Controlo dos diamantes, mais uma peça que periga a “trégua frágil” entre JES e JL

Prossegue a saga: obrigado a passar por todos os “detectores de metais”, João Lourenço está a ser meticulosamente despido de poderes e afastado de tudo quanto represente poder efectivo – dinheiro sobretudo. O imbróglio perigoso é saber o que acontecerá caso vença realmente as eleições. Ele aguentaria ser tratado como um Chefe de Estado fictício e faz-de-conta ou daria um murro na mesa com repercussões de todo imprevisíveis e contraproducentes para o país?

Carlos Sumbula, o compenetrado “CEO” da Endiama – para usar uma terminologia britânica adequadamente intrínseca aos processos de controlo e apropriação económica –, que geriu o papel e lugar desempenhado por Angola no “Kimberley Process”, é um homem sortudo ou simplesmente competente? Sim ou não, talvez já não seja relevante aferir isso. Porque certo mesmo é que ao ter sido reconduzido ao cargo de PCA da Endiama, o nome de Sumbula acabou por ir parar ao epicentro de um furacão que por estes dias vem agitando, em surdina, o universo dos conselhos de administração das grandes empresas do Estado angolano – em cujo rol a diamantífera é considerada uma “empresa estratégica”. Muito abaixo da Sonangol em termos de rentabilidade, mas tendo também inegável expressão como fonte de recursos para o Estado.

Depois de um despacho da Casa Civil do Presidente da República ter colocado na condição de demissionários todos os presidentes dos conselhos de administração, que foram liminarmente intimados a elaborar os dossiers de passagem de pastas – de modo que se encontram agora na “berlinda” aguardando por um novo Governo a sair das eleições de 23 de Agosto –, estranhamente, Carlos Sumbula viu, antecipadamente, revalidado o respectivo mandato.

Mas o facto, só se afigurará estranho para quem estiver distraído. Porque Carlos Sumbula foi somente mais um “naipe” do jogo estratégico que tem vindo a ser inexoravelmente desbobinado por José Eduardo dos Santos com vista a acautelar os seus interesses depois de deixar de ser o Chefe de Estado. Mais uma tacada no sentido de se ir esvaziando todos os poderes a João Lourenço, antes mesmo que ele possa “aquecer” o lugar que o espera no Palácio da Cidade Alta. Obrigado a passar por todos os detectores de metais, João Lourenço está, de facto, a ser meticulosamente afastado de tudo quanto seja símbolo de poder efectivo – dinheiro sobretudo.

Figura da extrema confiança do Presidente da República, Carlos Sumbula tem sido, nos últimos anos, o seu homem de mão para a gestão e controlo das receitas provenientes da exploração diamantífera. Mas, para o ramalhete ficar completo, a operação de renovação de mandatos, no que a empresas que lidam com  os diamantes diz respeito, não se ficou pela Endiama. Avançou até aos terrenos da SODIAM, uma participada da Endiama que constitui o seu verdadeiro tentáculo para a comercialização de diamantes.

Mais importante e significativo é que, com o controlo da produção e venda de diamantes, pouco ou nada faltará para que se feche o círculo e estejam completamente asseguradas as condições e premissas que permitirão que se perpetue o controlo das estruturas económicas fulcrais do país pela família do Presidente José Eduardo dos Santos e sua entourage. Afinal, o universo da exploração de diamantes encontra-se igualmente na esfera de influência da omnipresente figura de Isabel dos Santos, por meio da sua trading diamantífera Ascorp. Ela mexe os cordelinhos tanto da Endiama quanto da SODIAM, através da influência que exerce sobre Carlos Sumbula e Beatriz Jacinto António Sousa. De resto, ao que se sabe, esta última foi parar ao cargo de PCA da SODIAM por escolha pessoal de Isabel dos Santos. Deste modo, a filha de José Eduardo dos Santos permanece posicionada como uma espécie de “cunha” estratégica no meio de bancos, petrolíferas e diamantíferas, sem falar de cimenteiras, operadoras telefónicas, multimédias, etc.

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Escancara-se, assim, o nó górdio que vai cercando e asfixiando, gradual e progressivamente, o presumível sucessor João Lourenço, que vê o seu percurso pejado de minas a cada passo. Antes mesmo de chegar ao cadeirão, ele está a ver fechar-se sobre si  todas as oportunidades e nichos pelos quais poderia vir a exercer o seu quinhão do poder real, que permanecerá efectivamente noutras mãos. Se já estava mais ou menos claro o aviso de que no petróleo ninguém vai tocar e que está tudo a encaminhar-se para que o próximo Presidente fique impedido de fazer mexidas no topo das principais instituições castrenses, agora toca a vez aos diamantes de levarem o selo da inviolabilidade.

O grande problema é o alto risco associado a este tipo de jogada que já está, tendencial e progressivamente, a mergulhar o país em instabilidade. Ninguém, rigorosamente, será capaz de garantir que João Lourenço aceite permanecer por tempo ilimitado nessa condição de absoluta menoridade. Acuado e encostado à parede, ninguém saberia calcular os estragos e efeitos colaterais negativos que poderiam advir para o país como um todo diante de uma súbita explosão que possa eventualmente ocorrer quando João Lourenço se vir realmente no cargo de Presidente da República e recusar-se a aceitar o papel humilhante de Chefe de Estado fictício, um faz-de-conta sem poder para alterar nada.

É que muita gente pode estar agora esquecida, mas a personalidade de João Lourenço nem sempre foi muito polida e dada a ponderações diplomáticas. Isto mesmo foi visto nos episódios que o próprio João Lourenço protagonizou em finais de 2003 e que vieram a determinar uma abrupta colisão e posterior ruptura com José Eduardo dos Santos. Convém, por isso,  refrescarmos todos um pouco a memória.

Antes desses acontecimentos que João Lourenço jamais tirará da retina, pelas repercussões que tiveram na sua carreira política, ele não passava de um “yes man” (isso mesmo!) do líder do MPLA, como muitos eram e continuam a ser até hoje. E foi essa aparente lealdade que o levou a conquistar a confiança de JES até chegar ao cargo de secretário-geral dos “camaradas”, um posto que não se pode considerar propriamente uma qualquer “miudeza” e  perante o qual muitos já se dariam por satisfeitos – como foi o caso de Dino Matross, por exemplo.

Era normal que o antigo comissário tivesse sede de progredir – ambição que lhe era inteiramente legítima –, mas o problema é que ele não calculou bem o tempo e o momento de dar o salto. De modo que logrou incorrer em afrontas a JES que foram bem mais gravosas que os que estiveram na origem dos choques entre o líder do MPLA  e Lopo do Nascimento e Marcolino Moco.

Esqueceu-se, rapidamente, que tinha sido um pouco por condescendência de JES que se deu a sua meteórica carreira como “aparatchik” do partido, tendo saído da obscura posição de secretário para a informação e se tornou no relativamente influente SG, passando por concorrentes que estavam nitidamente melhor posicionados na lista de espera para esse cargo. Insatisfeito, não tardou que considerasse a possibilidade de ser o sucessor de JES, logo na primeira ocasião em que este alvitrou que pretendia sair, com mais clareza do que alguma vez já tinha feito.

A partir daí, João Lourenço perdeu-se de travões até colidir violentamente com o autocarro que JES colocara deliberadamente atravessado na estrada. Sem grande tacto, pretendeu “forçar” JES a cumprir com a palavra empenhada, usando uma estratégia de pouca ou mesmo nenhuma subtileza, numa altura em que era claramente arriscado posicionar-se ostensivamente contra o “todo-poderoso” presidente do partido.

No final de contas, é claro, João Lourenço acabou por perder o confronto com Eduardo dos Santos. Completamente depenado e sem capacidade de voar por si só, foi praticamente forçado a gramar um “desterro” no interior do MPLA, congelando por muitos anos os seus apetites de chegar à liderança do partido. Passaram-se 14 anos e João Lourenço está a fazer a sua “rentrée”, novamente impulsionado por uma certa benevolência do próprio “grande chefe”.

Mas desta vez temos o chefe a minar-lhe o caminho em termos que são de todo inaceitáveis, criando condições para que se possa verificar um novo embate. E, convenhamos, um “remake” da colisão entre ambos teria desta feita repercussões imprevisíveis para o partido e a sociedade. O contexto e a correlação de forças em jogo são diferentes.

Neste momento, João Lourenço pode ser simplesmente um toiro que passou estes anos todos com os cornos encolhidos. Mas uma prova concludente de que continua de certo modo impulsivo, não tendo amadurecido o suficiente, está espelhada no episódio que recente  protagonizou quando, em digressão por Moçambique, soltou-se em bocas e insultos destemperados e nada urbanos contra a oposição do lado do índico, quando por certo o seu alvo seria somente os opositores de Angola.

E este temperamento impulsivo de João Lourenço é que torna, perigosamente, imprevisível a sua reacção para depois de 23 de Agosto, caso, obviamente, se concretize a sua eleição. É que, como se diz em linguajar deste povo heroico e generoso, o que estão a fazer com ele “não é de bem”…

 

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