Poucos dias depois da ascensão do Angosat1, segue para o espaço outra meteórica nave com as cores de Angola, amanhã, 31/12, sem no entanto merecer a mesma euforia, no caso o foguete chamado grelha de programação na TPA2 made in Semba Comunicação e Westside, que ia já a caminho de completar uma década na televisão estatal aberta.

Façamos figas para que alguns “produtos” fiquem mesmo plantados lá longe, na órbita da recordação. O Pato, o Sempre a Subir, o Sexolândia, entre outros desserviços públicos. Junte-se a ele (não pela autoria, obviamente) aquele espaço de “hidro intrujice universal” à guisa de evangelho servido à meia-noite.

Podiam ser repescados outros de feliz memória, tais como o Hora Quente (talvez com um apresentar um poucoxinho menos morno); o Bodas (que alimenta o direito muito feminino a fantasiar a chegada do dia de se encaixar num vestido branco rendado, salpicar arroz no rosto, agrilhoar os dedos de ouro e vasculhar a lua escondida num mel recheado de libido); o Sessões (espaço acústico que era servido com pouco menos de 30 minutos de antena, por isso mesmo uma gota no oceano se comparada com o entulho dos beefs e a promoção atabalhoada do ku-duro e demais intenções de música de batida electrónica).

Na realidade e meramente numa óptica de observador que por opção não usa das parabólicas (só consome a TPA mesmo), tudo o que fica deste tempo é a impressão de termos no estilo de dança/música kú-duro a mentira artística mais fácil de contar e multiplicar, sem sustentabilidade, a fazer justiça a tantos rostos e temas (em estado de múmia) que um dia “bateram”, com os holofotes da TV ávidos em impor o estrelato inculto. Quanto ao Tchilar, fica um tanto faz.

Pouco se aventa a respeito do que anda a ser cozinhado para a nova identidade da TPA2, pelo que abrir champanhe antes da festa também não se aconselha nem nos surpreenderia um mais do mesmo, afinal faz parte da nossa história. Há que dar voto de confiança à vontade do novo titular do executivo, visando termos “Um canal internacional que reflita de facto a realidade de Angola, que venda a imagem Angola, que mostre as suas belezas, que mostre sobretudo as suas grandes potencialidades, para que desta forma possamos atrair não apenas turistas, mas sobretudo potenciais investidores”.

Até lá, que se ressuscitem o Leituras (de Luís Kandjimbo), o Vozes do Semba (de Jomo Fortunado), Ecos do Musseque (de Alves de Jesus), aquela jornada de Em Cena (do teatro em palco), os programas infanto-juvenis produzidos nas delegações provinciais (nunca se percebeu bem a razão da extinção do Comboio da Amizade, da TPA Benguela, o melhor no segmento a nível nacional e “abatido” logo no seu auge, em finais da década de 1990).

Ademais, auguramos um serviço de TV virado para a pesquisa inter-cultural, que não considere o carnaval mais importante nem mais digno de mais horas de cobertura do que outras manifestações presentes e activas na malha cultural dos vários povos/nações que formam o projecto de nação chamado Angola. Uma TV que se proponha a ir um pouco além do clichê de ser o semba a bandeira nacional, quando sabemos que não é nem um pouco mais ou menos representativo dos grupos etnolinguísticos de Cabinda ao Kunene, do mar ao Leste. Enfim. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 30 de Dezembro de 2017 | www.angodebates.blogspot.com/


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