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Toda a história da “Gloriosa Família” Van Dunem dos Santos

Nas vésperas da sucessão de José Eduardo dos Santos, em Angola, o clã presidencial, que inclui nove filhos de cinco mulheres, constitui uma das famílias mais poderosas de África. Conheça-os um a um e saiba como conseguiram chegar aqui

"Gloriosa Familia” Van Dunem dos Santos© Marcos Borga “Gloriosa Familia” Van Dunem dos Santos

Quando, por detrás dos vidros fumados do seu carro de Estado, o Presidente da República Popular de Angola, José Eduardo dos Santos, 74 anos, contempla o que resta das calçadas luandenses do tempo colonial, não deixará de se lembrar de quando ele próprio andava por ali a saltitar em redor do seu pai, Avelino Eduardo dos Santos, pedreiro e calceteiro da cidade. No Futungo de Belas, sede do poder angolano, manteve-se quase 38 anos como se ele próprio fosse uma construção em betão. O mais célebre dos Van Dunem – nome do meio, que herda de um ramo familiar iniciado por um mercador holandês de origem flamenga, Baltasar Van Dum – é a antítese do ditador africano típico: ele não se notabilizou pela destreza nas armas, já que, do seu percurso nas FAPLA e nas tropas regulares do MPLA, se distinguiu, sobretudo, como um discreto oficial de radiotransmissões, no distante enclave de Cabinda. Em vez disso, exibe as credenciais de um engenheiro de petróleos. Não prima pelos grandes e coloridos rituais africanos do poder, com discursos inflamados, parangonas e dragonas no dólmen, mas pela discrição absoluta, ensimesmada no seu fato escuro e gravata. Não ofuscou os seus compatriotas com a exibição obscena da riqueza – e ele é muito rico! – mas antes desviou dos olhares e das atenções esses sinais exteriores da – nas palavras dos críticos – alegada cleptocracia do seu regime, exemplo que alguns dos seus familiares mais próximos não têm seguido.

Quase não dá entrevistas, tendo sido a concedida ao jornalista Henrique Cymerman, no verão de 2013, e transmitida pela SIC, uma rara exceção, duramente negociada. (Cymerman, correspondente da estação em Israel, conseguiu o furo através do então embaixador de Angola em Telavive, José João Manuel “Jota”, com o qual tinha excelentes relações.) Não manteve o poder vitaliciamente, mas antes se prepara para o transferir, tranquilamente, esperando que o sucessor se legitime em eleições tão aparentemente livres como as que o mantêm desde 1992 (ato eleitoral marcado para eta quarta-feira, 23 de agosto). E, decerto, não morrerá a tiro, vítima de qualquer putch militar conduzido por um rival mais novo, mas, possivelmente, está destinado a dar o último suspiro, rodeado do clã onde se contam nove filhos de cinco mulheres diferentes, na cama, talvez num qualquer luxuoso estabelecimento de saúde europeu – como a Clínica Planas, em Barcelona, onde tem recebido tratamentos, mas sem que sejam revelados pormenores, pelo facto de o seu estado de saúde estar a ser visto como um segredo de regime. E este provável final tranquilo, meus senhores, não é, de forma nenhuma, o seu mais pequeno feito.

Quem é e como chegou aqui José Eduardo Van Dunem dos Santos? Que família é esta, tida pela mais poderosa de Angola, e que, não raras vezes, esconde o seu nome “boer” mas que, através dos seus muitos ramos, umas vezes unidos, outras vezes desavindos – uma das dissidentes, ou descendente de dissidentes, é a atual ministra da Justiça de Portugal, Francisca Van Dunem – criaram na antiga joia do Império português o seu próprio império, feito de interesses económicos, laboriosa teia política e uma liderança inteligente, aparentemente branda mas seguramente implacável?

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Um degrau acima dos outros

José Eduardo dos Santos – ou “o mais velho”, como é usual chamar-se, em Angola, a um homem com ascendente sobre os outros – recebe os seus interlocutores e reúne com os seus ministros a partir de uma posição de superioridade. E isto é literal: nos conselhos de ministros, a sua cadeira está num plano mais elevado do que as outras. Conhecedor da rua angolana, o Presidente de Angola reconhece o poder onde e quando ele está concentrado e não quando está disperso. Esta diferença cultural, que ignora checks and balances, é muito responsável pela luta de morte que, não obstante todos os acordos diplomáticos, redundou, em 2002, na eliminação física do seu histórico inimigo político, Jonas Savimbi, num recontro militar na província do Moxico. E também pelos muitos mal-entendidos que ciclicamente se estabelecem com o ex-colonizador. Na cabeça de José Eduardo dos Santos (JES), tudo funciona como nas ruas da Luanda da sua juventude: pode até haver vários órgãos de poder, mas eles nunca se equivalem, porque funcionam em patamares. Se existe um Presidente, é incompreensível que um Ministério Público funcione de forma independente, pelo menos, na prática.

Se existe um chefe, a imprensa será livre até que ele diga uma palavra. Roma locuta causa finita (se Roma falou, acabou-se a questão): esta citação latina bem poderia ser o seu lema. De uma certa forma, JES permitiu, no país, uma democracia que não é bem uma democracia e liberdades e garantias que não são bem nem liberdades nem garantias. A cadeira do Presidente está acima.

Enquanto ministro de Portugal, Paulo Portas, sentiu bem na pele esta mentalidade. Durante uns tempos, ele era alguém, em Luanda. Mas depois da crise do irrevogável, JES sentiu que o interlocutor do poder só podia ser Passos Coelho e Portas deixou de ser tão facilmente recebido. Com Miguel Relvas ainda foi pior: o choque da perda de influência a seguir à crise da licenciatura também o fez cair em desgraça, naquela altura, perante os seus antes tão grandes amigos angolanos. Manuel Vicente, o ex-vice de JES, que está acusado de corrupção pelo Ministério Público português, deixou de ter influência no regime angolano. Por isso, as reações de indignação de Luanda perante as decisões da Justiça lusa apenas cumprem os serviços mínimos, e só para que Angola não perca a face. Ninguém, a não ser o Presidente, sabe onde está o poder ou pode gabar-se de possuí-lo. E o mais notável é que JES construiu esta teia não propriamente baseado na força explícita, ou na sua qualidade de general que nunca foi, mas na sedução pelos negócios, pelo favoritismo, pela compra e pela concessão. Esta estratégia tem sido denunciada por ativistas e ONGs, mas também pela imprensa internacional. Em 2013, a revista americana Forbes escrevia, a propósito do império financeiro da filha Isabel dos Santos, que incluir a filha nos grandes negócios feitos em Angola é uma “forma de extrair dinheiro do seu país, enquanto ele se mantém à distância de maneira formal”. É verdade que o artigo era coassinado pelo jornalista e ativista Rafael Marques, a voz principal na denúncia dos alegados pecados do regime angolano. Mas há factos objetivos: os principais generais do MPLA foram-se tornando grandes empresários, detendo grossas fatias do bolo do PIB angolano, controlando muitas das principais riquezas, o que decorre da exploração dos recursos naturais, sobretudo os diamantes. Não lhes passa pela cabeça organizar um golpe de Estado.Paralelamente, um pequeno núcleo de civis, todo pertencente ao círculo mais íntimo (e, sobretudo, familiar) do líder angolano, fica com a parte de leão, diversificando as suas áreas de interesses e internacionalizando-se. Não é por acaso que, com a possível exceção da filha e também empresária Tchizé (deputada e membro do comité central do MPLA), nenhum dos filhos de JES seguirá carreira dentro do partido ou nos círculos do poder político. Embora praticamente todos eles conheçam bem não só os meandros do aparelho do MPLA mas também as pessoas. Ao longo destes anos de poder absoluto, o pai já construiu a rede necessária para que os Van Dunem mantenham o poder de facto, mesmo que não sujem as mãos nos perigosos e pantanosos terrenos da política interna. A campanha eleitoral começou esta semana. E o sucessor indicado para as eleições de agosto, João Lourenço, 63 anos, ministro da Defesa, vice-presidente do MPLA, mais do que um testa de ferro, é um homem de confiança e um político para fazer a transição, modernizar as instituições e, do ponto de vista político, abrir o regime. E essa é outra singularidade da família mais poderosa de Angola e uma das mais poderosas de África: podem dar-se ao luxo de permitir uma primavera política.

A “Princesa”

A principal ponta de lança dos negócios chama-se Isabel dos Santos, primogénita de Zé Du, como também é conhecido o Presidente. Até há pouco tempo, a “Princesa” – como lhe chamam em Angola – estava omnipresente em todos os grandes negócios em Portugal, tendo-se destacado pelas suas movimentações e operações financeiras no período de intervenção da troika, o que deu nas vistas lá fora. Em 2014, de novo a Forbes, sempre muita atenta aos movimentos de Isabel, dava eco internacional à tentativa da tomada da PT pela empresária, através da compra de 896 milhões de ações por 1,5 mil milhões de dólares. Com o casamento, há quase 15 anos, com o magnata e colecionador congolês de arte Sindika Dokolo (que conheceu em Londres), Isabel dos Santos amadureceu como mulher de negócios. Mas não era uma novata: ganhara experiência a trabalhar para a consultora Coopers & Lybrand, em Londres. (A Coopers & Lybrand fundiu-se com a PriceWaterhouse e deu origem à PricewaterhouseCoopers). Mais tarde, entrou nos negócios, na Urbana 2000, empresa de recolha de resíduos, em Luanda. Em abril de 2001, aparece na UNITEL, empresa de telecomunicações. Um telegrama confidencial da embaixada americana em Luanda e captado pelo Wikileaks dá conta de um empurrão do pai para se aventurar nas telecomunicações.

Conhecida pelo seu perfil sofisticado e discreto (veste-se com simplicidade e não costuma aparecer em fotografias), não deixou de dominar parte do negócio dos diamantes 
– que não usa no dia a dia… – através da Trans Africa Investment Services (TAIS), constituída, em Gibraltar, em 1997, e logo autorizada, pelo Governo, a comercializar as pedrinhas, em parceria com o Group Goldeberg e Leviev Wrellox, mais tarde todos associados na Ascorp. O facto de ser mulher e de ser civil faz dela um caso raro, no panorama empresarial angolano, geralmente dominado por generais do MPLA, no ativo ou na reserva.

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A imprensa internacional e o incansável ativista angolano Rafael Marques definem, por vezes, o império de Isabel dos Santos como nascido à sombra de corrupção e nepotismo. De uma certa forma, é inevitável. Porque haveria de ser diferente do padrão da África subsariana – e tantas vezes entre nós, também?

Rafael Marques, autor do livro Diamantes de Sangue – Corrupção e Tortura em Angola, conhecido pelas suas posições críticas face ao regime, apontou sempre os casos da TAIS e da UNITEL como exemplos de nepotismo. No centro de quase todas as operações está, geralmente, a Sonangol, dominada pelo centro de Poder, em Luanda, e pela própria “Princesa”. 
E os seus interesses em Portugal têm tal importância que teve de ser o próprio primeiro-ministro, António Costa, a intervir para desbloquear a negociação entre Isabel dos Santos e a CaixaBank, para a venda do BPI…

Atenta, prudente, informada, Isabel dos Santos, nascida no Azerbaijão (então uma república da União Soviética), nunca teve uma holding que funcionasse como chapéu, no que se distingue de outros grandes empórios. Prefere criar sociedades específicas para cada área de investimento: a Santoro para a banca, a Kento para as comunicações, a Esperanza para a energia. E procura sediá-las em territórios fiscalmente amigos, como a Holanda, evitando os offshores.

No condomínio de luxo, habitado por CEOs de grandes firmas, onde mora, à saída de Luanda, equipado com ginásio, Isabel terá duas casas. Cultivando uma certa clandestinidade romântica – também motivada por razões de segurança –, varia as suas pernoitas e estadas. Em Lisboa, vacila entre o Ritz e o seu apartamento, no condomínio vizinho do El Corte Inglés.

Negoceia com dureza e frieza, é arguta e inteligente. Fala pausadamente e sabe ouvir. Mas, depois… Roma locuta causa finita.O seu casamento com um dos homens mais ricos do Congo, um ano mais velho, que conheceu quando vivia em Londres (e onde a prole de JES se acolhe, ao longo dos anos, para prosseguir os estudos, sob a vigilância da russa Tatiana, mãe de Isabel) foi de estadão. Com centenas de convidados, alguns chegados de Portugal. No evento social, estiveram os presidentes da Namíbia, Sam Nujoma, e da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, o famoso compatriota do marido de Isabel, que se banqueteou num serviço da Vista Alegre. Tal como aconteceria, mais tarde, com a meia-irmã Tchizé, foi protagonista de um casamento de Estado, à boa maneira das mais antigas monarquias.

Ínclita geração de “banqueiros”

O destino tem destas coisas. Após os acontecimentos de 4 de fevereiro de 1961, em Luanda, que marcam o início das hostilidades contra o poder colonial português, José Eduardo dos Santos, que já aderira ao MPLA, abandona Angola, e passa a coordenar a atividade da Juventude do MPLA no exílio. Em 1962, integra o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), braço armado do MPLA, sem que se lhe conheçam especiais feitos militares. A sua pulsão vai para a política: em 1963 foi o primeiro representante do MPLA em Brazzaville, capital da República do Congo. Em novembro do mesmo ano, ganha uma bolsa de estudo dos soviéticos para o Instituto de Petróleo e Gás de Baku, na antiga URSS. Licencia-se em Engenharia de Petróleos em junho de 1969 e casa com a russa Tatiana Kukanova. Estava a caminho a primogénita e aquela que viria a corporizar o papel de ponta de lança dos Van Dunem nos negócios, tornando-se um pilar do poder da família em Angola e em África. (Ainda na URSS, acabou por frequentar um curso militar de Telecomunicações, o que o permitiu tornar-se, no regresso a Angola, em 1970, subcomandante dos Serviços de Telecomunicações na 2ª Região Político-Militar do MPLA, em Cabinda.)

Isabel dos Santos, a magnata tranquila, com faro para o negócio, que combina uma dose sábia de talento empresarial com a pitada certa do favor familiar e político, nunca conheceu o seu avô calceteiro. Tal como o pai, também ela obliterou o apelido do meio, por se saber que provém, aparentemente, de um rico mercador flamengo, talvez esclavagista, que se terá estabelecido em Angola no século XVII. Mas nem sempre foi assim: para se afirmar, também ele, José Eduardo, teve de puxar pelos galões da pertença àquela que, na obra de Pepetela, ficou conhecida como A Gloriosa Família. Em 1975, regressado da guerrilha a Luanda, sendo acolhido por Aristides Pereira dos Santos Van Dunem – antigo resistente ao colonialismo e seu primo –, José Eduardo dos Santos seria reconhecido e introduzido no clã. Mas só quando o pai Avelino Eduardo dos Santos morreu é que, por causa da papelada burocrática, se soube que o avô, Avelino Francisco Pereira dos Santos Van Dunem, também era isso mesmo, um Van Dunem – embora não tivesse registado o filho, pai de José Eduardo, com aquele nome. E José Eduardo dos Santos, uma das poucas crianças negras que, na década de 50, frequentara o Liceu Salvador Correia, teve nessa revelação mais um crédito a favor do seu pedigree.

José Eduardo ainda não sabia que era um Van Dunem quando cresceu no bairro que o viu nascer, a 28 de agosto de 1942: o Sambizanga, um musseque mais ou menos miserável (embora este local de nascimento também seja controverso). Filho de Eduardo Avelino dos Santos (espoliado do milagroso apelido…) e de Jacinta José Paulino, raramente convive com os meninos brancos da Baixa luandense.

O apelido transporta uma história que vem dos tempos coloniais. Sob o domínio português, os Van Dunem consideravam-se à parte, um produto de mistura de culturas. Nos primeiros tempos da independência, autodesignavam-se como “assimilados”, ou seja, aceites e integrados na nova sociedade, mas vindos de fora. Com JES, passam a dominadores, no MPLA. E este facto está envolto nas névoas do mistério: sem grandes pergaminhos na luta armada, ainda por cima suspeito de excessivo alinhamento pela União Soviética, durante a purga que, ainda sob a presidência de Agostinho Neto, se sucedeu ao caso Nito Alves, não só escapou a essa perseguição como surgiu incontornável, na sucessão ao líder histórico, falecido em Moscovo em 1979.

Ao longo dos últimos 100 anos, os vários ramos dos Van Dunem já deram altos funcionários públicos, artistas, indigentes, operários, empresários, membros do submundo, um Presidente da República (em Angola) e ministros (uma ministra em Portugal) e, como disse, em 1958, José Manuel dos Santos Torres, um parente afastado, “até prostitutas”. Essa diversidade de interesses e atividades tem prolongamento na prole de JES, mas um ponto comum parece favorecer os filhos – e o verbo “favorecer” não aparece aqui por acaso: todos são “banqueiros”.

O último a entrar no clube foi Eduane Danilo dos Santos, de 25 anos, o mais velho do último casamento, com a ex-modelo e hospedeira da TAAG (em cujos aviões JES a conheceu), Ana Paula Cristóvão Lemos, de 53 anos. De acordo com informações não desmentidas, o “Banco Postal de Angola” formou-se com capital social de entidades empresariais angolanas públicas e privadas e foi constituído a 1 de setembro de 2016, dias antes do aniversário de Danilo. A parte pública, pelo Estado angolano, é garantida através do Ministério da Tecnologia, Banco BCI e Correios de Angola. Pelos privados estão Danilo dos Santos (e os irmãos mais novos, Joseana, Eduardo e Houston), associados ao companheiro Ides Jackson Kussumua (filho do governador do Huambo, João Baptista Kussumua). Os dois são representados através as sociedades EGM Capital, e C8 Capital, formadas na mesma data, em julho de 2015. Ambas as sociedades são formalmente geridas por um homem de confiança do regime, o advogado são-tomense, N’Gunu Olívio Noronha Tiny. Claro que Noronha Tiny foi nomeado presidente do Conselho de Administração do Banco… Dos nove filhos de JES, os quatro com a atual primeira-dama eram os únicos que ainda não tinham banco. Fechou-se, assim, o círculo…

Com efeito, Isabel dos Santos (banco BFA, BIC); Zenú dos Santos (Banco Kwanza e Standard Bank), Tchizé dos Santos e José Paulino dos Santos 
“Coréon Dú” (Anteriormente no Banco BNI e agora donos do Banco Prestigio) já estavam habilitados a usar a cartola habitualmente associada aos banqueiros do nosso imaginário…

Um relógio de 500 mil euros

Da mais velha, já falámos. Isabel é a mais notável da prole. Poliglota, sofisticada, culta, com talento para o negócio e um suave perpassar sobre os podres do regime – como se não lhe dissessem respeito – a “Princesa” é a estrela da companhia. Da segunda mulher, Filomena de Sousa, tem o filho José Filomeno (Zenú), que como que recebeu do pai, de “presente” (na curiosa expressão do site noticioso angolano Club-K), o Banco Kwanza Invest, uma instituição virada para os investimentos e consultoria de negócios. De Maria Luísa Perdigão Abrantes, teve a filha Welwitschia José (Tchizé), igualmente empresária e segunda celebridade em Portugal (depois de Isabel), também por via dos investimentos, mas nem sempre pelas melhores razões: juntamente com o marido, o engenheiro agrónomo português Hugo Pêgo, chegou a ser indiciada, pelo Ministério Público português, por suspeita de branqueamento de capitais. Em dezembro de 2003, o casamento de Tchizé foi um dos maiores acontecimentos sociais de sempre, em África, com a presença de inúmeros notáveis internacionais (entre eles, alguns portugueses, como José Manuel Durão Barroso e a mulher, ou o costureiro Augustus, padrinho da noiva e “modista” do vestido nupcial).

O outro filho que teve com Maria Luísa tem o nome do pai – José Eduardo (Paulino) – e também é bastante conhecido entre nós. Trata-se de um dos rebentos em que ressaltou a veia artística – o outro é Joseana – sendo conhecido, nos meios do showbiz, pelo pseudónimo de “Coréon Dú”, sendo autor de trabalhos musicais razoáveis como os álbuns The Coréon Experiment e Binario. Foi também produtor da telenovela Windeck, nomeada para um Emmy Internacional e que os portugueses apreciadores do género conhecem bem por ter passado na RTP.

De Maria Eduarda Gourgel teve José Avelino, que também puxou para os negócios. Numa operação polémica, passou a deter o controlo do lucrativo ramo da produção e comercialização de polímeros termoplásticos, vulgo embalagens de plástico, da Angoplaste.

A atual mulher, com quem JES casou em maio de 1991, é uma ex-modelo e hospedeira da TAAG. Ana Paula Cristóvão Lemos foi considerada uma das maiores beldades de Angola e, sem dispensar o luxo e as compras nas grandes capitais europeias, tem cumprido, com discrição e eficácia, o seu papel de primeira-dama, concedendo, até, em exercer alguma atividade no plano social, para melhor compor o “boneco”. De Ana Paula teve JES quatro filhos, dois dos quais, Eduardo Breno (19 anos) e Houston Lulendo (15) ainda são adolescentes. Joseana, 23 anos, tem feito algum furor à frente da girlsband Black Fofas, mas foi o já nosso conhecido Eduane Danilo quem mais deu nas vistas, recentemente – e que maiores problemas parece ter causado à imagem da família… – ao irromper, em Cannes, no último mês de maio, para licitar um relógio de 500 mil euros num leilão de beneficência. Até o ator Will Smith, que apresentava a cerimónia, se sentiu chocado, comentando: “Tu és demasiado jovem para teres tanto dinheiro…”

Talvez o apresentador desconhecesse os relatos de imprensa das últimas quatro décadas, que denunciam o regime angolano em geral e a família de Danilo em particular, pela suposta apropriação dos recursos de Angola para benefício próprio. E talvez não tenha lido os relatos que retratam uma população que ainda vive miseravelmente: o país tem a duvidosa honra de liderar o ranking de nações em que a população tem menos acesso a água potável (71,%, segundo a ONG WaterAid); a mortalidade infantil, 80 por mil crianças nascidas, coloca Angola no 8.º posto mundial e no 7.º em África (dados do site Index Mundi). Mesmo sem guerra, a esperança média de vida é, segundo a mesma fonte, de 55 anos, o que transporta o País para o 203.º posto, numa lista de 221. A taxa de analfabetismo é de 30 por cento. Will Smith pode não saber que JES tem sido associado, por alguma imprensa e por dissidentes do regime, ao desvio de fundos do petróleo, ou que a sua família deterá um volume patrimonial que inclui residências em cidades europeias, participações em empresas, companhias registadas em paraísos fiscais e contas bancárias no estrangeiro. Ou que, enquanto os homens do regime foram acumulando riqueza, a oposição tem sido sistematicamente silenciada, como bem sabe Luaty Beirão e o seu grupo de ativistas pela democracia e transparência. Ou que, em Angola, cerca de 70% da população vive com menos de 2 dólares por dia.

O evento em que o jovem deu um balúrdio pelo relógio era patrocinado pela Fundação americana AmFAR, que se dedica ao combate à sida, mas não foi propriamente pelo espírito filantrópico que Eduane Danilo ficou inesperadamente célebre na imprensa internacional… Já na sua terra, houve quem (embora timidamente) lhe apontasse o dedo por não se ter lembrado de fazer a “doação” a favor, por exemplo, das vítimas das minas da guerra civil, que tantos compatriotas estropiaram…

Mas o clã não se limita aos filhos. 
A “família real” está presente a todos os níveis da vida angolana. Um cunhado, Carlos Lopes, marido da irmã da primeira-dama, foi ministro das Finanças. O ministro do Ensino Superior, Adão do Nascimento, é sobrinho do Presidente. Outra sobrinha, Avelina dos Santos, é a sua secretária para Assuntos Particulares. Outro sobrinho, Catarino dos Santos, é o secretário-geral da casa militar. Outros familiares ou próximos estão nas administrações de diversas empresas públicas ou em cargos de topo no Estado. Pelo menos, quatro primos de Ana Paula dos Santos estão ou estiveram nesses cargos. Um compadre de Isabel, uma sobrinha de uma cunhada e um irmão do próprio Presidente incluem-se neste rol.

De volta a Sambizanga

Com a proclamação da Independência de Angola, a 11 de novembro de 1975, JES foi nomeado ministro das Relações Exteriores. Os seus contactos internacionais junto dos países vizinhos e a boa relação com a URSS, bem como a sua preparação académica, tornaram-no notado num partido sequioso de quadros. Como chefe da diplomacia angolana, obteve, nos tempos que se seguiram à independência, o reconhecimento internacional do Governo do MPLA. No primeiro Congresso do partido, em dezembro de 1977 (ano em que a purga interna, após a execução de Nito Alves, terá feito perto de 40 mil mortos), Eduardo dos Santos foi reeleito para o Comité Central e o Politburo e aproveitou para cimentar a sua posição. Foi depois vice-primeiro-ministro e ministro do Planeamento e Desenvolvimento Económico, até suceder ao falecido Agostinho Neto, em 1979.

De 1986 a 1992, já como Presidente, José Eduardo dos Santos teve um papel crucial na normalização da situação militar, numa das frentes de guerra, sendo um dos principais players na solução que conduziu ao fim das hostilidades entre Angola e a África do Sul. Mas a guerra civil, que durou 27 anos e causou 300 mil mortos, ainda estava para durar.

José Eduardo dos Santos foi nomeado o “Homem do Ano 2014” pela revista Africa World, pelo seu contributo para o “excelente processo de recuperação económica e democrática de Angola desde o fim da guerra”. Um mérito que, dado o contexto, os padrões africanos e a evolução do seu país e do seu regime, ninguém, apesar de tudo, pode negar-lhe. E quando os seus descendentes Van Dunem fizerem do musseque natal da Sambizanga um condomínio com artérias calcetadas, talvez possa ter o seu nome na rua onde nasceu.

*com Cesaltina Pinto

Artigo publicado na VISÃO 1273 de 27 de julho

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