A notícia, assim como ela acontece

A imprensa cosmética de Benguela

Em setembro de 2010, o então administrador municipal de Benguela, Manuel Francisco, era detido na sequência da derrapagem financeira aos cofres do Estado na reabilitação de um jardim.

Por: Nelson Sul D´Angola

Um milhão e 600 mil dólares norte-americanos foi o valor que esteve em causa. A emissora pública local, a Rádio Benguela, e todos os meios de comunicação social privados, deram destaque e uma ampla cobertura ao assunto. Aquilo que aos ‘olhos de alguns’ parecia uma perseguição jornalística à Manuel Francisco, era simplesmente o “interesse público e jornalístico” que estava em causa.

No entanto, Manuel Francisco tivesse tido ‘amigos jornalistas’, o mais provavelmente é que à sua detenção teria sido ‘abafada’ pela imprensa.

Ainda, em 2010, foi detido e conduzido à prisão o director provincial da saúde, António Bento, por ‘alegado’ desvio se medicamentos. O assunto foi amplamente divulgado pela rádio pública local, durante vários dias, e por todos os órgãos de comunicação social privados, local e nacional. Tivessem sido “amigos de jornalistas”, a detenção do “Doutor Bento” e pares, provavelmente, teria sido ‘abafada’ pela imprensa…

Em 2014, foi detido ‘o todo poderoso’ Zacarias Kamwenho, então diretor do Ordenamento do Território, Urbanismo, Habitação e Ambiente. Deu rosto a uma rede que serviu interesses ilícitos de figuras de peso no governo do general Armando da Cruz Neto. Crime de peculato, traduzidos em sobrefacturações e cobranças de determinados serviços não prestados. À sua detenção foi ‘tema de capa’ da emissora pública local, a Rádio Benguela, e das rádios Mais e Morena; sem falar da imprensa de fim-de-semana (jornais). Camwenho é até ‘amigo de copo’ de um jornalista, o Francisco Rasgado. No entanto, parece que, um só não bastou…

Todas às segundas-feiras, o Comando Provincial da Polícia Nacional em Benguela, na voz do seu porta-voz, intendente Pinto Caibambo, dá a conhecer à imprensa os rostos de supostos assaltantes de “ovo de galinha”. A esses assuntos, os órgãos de comunicação social em Benguela, sem excepção, dão destaque hora a hora. Afinal de contas, os “gatunos de ovo de galinha” não têm amigos nas redações.

Em 2010, um grupo de gestores públicos a quem o Governo|Estado confiou a missão de levar a canalização de água para às residências dos cidadãos, sobretudo da periferia, desviou mais de 60 milhões de dólares. Foram exonerados dos respectivos cargos e há anos que respondiam o processo em sede de instrução preparatória. Confessaram o roubo. Há duas semanas foram detidos e também já foram postos em liberdade provisória. A imprensa local calou-se completamente. Os “jornalistas” perderam a noção dos valores que norteiam o jornalismo. Porquê?

Porque um dos sete arguidos e saqueador confesso do erário público, Ekumbi David, é colega nosso; é jornalista da Rádio Benguela e é colaborador da Televisão Pública de Angola -TPA-. Vezes sem conta, o mencionado jornalista, no ‘seu’ programa “Roteiro da Manhã” da Rádio Benguela, faz o papel de juiz e não propriamente a de jornalista, condenando os “assaltantes” de “ovo de galinha” e sem ter em conta presunção de inocência.

A maioria dos ‘jornalistas benguelenses’, sabem que os ex-gestores da Empresa de Águas de Benguela e Lobito, provocaram mais prejuízos ao Estado, do que Manuel Francisco|, Zacarias Camwenho|, António Bento – todos eles juntos-. Lamentavelmente, àqueles que deviam ser os guardiões da verdade, afinal, são amantes da máxima segundo o qual: “quem não tem padrinho na cozinha”… Enfim.

Para quem anda confuso sobre o papel|profissão do jornalista, recomendo que leia o brasileiro Evandro Andrade, ex-chefe de Jornalismo da TV Globo:

“Não tenho amigos para proteger e nem inimigos para perseguir na busca pelos factos e pela verdade dos mesmos.”

Ou leiam o jornalista luso Sérgio Figueiredo, diretor de informação da TVI.

“O bom jornalismo é intocável. (…) Há um conjunto de valores que define o jornalismo. E isso é imutável e inegociável. E se há coisa em que eu sou intransigente é na defesa dos princípios (…) da independência, a confiança e o rigor.”

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