Não é habitual publicar a crónica semanal noutro dia que não seja quarta-feira. E mesmo correndo o risco de publicar a crónica já desactualizada, pois o mundo é dinâmico, extremamente dinâmico, espero até quarta-feira pois assim comprometi-me comigo mesmo. Mas hoje não posso ficar indiferente a minha surpresa, e principalmente, a minha indignação. Aonde vamos parar?

Acabo de ler que o nosso país passará a contar com lojas de venda de armas de fogo para defesa pessoal, devidamente tuteladas pelo ministério do Interior e o Segurança Nacional. Ou seja, passaremos a ser os Estados Unidos de Angola, no concerne a posse e utilização de armas de fogo. Cruzes, como digo sempre, aonde estamos com a cabeça quando tomamos estas decisões? Aonde queremos parar?

Somos um país, infelizmente, com graves carências de organização e controlo. Temos um histórico bem conhecido de falsificação de tudo que é documento. Cartas de condução, livretes, verbetes, atestados médicos, certificados de habilitações, títulos de registo de propriedade, declarações de idoneidade, bilhetes de identidade. Acreditamos mesmo que não vão falsificar os documentos que “legalizam” o porte e uso de armas de fogo para defesa pessoal? Estamos a espera de milagres?

O governo lançou a campanha de desarmamento há alguns anos, resultando na apreensão de milhares de armas de fogo. Mesmo assim, o número de mortes e assaltos com armas de fogo continua a aumentar. Todos os dias constatamos mortes, assaltos e agressões com armas de fogo, mesmo sendo uma clara violação da lei. Agora, vamos dizer que as pessoas poderão utilizar as armas em sua defesa. Mas, estamos preparados para utilizar as armas conscientemente? Estamos civicamente educados para tal? NÃO. A resposta é um redondo, inegável, indiscutível NÃO.

Será que temos o controlo total e detalhado das armas de fogo utilizadas pela policia nacional, pelo exercito, pelas empresas privadas de segurança e por todas as entidades devidamente autorizadas? Não me parece. Temos um registo electrónico do tipo de arma, número de série, local de guarda, utilizadores, etc? Hmmm. Meus senhores, não brinquem com as nossas vidas, não permitam que nos matem mais rápido. Como referi em outra crónica, NÃO NOS DEIXEM MORRER!

A nação mais liberal no que se refere ao uso e porte de armas de fogo, deve ser, sem dúvida, os Estados Unidos da América, onde os lóbis dos fabricantes de armas de fogo, consegue ser mais forte até que o próprio governo, mantendo até hoje a liberdade para compra e posse, movimentando milhões e milhões de dólares, mas com uma contrapartida muito elevada. VIDAS HUMANAS. Apesar do controlo acirrado da posse todos os dias são cometidos homicídios, com recurso a estas armas. Só no ano de 2016, a capital dos homicídios, Chicago, com 3 milhões de habitantes, somou 762 mortes e Los Angeles, com 4 milhões de habitantes, somou 294 assassinatos. Cidades, com menos habitantes que a província de Luanda e com melhores condições de habitabilidade, forças de segurança melhores preparadas, ou seja, cidades do primeiro mundo.

Esta decisão poderá conduzir o nosso país a índices só comparados às cidades mais violentas do mundo: Caracas (Venezuela) com 120 mortes/100 mil Hab. em 2015, San Pedro Sula (Honduras) com 111/100mil hab., San Salvador (El Salvador) com 109/100mil hab., Acapulco (México) com 105/100mil hab, e por aí fora. Se analisarmos veremos que todas estas cidades têm vários denominadores comuns: pertencem a países do terceiro mundo, com graves problemas de organização, índice de desenvolvimento humano reduzido, graves e prolongados problemas sociais. Um pouco como os Estados Unidos de Angola.

A utilização consciente de armas de fogo depende em grande medida do nível cívico e educacional de uma população. Passaremos a utilizar as ditas armas, não porque precisamos, mas sim porque estão disponíveis. Nas brigas de transito, nas discussões entre vizinhos, nas bebedeiras, nos relacionamentos. Porque o vizinho fez barulho, porque alguém estacionou mal, porque alguém pisou-me na discoteca e não pediu desculpa, porque alguém meteu-se com a minha mulher, porque ele tinha mais força que eu. As armas passarão a ser um recurso de resolução de situações. O primeiro recurso. Porque sim e porque sim.

Esta medida não é um tiro no pé, como se costuma dizer. É um tiro na própria cabeça!!!

Contra a livre posse e utilização de armas de fogo.

Que os EUA e o Brasil sirvam de exemplo. Não basta ligar a TV só para ver novela!!

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