Chefe de Estado “testou limites do seu poder” ao exonerar Isabel dos Santos

O académico e investigador angolano Jonuel Gonçalves considera que a exoneração de Isabel dos Santos da administração da Sonangol é um “teste aos limites do poder” do novo Presidente de Angola, João Lourenço.

“A primeira interpretação é, desde logo, de caráter político. João Lourenço testou os limites do seu poder e está a fixar os limites muito para além do que se pensava há pouco tempo”, afirmou o académico e investigador angolano Jonuel Gonçalves sobre a exoneração de Isabel dos Santos da administração da Sonangol, à agência Lusa.

“Muitos pensaram que iria imprimir um estilo próprio, mas que precisaria de muito mais tempo para ter essa margem de manobra”.

Também conhecido por José Gonçalves, na qualidade de comentador da RDP-África, o também escritor e ensaísta salientou que a importância da exoneração de Isabel dos Santos ganha maior projeção a partir do momento em que recoloca Carlos Saturnino na Sonangol, desta vez à frente dos destinos da petrolífera angolana.

“(João Lourenço) consegue fazer duas coisas em simultâneo: definir uma nova linha política e económica para a área petrolífera ao retirar Isabel dos Santos e recolocar Carlos Saturnino, que já esteve na Sonangol e que, por divergências com ela, foi demitido pela própria Isabel dos Santos”, sublinhou Jonuel Gonçalves.

Para o analista e professor universitário, estas alterações representam uma “alteração radical” na estratégia política que pretende imprimir, sobretudo garantindo que quem vai dirigir o principal recurso de Angola não pode ter compromissos com outras áreas de investimento.

Por outro lado, prosseguiu, passa a haver uma “desconcentração e separação da riqueza dos centros de decisão política”.

“No passado, houve muitas pessoas que concentraram a riqueza e acumulação de capital e que ainda têm uma influência política muito grande. João Lourenço pretende, neste caso, obviamente, diminuir essa mesma influência”, frisou, destacando ainda a “impressão” transmitida por João Lourenço de querer distanciar o Estado do partido no poder (Movimento Popular de Libertação de Angola — MPLA).

Lembrado pela Lusa sobre as declarações do secretário das Relações Exteriores do MPLA, Dino Matross, que disse que João Lourenço estava subordinado ao poder de um partido que é, ainda, liderado por José Eduardo dos Santos, o analista acrescentou que há mais dirigentes a dizer o mesmo em público.

“Muitos pensaram que a direção do MPLA ia continuar a dirigir o Estado e, sem mexer no MPLA, João Lourenço está a destacar o Estado do partido e isso já teve sucesso noutros países africanos, em que se constatou que sem isso não haveria sucesso democrático”, sustentou.

Para Jonuel Gonçalves, se João Lourenço está a demonstrar uma vontade de redefinir o papel do Estado e, por outro lado, se está com coragem para criar um clima de transparência, como as medidas tomadas recentemente nos “media”, torna-se “claro” que os investidores internacionais e os privados agradecem.

“Mas, se Angola não conseguir investir rapidamente nos próximos dois anos, todos os efeitos do apoio que João Lourenço está a conseguir vão cair”, advertiu.

Sobre se todas estas medidas tomadas recentemente por João Lourenço constituem uma afronta a José Eduardo dos Santos ou se, pelo contrário, tudo está a ser concertado por ambos, Jonuel Gonçalves não descartou qualquer uma das hipóteses.

“Há sempre possibilidades e há sempre teorias da conspiração. Naquilo que é possível ver, porém, é que João Lourenço não está preocupado com quem está a dirigir o MPLA, embora esteja atento a isso, mas sim com tornar o Estado independente do partido. Serem duas instâncias diferentes”, explicou.

Por outro lado, acrescentou Jonuel Gonçalves, que terminou há três dias uma estada de uma semana em Angola, João Lourenço terá de fazer pressão para que os angolanos detentores de grande capital no exterior tragam uma parte desse capital para investir no país, o que ajudaria muito a cobrir os elevados défices.

“Estes parecem ser os dois eixos fundamentais da política de João Lourenço no curto prazo. Aliás, João Lourenço está a fazer testes de curto prazo para ver o que pode fazer em seguida politicamente, porque, do ponto de vista económico, vai depender muito da boa vontade do capital internacional e, necessariamente, da pequena poupança nacional que ainda está no país”, referiu.

Jonuel Gonçalves destacou ainda a forma “impressionante” como é acolhida em Angola qualquer notícia de afastamento ou exoneração de alguém muito próximo do ex-presidente angolano, dando como exemplos a recente vaga de alterações nos órgãos de comunicação social estatais e no setor mineiro, bem como agora no petrolífero.

“A própria liderança do MPLA tem de se dar conta disto. Ou se defende, como grupo, numa espécie de política corporativa, ou aproveita tudo isso para que o MPLA volte a ter um apoio popular maciço. É bom não esquecer que o MPLA ganhou as eleições, mas perdeu muitos votos e não conseguiu chegar aos 50% em Luanda”, disse.

Questionado pela Lusa sobre se o presidente do Fundo Soberano de Angola, José Filomeno dos Santos, tal como Isabel, filho de José Eduardo dos Santos, o comentador destacou que, nas redes sociais angolanas, o assunto já está no centro do debate e que já há a crença de que estará para breve.

“Há uma indicação de que, pelo menos, (Filomeno dos Santos) já não está imune nem impune. Houve um artigo no Jornal de Angola, que continua a ser o jornal oficial, que é a transcrição da imprensa suíça sobre a história do Fundo Soberano de Angola atacando-o nominalmente”, concluiu.


João Lourenço, o militar que fez xeque mate ao clã Eduardo dos Santos

De uma penada, Presidente angolano retirou poder e negócios a três dos filhos de José Eduardo dos Santos. Quem esperava uma transição suave enganou-se.

Antes de ser escolhido pelo MPLA para suceder a José Eduardo dos Santos, João Lourenço era visto como um homem do regime. Conhecido pela dedicação ao partido, pelo “espírito de corpo” e sentido de Estado, teve uma ascensão quase ininterrupta desde a independência do país até chegar ao mais alto da nação angolana.

Quem esperava uma transição suave – a maioria dos observadores – enganou-se. Lourenço é hoje encarado como o homem que está a provocar uma revolução no regime. Exonerou Isabel dos Santos da presidência da petrolífera Sonangol, acabou com o contrato que a televisão pública TPA mantinha com ‘Tchizé’ e ‘Coreon Du’, outros dois filhos de José Eduardo dos Santos. Há quem antecipe que o próximo alvo será José Filomeno dos Santos, outro dos filhos do ex-chefe de Estado, que gere o Fundo Soberano de Angola. Jogador de xadrez, fez a mais ousada das jogadas.

A avaliação do jornalista e ativista Rafael Marques, numa entrevista recente ao Expresso, é reveladora:”A UNITA é uma oposição formal, política e efetiva não existe. É uma oposição que é feita pouco antes das eleições, mas no quotidiano não existe. Neste momento, o maior opositor do regime é o João Lourenço”.

Antes das eleições, Paulo Guilherme, editor do Africa Monitor, que presta serviços de análise estratégica sobre países africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), definia ao Jornal Económico o perfil do então candidato do MPLA às eleições presidenciais.“O seu pensamento político é o pensamento do partido. Não é uma figura carismática, mas pela sua antiga militância e relevo dos cargos ocupados no partido, ao nível da coordenação, e no governo, mais recentemente em pastas sensíveis como a Defesa, conhece o aparelho partidário provavelmente como ninguém”. O facto de ter “o reconhecimento e o respeito da hierarquia militar dá-lhe condições únicas” para atuar, apontava o analista, que na altura se pensasse que esse poder iria ser utilizado para uma transição suave e para unificar o partido. Não foi assim.

Diferendo antigo com José Eduardo dos Santos

O historial de Lourenço já indiciava que a cohabitação com José Eduardo dos Santos não seria pacífica. Em 2003, José Eduardo dos Santos tinha dado indicações de que iria retirar-se. Lourenço apareceu em público a defender que a palavra do Presidente tinha de ser cumprida e isso foi o suficiente para o secretário-geral do MPLA ser visto como uma fonte de contestação ao poder do Presidente. Houve consequências. Foi afastado de secretário-geral e a travessia no deserto só foi ultrapassada em 2014, quando foi nomeado ministro da Defesa.

Agora, o apoio das forças armadas é determinante no embate com o clã do ex-presidente. O gene político de João Lourenço tem antecedentes militares. Nascido há 62 anos na cidade do Lobito, conviveu desde novo com a contestação da família ao regime de Salazar. O pai, um enfermeiro do Porto do Lobito nascido em Malange, foi um dos opositores à ditadura portuguesa e a família sofreu na pele essa opção. João teve de fazer os estudos primários e secundários na província do Bié, onde o pai esteve em regime de residência vigiada durante dez anos, depois de ter estado detido três anos na prisão de São Paulo, em Luanda, pela atividade política clandestina.

Depois de completar os estudos no então Instituto Industrial de Luanda, que coincidem com o final da ditadura em Portugal, junta-se à luta de libertação nacional. Participa em combates na fronteira contra a coligação FNLA/Exército Zairense e, a partir do morro do Tchizo em Cabinda, integra o primeiro grupo de combatentes que entraram em território nacional.

É enviado para a União Soviética com uma bolsa de estudo e frequenta a Academia Superior Lénine entre 1978 e 1982. Tem formação militar com os soviéticos e do frio também trouxe um canudo em Ciências Históricas. Esteve envolvido na guerra em diferentes escalões militares, e hoje é general na reserva. Os estudos na União Soviética incutiram-lhe a doutrina marxista-leninista, mas no final dos anos 90 o MPLA reviu o seu posicionamento e incorporou uma visão mais pró-mercado.

O ímpeto reformista só poderia ser avaliado quando José Eduardo dos Santos sair de cena definitivamente. “Há uma nova geração no MPLA, muitos deles filhos da elite formados no estrangeiro, que anseia por assumir cargos de governação que muitas vezes estão reservados, por critério de antiguidade, a personalidades de maior renome e com carreiras políticas mais longas. Lourenço terá de gerir esta tensão”, acrescentava o analista.

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