Viviane, sempre fizeram parte da vida da IURD e têm um papel ativo no dia a dia da Igreja. Edir Macedo refere na sua autobiografia que a mulher sempre o acompanhou nos momentos mais importantes da sua vida, nas várias viagens que faz e marcou presença nos vários cultos.

As duas filhas de Edir Macedo casaram com dois bispos da IURD: Cristiane casou com Renato Cardoso, em 1991, e Viviane com Júlio Freitas, em 1992. Todos eles, incluindo Ester Bezerra, têm páginas na Internet e recorrem às redes sociais para promoverem o seu trabalho e dar conselhos os fiéis da IURD.

O casal Cardoso, por exemplo, faz palestras em conjunto sobre relacionamento e casamento nos templos da IURD, apresenta um programa na Record, chamado “The Love School: A Escola do Amor”, e faz cursos intitulados “Casamento Blindado”, onde dá conselhos sobre amor e casamento aos membros da Universal.

Cristiane e Renato escreveram ainda várias obras em conjunto, como Casamento Blindado120 minutos para blindar o seu casamento e Namoro Blindado. Cristiane criou ainda o grupo Godllywood, que “nasceu de uma revolta sobre os valores errados que a nossa sociedade tem adquirido através de Hollywood ” e é dirigido às mulheres e jovens que querem tornar-se “mulheres de Deus”.

revista Veja avançou que Renato Cardoso será o sucessor de Edir Macedo na liderança da Universal. Informação que foi posteriormente contrariada pela IURD.

Júlio Freitas, por sua vez, tem um programa de rádio chamado “Família Unida” e o programa de televisão “Não Desista” — ambos passam em Portugal –, lê-se na sua página online. O genro de Edir Macedo criou a Rádio Positiva, uma rádio online, é o coordenador da linha telefónica de aconselhamento Amigo24h, que opera em Portugal, e das revistas “A Minha Oportunidade” e “Iurd News”. Já Viviane Freitas recorre ao seu blogue par partilhar as suas experiências de vida.

Moyses, contudo, não tem um papel tão ativo no dia a dia da IURD. Segundo a Folha de São Paulo, o filho adotado do bispo Macedo canta e chegou a gravar músicas para novelas da Record sob o nome artístico Mikefoxx. Mais recentemente, segundo a Veja, tornou-se assessor da vice-presidência executiva da Record.

As adoções ilegais e o tráfico de crianças em Portugal

As duas filhas de Edir Macedo têm filhos adotados. Cristiane tem um rapaz, Filipe, que foi adotado aos quatro anos, em 1998. Viviane adotou os dois filhos, Vera e Luís, em Portugal — na sua autobiografia, Edir Macedo apenas refere o filho adotado de Cristiane.

A adopção, aliás, tem sido muito promovida pelo líder da IURD, assim como a vasectomia. “Ter filhos hoje em dia é um risco, significa viver numa selva. Se eu casasse hoje, jamais teria filhos, embora Deus me tenha concedido três filhos extraordinários. Aconselho abertamente os membros e os pastores a não terem filhos”, escreve Edir Macedo na sua autobiografia. “Atualmente grande parte dos nosso pastores opta, voluntariamente, pela decisão de não ter filhos por entender ser assim possível uma dedicação maior à pregação do Evangelho.”

De acordo com a reportagem da TVI “O Segredo dos Deuses”, os filhos de Viviane e Júlio Freitas foram adotados ilegalmente num lar dirigido pela IURD em Portugal. Para tal, e depois da candidatura de adoção de Viviane ter sido rejeitada por não ter idade suficiente nem residência em Portugal, terá sido posto em marcha um plano para que as crianças fossem na mesma entregues ao casal. Terão recorrido à secretária de Edir Macedo, a portuguesa Alice Andrade, que adotou formalmente Vera e Luís e depois os terá entregue a Viviane e Júlio Freitas. Depois de vários anos a viverem com a filha de Edir Macedo, terão sido devolvidos a Alice Andrade.

As crianças tinham ainda um irmão mais novo, Fábio, que Viviane não terá querido, mas que também foi adotado por Alice Andrade. A criança, de acordo com a TVI, foi adotada no Brasil pelo bispo Romualdo Panceiro — atualmente responsável pela IURD em Portugal e na Europa — e a quem deram o nome de Filipe Barbosa Panceiro. Morreu em 2015 em Nova Iorque.

Durante o processo de adoção, a TVI alega que a mãe biológica da criança terá sido impedida de ver os filhos e terá começado a circular o rumor de que era toxicodependente e seropositiva. A mulher não terá sido consultada quanto à adoção dos filhos.

O Ministério Público já abriu um inquérito para investigar esta alegada rede de adoções ilegais. A IURD negou estas acusações, referindo ainda que irá processar o ex-bispo Alfredo Paulo FIlho, que denunciou o caso.

Os jovens reagiram à investigação da TVI, através de um vídeo, em que negam os factos que são apresentados. Vera e Luís, atualmente com 25 e 24 anos, dizem ter sido adotados legalmente em Portugal por uma casal norte-americano, com quem viveram até aos 20 anos.

Vera, obreira na IURD, e Luís, pastor da igreja, surgem em diversos vídeos com Viviane e Júlio Freitas e são encarados como filhos do casal, apesar de legalmente terem sido adotados por Alice Andrade.

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