A notícia, assim como ela acontece
Angola's supporters cheer prior a 2013 Africa Cup of Nations football match against Cape Verde at Nelson Mandela Bay Stadium in Port Elizabeth on January 27, 2013. AFP PHOTO / STEPHANE DE SAKUTIN

Amadores, somos nós

Quênia, África do Sul, Etiópia, Venezuela, Bahrein, Colômbia, Costa do Marfim, Marrocos, Uganda, Cazaquistão, Tanzânia. Alguns destes países aqui tão perto, outros nem por isso. Mas se olharmos para o mundial de atletismo que está a decorrer em Londres, todos eles estão muito longe. Demais até. Estes países já venceram medalhas. Figuram no quadro de medalhas, com muita honra. Alguns deles, como o Quênia e a Etiópia figuram entre os maiores “fornecedores” de atletas de elite do atletismo mundial. São vencedores natos.

Vasculhei o site da organização dos 16os mundiais de atletismo organizados pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) à procura da nossa rica bandeira ou de um atleta nosso. Sim, encontrei, para meu orgulho. Angola também está presente. Mas a alegria rapidamente passou a surpresa. Angola participou ou competiu na prova dos 100 metros femininos? Surpresa, porque acompanhei as eliminatórias, as meias finais e a final e não vi a nossa atleta. Rapidamente, confirmei os resultados e de facto não consta o nome da nossa atleta, Adriana Alves, nascida aos 13 de Setembro de 1995. Ou seja, consta da lista de participantes, mas não nas listas dos resultados.

Mas estes campeonatos são a prova do que tenho defendido. Por que razão o nosso desporto arrasta-se por um amadorismo crônico, sem expoentes mundiais, defendido à unhas e dentes pelos títulos africanos de Basquetebol e Andebol, que em 20 anos continuam no mesmo patamar, servindo apenas para competições continentais, enquanto o resto das modalidades perdem-se, aos poucos ou rapidamente, sem que se consiga inverter este rumo?

Se olharmos para alguns países e modalidades podemos perceber o que falo:
EUA, futebol: Quando os EUA organizaram o mundial de 1994 em futebol, a modalidade renascia do que fora nos anos 60/70. Nessa época jogadores como Pelé, Cruyff ou Beckenbauer por lá andaram. Fruto de um investimento sério, controlo de despesas, criação de infraestruturas e algumas contratações de estrelas, hoje o futebol já está entre às 4 mais populares e a selecção evoluiu a olhos vistos.

Espanha, basquetebol: Quem não se lembra da vitória de Angola sobre a Espanha nos jogos olímpicos de 1992? Estes jogos foram o ponto de partida para o lançamento de várias modalidades em Espanha. O governo investiu, os clubes investiram. O talento estava lá, só precisava de melhores políticas e condições. Desde aí foram campeões mundiais em 2006 e campeões europeus em 2009, 2011 e 2015 e prata nos Jogos olímpicos de 2012.

Nova Zelândia, Rugby: O desporto dos brutamontes, na realidade um desporto de cavalheiros, é aposta nacional. Fruto de uma rigorosa gestão, onde quem joga fora não representa a selecção, limites orçamentais e salariais, retenção e desenvolvimento de talentos, desporto escolar, etc., fazem da seleção a melhor do mundo.

Quando olho para as nossas seleções, os nossos clubes, os nossos dirigentes, as nossas políticas percebo que os nossos atletas e o seu talento são vítimas de um amadorismo e cegueira desportivo que mina, geração após geração, o alcance de resultados positivos e de categoria Internacional.
Os clubes nascem e morrem do dia para a noite, nao criam infraestruturas (na sua maioria), não é obrigatório a apresentação de garantias bancárias e a meio da época “ameaçam” desistir, o desporto é politizado, os dirigentes entram para o desporto como meio de ascensão política ou financeira, não há obrigação de criarem escolas de formação, Ou seja, o desporto é feito sem objectivos, sem horizontes definidos, navegando, disputando, competindo na mesma falta de organização e evolução, queimando qualidade e talento. O desporto é o espelho do amadorismo (que já referi 2 ou 3 vezes neste texto).

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