A notícia, assim como ela acontece

O Presidente não deve pagar sozinho pelos santos e pelos pecadores

Com JES à frente, é verdade, o que se instalou no país foi um regime oligárquico que beneficiou, com prebendas e sinecuras, uma corte de indivíduos e famílias que também devem assumir sua quota-parte dos erros do passado

Nos idos de 2003, quando o extinto jornal “Angolense” publicou a conhecida matéria “Os nossos Milionários”, que escancarou a problemática da riqueza em Angola, deu-se então um fenómeno que passou ao largo de muita gente. Mal refeitos do susto que a matéria lhes havia provocado, assistiu-se a uma tendência subtil, da parte da elite política e dos novos-ricos em ascensão, para se demarcarem de José Eduardo dos Santos.

Pode não ter sido muito perceptível para a generalidade dos observadores, mas na ocasião o próprio Bureau Político do MPLA apressou-se a produzir uma declaração oficial com a qual, de maneira muito atabalhoada, tentou sacudir a água do capote, passando a ideia de que no seu interior eram todos uns “santinhos” e que se havia algum “pecador”, este tinha de ser achado noutra freguesia.

 Ou seja, o presidente José Eduardo dos Santos (JES), que na condição de “maquinista” não tinha como se esconder, era subtilmente largado sozinho em alto-mar pelos seus correligionários, deixando-o exposto aos rigores da opinião pública e ao julgamento da sociedade. Porém, sendo o animal político que todos conhecem, com frieza e calculismo ele soube manobrar nos bastidores de modo a pôr os seus camaradas “em sentido”. E foi nessa altura então que o jogo mudou de feição e, em catadupa, começaram a sair os processos judiciais contra o director da publicação, Graça Campos.

Ora, agora que JES se apresta a correr o pano ao seu longo consulado de governação do país, deixando atrás de si um passivo que não há como esconder nem camuflar, em domínios cruciais para a vida dos cidadãos, como os da boa governação, corrupção, repartição da riqueza nacional e, até mesmo, em termos de direitos e liberdades dos cidadãos, o “regime” volta a estar num contexto muito parecido com aquele de inícios de 2003.

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Membros da direcção do MPLA

Há no ar todos os condimentos para que aqueles que se preparam para ser os “novos senhores” do poder no MPLA possam incorrer na via muito cómoda e tentadora de deixar o seu presidente a esbracejar sozinho no “oceano”, assacando a ele e à família as culpas por todos os passivos, como se os erros do passado tivessem sido praticados exclusivamente por ele e pelos filhos.

Para muitos, de facto, afigurar-se-ia tentador ir por esse atalho, uma espécie de corta-mato que faria de JES e de sua parentela, por via da sua diabolização, o tambor de lixo da história depois das eleições de Agosto próximo. Não haveria “omo” mais capaz de esconder a roupa suja do passado.  Sim, seria muito cómodo enveredar por esse caminho. Mas este é também o momento adequado para o MPLA mostrar – ou recuperar – sua característica de partido com moral e memória.

Que JES vai ou é obrigado a sair da cena política angolana, isto nem sequer se discute. Pelo contrário, é já um facto que “meio mundo” vem aplaudindo, e até deve ser cada vez mais incentivado para que – Deus seja surdo! – não aconteça nenhuma indesejada desistência.

Mas vejamos como o “slogan” escolhido pelo MPLA para sustentar a sua estratégia eleitoral – “Melhorar o que está bem e Corrigir o que está mal” – parece, pelos vistos, um lema vagamente atirado ao ar, com o qual, na verdade, os dignitários do principal partido angolano tendem a esquivar-se, sub-repticiamente, da autocrítica. Desde que o slogan foi lançado, não se viu até ao momento ninguém no seio do MPLA a assumir nem dar o rosto pelo muito que foi feito de errado no passado.

Ora, o problema aqui, uma vez mais, é que há alguém que não está, objectivamente, em condições de se esconder na fotografia. E esse alguém é o líder dos camaradas, José Eduardo dos Santos. Uma vez mais ele fica exposto e deixado sozinho, entre os tubarões do eleitorado e da sociedade, para arrostar com o passivo acumulado durante 38 anos em que esteve a liderar o regime.

Convenhamos que o “Eduardismo” é a marca de um regime e poder autocrático de que ele não se livrará. Mas para construir esse regime que teve todos os traços de uni-pessoalismo – como o classifica Marcolino Moco, antigo primeiro-ministro e secretário-geral do MPLA –, JES comprou lealdades e fez clientelas em muitos e diversificados segmentos: no seu inner circle, no Executivo, nas Forças Armadas e até no interior da direcção do próprio MPLA. Enfim, ele conseguiu estender sua influência até onde pôde, para construir nichos de personagens que se tornaram seus indefectíveis. Mas a verdade que também deve ser dita é que, nesse percurso, ele não “mamou” nada sozinho.

“O novo discurso do MPLA não tem de ser maniqueísta, escondendo o que verdadeiramente esteve mal no passado ou assacarem-no, como algo muito fácil e tentador, ao Presidente da República e seu líder que em breve sairá de cena.  “

Para o caso de alguns grupos e indivíduos, pode até dizer-se que JES foi “generoso”, excessivamente “generoso”, não sendo produto do acaso as múltiplas e patéticas manifestações de endeusamento à sua pessoa que têm sido protagonizadas por aí. Beneficiários de prebendas e sinecuras como o Movimento Nacional Espontâneo ou a Associação dos Jovens Provenientes da Zâmbia e companhia limitada, de modo algum se poderão queixar.  Os empresários que se fizeram sem qualquer capital inicial, os magnatas angolanos escolhidos a dedo para alinharem como comensais no rico repasto do petróleo ou dos diamantes sem que se tenham submetido a um concurso, enfim foram muitos os que assistiram sempre ao espectáculo a partir de um luxuoso camarote.

Na verdade, foram muitos os que tiraram proveito deste sistema de coisas para também enriquecerem fartamente e por meios ilícitos. E num sem-número de casos não foi preciso que JES desse qualquer ordem directa para muitos figurões, à pala do sistema, usarem o seu nome como uma chave-mestra, o abre-te-sésamo com que se jogaram, à semelhança de uma matilha, para o “festim” que levou ao colapso várias instituições estatais, de fábricas a bancos. Todo o mundo sabe como aconteceu a depredação total e completa da antiga CAP, nos anos 90, ou mesmo com o que se está a passar agora no Banco de Poupança e Crédito (BPC), que ficou praticamente com os seus cofres-fortes lisos.

Até nas províncias, como se sabe, o Presidente foi expedindo, de uma maneira geral, gente da sua própria conveniência; de sorte que não se poderá eximir da responsabilidade por muitas irregularidades que aconteceram nessas paragens. Mas, ainda assim, muitas situações inenarráveis – sucedidas em algumas províncias mais do que noutras – foram irrecusavelmente produtos da mente de “cacique” de muitos dos seus governadores. Foi assim, por exemplo, com Pedro Mutindi durante o tempo em que ele governou o Cunene. E continua a ser assim também no Moxico, onde continua de pedra e cal João Ernesto dos Santos “Liberdade”. Ambos, configurando “casos de estudo” merecedores de análises à parte.

Não será, por conseguinte, inteiramente correcto nem justo que JES pague pelo santo e pelo pecador. O que se instalou no país – com ele à frente, é verdade – é também um regime oligárquico que foi beneficiando, com prebendas e sinecuras, vários indivíduos e famílias.

O novo discurso do MPLA não tem de ser maniqueísta, escondendo o que verdadeiramente esteve mal no passado ou assacarem-no, como algo muito fácil e tentador, ao Presidente da República e seu líder que em breve sairá de cena. Para ser convincente, uma postura autocrítica por parte do partido no poder deverá incluir a assunção colectiva do que esteve mal. E indo mais longe, deverá mesmo envolver uma mudança completa de práticas, comportamentos e, se necessário for, de pessoas.

Mas isso não significa que se faça o que sempre foi feito pelo regime: uma espécie de corrente de solidariedade e irmandade que esconda os males, varrendo-os para debaixo do tapete. Sem ser o que se pode ter como uma caça às bruxas, o MPLA terá de ter coragem bastante para fazer uma limpeza exaustiva e verdadeiramente asséptica em matéria de combate à corrupção.

Finalmente, uma outra questão a ter em conta é que não adiantará, como já se está a ver no discurso eleitoral do seu cabeça de lista, João Lourenço, prometer coisas que façam pressupor a construção de um país diferente em matérias como desenvolvimento e crescimento socioeconómico, combate à corrupção e repartição da riqueza. Ou seja, prometer tais coisas para o eleitorado, esquecendo-se, contudo, que isso destoa com práticas sobre as quais não se ousa dizer a mais pequena palavra em domínios, tão caros para os cidadãos, como os da liberdade de expressão e do direito à informação.

O exemplo mais acabado foi a arrogante e recente supressão dos canais e programas da estação televisiva portuguesa SIC da plataforma DSTV.

 De facto, não fará o menor sentido andar a prometer um país moderno, desenvolvido e sem corrupção se, afinal, atrás de tudo isso tivermos um presente envenenado – uma espécie de “gulag” que cerceie o direito do cidadão à pluralidade de informação. Afinal, é disso que se trata quando tendencialmente se vai suprimindo, da agenda e programação dos órgãos de comunicação social, tudo o que seja realmente sério e crucial para os cidadãos, apostando-se em servir-lhes, ainda que em prato de lustre, essencialmente propaganda e informação cor-de-rosa.

 CORREIO ANGOLENSE

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