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Corrupção como herança colonial?

Quando ainda não celebramos 100 anos desde a independência do primeiro país africano livre da colonização (Egipto, 1922), ou seja, menos de duas gerações, é possível que a corrupção tenha sido transmitida durante a colonização como uma prática aceitável?

Têm sido frequentes os casos de corrupção envolvendo figuras de destaque da sociedade e do governo português desde o processo “Face oculta”, “Operação Marquês”, a acusação que está por formalizar ao ex-primeiro ministro José Socrates que já leva 30 arguidos entre eles um ex-ministro e ex-administrador da CGD, um ex-presidente do BES e dois antigos administradores da Portugal Telecom, o caso dos vistos gold, destinado a atrair investidores estrangeiros, o caso “BES/GES”, o caso “Monte Branco” que envolve uma rede de branqueamento de capitais em Portugal e Suiça, o caso “Banif”, casos envolvendo a logística do exercito, viagens de políticos e responsáveis de empresas publicas pagas por privados e outros mais antigos como dos bancos BPN e BPP, chegando mesmo a casos no desporto envolvendo dirigentes conceituados. Portugal ocupa assim a, não tão honrosa, 28ª posição da lista da transparency International 2015 Corruption perceptions índex.

Quando Diogo Cão chegou a foz do rio Zaire em 1482, Pedro Alvares de Cabral atingiu o Brasil em 1500 e outros, não tinham certamente em mente a influência que o seu país natal, Portugal, teria sobre os territórios que acabariam por ocupar. Durante cerca de 500 anos, em Angola, para ser mais preciso, 493 anos, e 322 anos no Brasil, a antiga potência colonial alterou profundamente o rumo da história e com isto, a maneira de agir e pensar dos povos nativos. Hoje, e se considerarmos que uma geração dura aproximadamente 50 anos, podemos concluir que de 7 a 10 gerações foram influenciadas profundamente pela colonização europeia. Desde as nossas características étnicas e rácicas, o idioma, a indumentária, a gastronomia, hábitos e costumes, a arquitectura das nossas cidades e em mil outros aspectos é visível e implícito o peso da permanência forçada dos Portugueses em território ocupado/colonizado.

Mas há outro aspecto que gostaria de analisar como sendo (ou não) uma das piores heranças coloniais: A corrupção (em todos os territórios colonizados).

A colonização foi efectivada no terreno na sua maioria por condenados, rejeitados, traficantes, gente sem futuro, escória enviada para África e Brasil como punição por crimes ou acções pouco aceitáveis. Ou seja, gente sem caracter e personalidade, sem escrúpulos, cujas acções influenciaram de certa forma e visão dos povos africanos.

Segundo José M. Gabriele do JCOnline, “a corrupção no Brasil é institucionalizada. Fruto dos nossos colonizadores, os portugueses, que roubavam o nosso ouro e transportavam para a sede da coroa, em Lisboa. Nessa tarefa, havia provavelmente corruptores e corrompidos entre os colonizadores e os nacionalistas”

O jornalista Abdias Duque de Abrantes refere que “a corrupção no Brasil é um fato histórico, herança da colonização portuguesa que trouxe em suas embarcações os condenados pela Coroa Real. Trouxeram para cá aqueles que tinham praticado crimes como homicídio e roubo. O sistema de exploração das colônias imposto pelo capitalismo comercial europeu provocou a propagação da corrupção. A corrupção no Brasil tem veia portuguesa.”

André Carlo Torres, vice-presidente do Tribunal de Contas do Ceará (TCE-CE), refere que nessa altura surgiu provavelmente o primeiro caso de nepotismo na ex-colónia, realizado por Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei D. Manuel I: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha”.

A corrupção é definida como o “Acto ou efeito de corromper ou de se corromper”, “Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio”, ambas pelo dicionário Priberam, “Desvirtuamento de hábitos; devassidão de costumes; devassidão” pelo dicionário online Português.

Como podemos ver, são definições que se enquadram literalmente nas acções coloniais.

Quando ainda não celebramos 100 anos desde a independência do primeiro país africano livre da colonização (Egipto, 1922), ou seja, menos de duas gerações, é possível que a corrupção tenha sido transmitida durante a colonização como uma prática aceitável?

Sendo que ficou historicamente comprovado que a colonização teve como incentivo o saque profundo e indiscriminado dos recursos humanos e naturais de África, a ânsia pela posse e acumulação de riquezas pode ter sido transmitido como um hábito natural aos próprios africanos?

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