Bastião. O partido vencedor perdeu dois importantes bastiões. Luanda e Cabinda. Luanda perdeu em votos absolutos, mas conseguiu mais deputados. Em Cabinda perdeu em votos absolutos e em deputados. Em caso de realização de eleições autárquicas estas duas províncias serão importantes bastiões para a oposição.

CNE é o órgão responsável pela realização do processo eleitoral e divulgação dos resultados provisórios e definitivos. Algumas falhas foram apontadas pela oposição, principalmente no credenciamento dos delegados de lista e na selecção das assembleias por eleitor. Após sentir-se pressionada pela divulgação dos resultados da contagem unilateral e paralela dos partidos, avançou para a divulgação dos resultados provisórios, aumentando o tom da contestação em relação a transparência de tais resultados.

Decepção. Do ponto de vista neutro, a palavra decepção enquadra-se perfeitamente aos resultados eleitorais provisórios da CASA-CE. Apregoando uma “mudança” após as eleições, a coligação eleitoral não superou sequer os 10% de votos, conseguindo menos de 1/3 dos deputados da UNITA. Estes resultados podem ter consequências no futuro da coligação e na confiança depositada ao líder da mesma.

Especulação. Antes mesmo da divulgação dos resultados provisórios pela CNE, os principais partidos especularam resultados favoráveis colocando enorme pressão sobre a CNE e a contestação começou antes mesmo da divulgação dos resultados provisórios.

Fim. Após a terceira derrota no mesmo número de eleições, aproxima-se o fim da carreira politica do presidente da UNITA, Isaías Samakuva, pelo menos como presidente do maior partido da oposição. Tal facto já foi anunciado pelo mesmo, esperando-se a efectivação e a definição do seu futuro politico.

Guerra. A palavra “maldita” volta e meia regressa aos discursos políticos. Independentemente dos resultados, vencidos e vencedores, devem elevar o nível de maturidade politica e saber que a guerra nunca será solução. Não foi antes, não será agora. O país tem órgãos legais para decidir qualquer discordância. Quem assim o achar, sabe como proceder. Também não deveria ser utilizada para promover a instabilidade e insegurança.

Históricos foram os resultados obtidos pela UNITA nestas eleições, segundo a imprensa internacional. De 8,3% dos votos em 2008, com base nos resultados provisórios, alcançou em 2017, cerca de 26,7% da preferência dos eleitores. Ainda assim, não conseguiu o tão esperado equilíbrio no parlamento.

Incoerência marcou os discursos da oposição, durante as fases de pré-campanha, campanha e após a divulgação dos resultados provisórios eleitorais. As acusações de fraude estiveram presentes no inicio da pré-campanha, desapareceram praticamente na fase da campanha e surgem novamente na fase de divulgação dos resultados. A UNITA divulgou resultados provisórios fruto da sua contagem paralela em que declararam uma derrota por números reduzidos, mas vários dos seus simpatizantes, principalmente nas redes sociais declaram vitória sobre o MPLA. A CASA-CE fez praticamente todo o processo de pré-campanha e campanha com o discurso da “mudança”, mas nos últimos dias declarou-se disponível para uma coligação, mesmo com o MPLA, dependendo dos termos de eventual coligação.

José Eduardo dos Santos apareceu no último grande comício do MPLA. O ainda presidente da república não esteve presente na totalidade da pré-campanha, permitindo que os simpatizantes e militantes do MPLA assimilassem convenientemente a imagem e o discurso do candidato escolhido pelo partido. A sua ausência permitiu evitar “confusões” aos eleitores “mais desatentos”. Independente dos prós e contras, teve o mérito de não se candidatar a mais um mandato, deixando o legado de ser a imagem da estabilidade politica e do inicio da reconstrução nacional. Se os seus sucessores alcançarem a estabilidade e crescimento económico, estabilidade cambial e aumento do nível de vida geral da população, estes feitos serão ainda mais valorizados pelas gerações vindouras.
Ivan Perdigão


Lourenço é o apelido da nova família presidencial.

 

João Lourenço será o novo presidente da república tendo ao seu lado, a futura primeira dama e também figura politica, Ana Dias Lourenço. Demonstrou um fôlego tremendo durante a pré-campanha e campanha eleitoral, realizando mais de 25 comícios e reunindo com praticamente todos os extractos da sociedade civil. Tem como missão, conforme o mesmo prometeu, o combate à corrupção e a mitigação de assimetrias. A ecónomia e a estabilidade cambial, a qualidade dos serviços públicos são outras gigantescas missões que aguardam pelo novo presidente da República.

Maioria, sim foi conseguida pelo partido vencedor, o MPLA. Contudo, no que diz respeito ao número de votos, de acordo com os resultados provisórios divulgados pela CNE, o partido dos camaradas, com os 4,1 milhões de votos a seu favor, alcançou maioria simples, referente a mais de 50% dos votos válidos (3,35 M). Mas o mais importante será o número de deputados, o qual explicarei no ponto “Qualificada”.

Novo governo, nova era. É a esperança de todos os angolanos. Apesar de ter apostado na continuidade, a maioria da população anseia por mudanças e na melhoria da qualidade de vida. As promessas feitas pelo candidato vencedor serão avaliadas ao fim de cinco anos. Novamente, a maioria da população considerou que a oposição não é uma alternativa viável.

Observadores. Apesar da relutância da UE em enviar observadores para as eleições, estas foram realizadas e elogiadas pelos observadores presentes, da CPLP, UA, SADC além dos observadores nacionais. Os observadores elogiaram a facilidade de se proceder ao exercício do direito de voto, consideraram a eleições transparentes e recomendaram maior equidade na cobertura por média públicos.

Parlamento. Tal como está definido por lei, o parlamento será composto por 220 deputados. De acordo com os resultados provisórios divulgados pela CNE, O MPLA obtém 150 deputados (80 pelo circulo nacional e 70 pelos círculos provinciais) e a oposição consegue 70 deputados (50 pelo circulo nacional e 20 pelos círculos provinciais).

Qualificada. Apesar de obter uma maioria simples em termos do número de votos, o MPLA alcança a tão pretendida maioria qualificada parlamentar. Para as votações, o MPLA terá sempre maioria qualificada, pois a sua bancada reúne mais de 2/3 dos votos possíveis, ou seja, mais que 147 votos/deputados. O equilíbrio não se efectivou, conforme desejo da oposição e o MPLA vai governar sozinho, tal como pediu o candidato João Lourenço no comício de Malanje em 9 de Agosto.

Reconhecimento. Tal como nas três eleições anteriores a UNITA declara não reconhecer os resultados eleitorais e a CASA-CE anuncia mesmo a impugnação dos mesmos, recorrendo aos tribunais. Adivinha-se algum adiamento da tomada de posse do novo governo, dependendo da rapidez dos tribunais em julgar as reclamações apresentadas.

Sul. As províncias do sul do país continuam a ser uma zona quase exclusiva do vencedor das eleições. Cunene com 89%, 5-0, Huíla com 76%, 5-0, Namibe com 76%, 4-1 e Cuando Cubango com 73%, 4-1 “olharam” pelo MPLA nestas eleições, sendo a zona que mais deputados “deu” ao MPLA e menos à oposição. Chegou a altura do partido também olhar por estas províncias.

Tendência acentuadamente negativa têm sido os resultados obtidos pelo MPLA desde o alcance da paz e inicio do processo eleitoral regular. De 81,6% de votos e 191 deputados em 2008, passando para 71% na preferência dos eleitores e 175 deputados em 2012, chegamos a 61,05% e 150 deputados nestas eleições. Uma redução significativa de mais de 20 pontos percentuais e 41 deputados. Ao contrário dos partidos da oposição, avaliados pela campanha e/ou desempenho parlamentar, o partido vencedor é avaliado pela sua governação.

UNITA. Depois de quatro derrotas eleitorais, em que ficou muito aquém do partido vencedor, principalmente em termos do número de deputados eleitos, o partido UNITA deve rever a sua abordagem eleitoral. Quem sabe chegou a hora de uma reformulação geral. Liderança, imagem, bandeira, discurso. Se pretende ser uma alternativa viável, precisa de uma “actualização” total.

Votação. Realizada no dia 23 de Agosto, contou com a participação de pouco mais de 7 milhões de eleitores e decorreu sem incidentes. A população cumpriu o seu direito e escolheu os seus representantes. O acesso às assembleias e mesas foi fácil e o voto foi simples e célere. Como disse a embaixadora dos EUA, Helene La Lime, eleições foram “um dia de orgulho”. O povo cumpriu o seu papel. Os políticos devem cumprir, também, o seu.

Xadrez. Durante cinco anos não se adivinham mudanças no xadrez politico nacional. O povo apostou na continuidade do partido MPLA, apesar da mudança na presidência e vice-presidência e também deu maioria qualificada parlamentar.

Zaire e Cabinda foram as únicas províncias que, nos círculos provinciais, elegeram deputados por 3 partidos. No Zaire, o MPLA conseguiu um 3-1-1 e em Cabinda o resultado foi 2-2-1.

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