Eutanásia de um capitalismo de muletas

O que estes três nomes podem ter em comum ou como podem estar ligados? A partida, nada. Ou quase nada. Mas se analisarmos o passado da nossa economia e com ele prevermos o futuro, rapidamente chegaremos a conclusão que um dia, não tão longe, encontrar-se-ão.
Recorrendo ao site Wikipédia, o maior ajudante de trabalhos de casa de qualquer estudante, encontramos as seguintes definições:

“Eutanásia (do grego ευθανασία – ευ “bom”, θάνατος “morte”) é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a eutanásia pode ser dividida em dois grupos: a “eutanásia ativa” e a “eutanásia passiva”. Embora existam duas “classificações” possíveis, a eutanásia em si consiste no ato de facultar a morte sem sofrimento a um indivíduo cujo estado de doença é crônico e, portanto, incurável, normalmente associado a um imenso sofrimento físico e psíquico.”

“O capitalismo, também conhecido como economia de livre mercado ou economia de livre empreendedorismo, é um sistema econômico onde os meios de produção, distribuição, decisões sobre oferta, demanda, preço e investimentos são em grande parte ou totalmente de propriedade privada, com fins lucrativos. Os lucros são distribuídos para os proprietários que investem em empresas. Predomina o trabalho assalariado. É dominante no mundo ocidental desde o final do feudalismo.”

“As muletas são objetos utilizados como apoio para o corpo humano projetado com o propósito de auxiliar um deficiente a caminhar quando uma das extremidades inferiores requer suporte adicional durante o deslocamento, geralmente quando o ser humano sofre algum tipo de incapacidade para caminhar com uma delas.”

Agora que “percebemos” um pouco melhor estes conceitos talvez consigamos também perceber porque razão confluem para o mesmo final, que em princípio não será um final feliz.
É um dado adquirido que a nossa economia é uma economia de mercado disfarçada. O Estado é o principal criador de riqueza, através dos infinitos concursos públicos que alimentam centenas ou milhares de empresas, algumas com o mesmo ciclo de vida ou ainda inferior que os próprios concursos. São criadas com fins específicos, direccionadas, sobrevivendo enquanto a “torneira” pública jorra os kwanzas. Fecha-se a torneira, fecha-se a empresa. Enquanto isso, não houve a preocupação de se diversificar a oferta de produtos e serviços. Ou seja, o dinheiro “ganho” não serviu para novos investimentos em sectores ou indústrias com futuro assegurado, como a agricultura ou a indústria transformadora. O dinheiro “ganho” foi investido em “luxos” sem retorno, pois a espectativa era a de que a torneira nunca iria fechar. A própria economia de mercado capitalista nunca foi uma realidade. Encostou-se ao estado, tal sua muleta, que “investia” ou “financiava” ou “cedia” milhões e milhões e muitos milhões de kwanzas em vários sectores e projectos, suportando e mantendo viva esta “economia de livre concorrência” que de facto nunca existiu.

Até que um dia chegou a famosa crise. O estado deixou de ter a mesma capacidade financeira e disponibilidade para manter a torneira aberta. Passamos à contenção, ao direcionamento específico de investimentos, ao “aperta o cinto”. Aqueles que sobreviviam da torneira foram os que mais sentiram. Várias obras canceladas, milhares de despedimentos, muito menos dinheiro em circulação, maior desvalorização da nossa moeda, mais pobreza, maior carga fiscal. A economia de mercado suportada pela muleta fica em cheque. Novos caminhos são traçados, novos investimentos em outras áreas são idealizados.

Mas, o que não estamos a acautelar ainda é a saída definitiva do estado como principal impulsionador do capitalismo e da propriedade privada dos meios de produção. Continuamos, ou continuaremos, a ter o estado como o cliente número um, e não como simples regulador, deixando que a riqueza e o mercado se dinamizem por si. Até que novamente o estado perca esta capacidade, minando o mercado e a economia.

Enquanto andamos neste vai e vem, o futuro cria as condições para que o estado um dia, não tão longínquo, não possa estender a sua muleta, e de mãos atadas, assista a morte, tal eutanásia, da economia de mercado suportada nas suas próprias muletas.

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