Isaac dos Anjos: o «flamingo» sucumbiu no seu voo

O antigo governador provincial de Benguela continua a ser enaltecido com os mais variados e estranhos encómios, sobretudo no que consideram ser a sua frontalidade. Os mesmos que o escarneceram até muito recentemente são os mesmos que aparecem agora a manifestar uma saloia solidariedade após a estrepitosa queda do «anjo» que esteve para as terras de Ombaka para o pior e o melhor.

Conhecendo-se a política doméstica, nem sempre a truculência, a frontalidade e alguma boca destravada serviram de ingredientes (q.b.) para uma comida tragável aos interesses por cá instalado. Se Isaac dos Anjos não sabe, então devia saber de cor e salteado. Aliás, só muito distraidamente o agora ex-governador da cidade das Acácias Rubras ainda acreditava que estava dentro do prazo. Nos corredores do poder há já muito que andava em caducidade.

Para quem acreditou poder permanecer, mesmo a arrastar-se, até depois das eleições naquela governação, Dos Anjos sai cabisbaixo, de fininho e pela porta dos fundos. Com o ar de quem conhece como a palma da mão os meandros da casa, o destravado governante enganou-se redondamente no número da porta que deveria bater para ser salvo.

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Uma vista da cidade de Benguela, o atoleiro em que Isaac dos Anjos se afundou.

As mais recentes deslocações àquela província do grupo de acompanhamento do Bureau Político do MPLA eram sinais mais do que evidentes de que muita coisa corria em desfavor de Isaac. A viagem de emergência de Paulo Cassoma, o secretário-geral dos «camaradas», e as constantes idas e vindas de Jú Martins entre Luanda e Benguela serviram não só para apagar as altas labaredas que por lá ameaçavam queimar tudo, mas também para o escrever da crónica de uma morte anunciada. A cama, esta, há muito estava feita.

Quando foi indicado para dirigir Benguela, já Isaac dos Anjos sabia ao que ia. Levava certamente consigo um baú de recomendações de como não era bem-vindo naquelas paragens. Estranhamente ignorou-as. Decidiu avançar por sua conta e risco e bem à sua maneira musculada. Entrou a «matar», tal como já havia feito noutra província, onde não deixou saudades, e num piscar de olhos incompatibilizou-se com algum poder por lá já instalado. Poderes partidários e económico-empresariais, que desde então nunca o engoliram.

Se já era abominado só pela cara, tornou-se bem pior a partir do momento em que se viu no cargo de 1º Secretário dos «camaradas» em Benguela. Foi o início das suas dores de aflição. As coisas nunca mais foram as mesmas para si e também para os demais companheiros.

De um lado, era o próprio Isaac que não podia sequer cruzar no corredor com alguns «camaradas» que encontrou, mas do outro lado estavam também outros «camaradas» que não o «chupavam» nem mesmo untado com mel. Aliás, uma das pechas a si apontadas foi o desrespeito manifestado para com os seus colaboradores, muitos dos quais chegaram a pedir reforma antecipada por causa dos constantes ralhetes em público.

Por isso, encontrou antagonistas que ao longo do seu consulado vieram a revelar-se «inimigos figadais», entre os quais avultavam o segundo secretário provincial do partido, Veríssimo Sapalo, Eduarda Magalhães (coordenadora da Comissão de Auditoria e Disciplina em Benguela) e Zacarias Davoca, Secretário para os Assuntos Económicos, Políticos e Eleitorais, membros do Comité Central do MPLA e destacadas figuras no mosaico político benguelense.

Num piscar de olhos passou a ser combatido de forma selvática por gente que nunca encarou com bons olhos a sua frontalidade, tanto que até mesmo a sua forma de respirar acabava reflectida em «draft’s» quase diários despachados para Luanda.

Em condições normais, à semelhança do que fazem os seus confrades, teria gerido melhor o «dossier Benguela» se se tivesse livrado das três pedras partidárias (Sapalo, Magalhães e Davoca). Erradamente conferiu-lhes maior visibilidade, conduzindo o combate até ao último «round».

Se tivesse impregnado bastante creolina à sua esfregona para a limpeza que se impunha no Comité Províncial do partido teria evitado sobremaneira as correntes que lhe fizeram frente e com as quais se incompatibilizou, e que a esta altura provavelmente estarão de barriga e pernas para o ar em ensurdecedoras gargalhadas. Se pírrica ou não, saíram vitoriosos na batalha final.

Com o seu próprio «dream team» manteria o controlo do seu consulado. Mas, perdulário, viu-se dono e senhor do controlo remoto e deixou que o jogo decorresse com a maior naturalidade, num ambiente totalmente pejado de «abelhas» a aguardarem pelo melhor momento para a picada final. E o resultado foi o que se viu: literalmente a arrastar-se numa saída inglória…

No fundo, no fundo, para um homem com a sua experiência, errou redondamente ao ignorar uma premissa que faz lei em questões de governação em ambientes adversos na política intramuros: é importante dispor de punho de ferro antes de tudo o resto, antes mesmo de começar, inclusive, a governar. Morreu, literalmente, do seu próprio veneno.

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Isaac dos Anjos e o Presidente da República: tempos que já lá se foram!

Como se não bastassem apenas aquelas duras três «ervas daninhas» que se lhe cruzavam o caminho a nível partidário, Isaac dos Anjos criou também anticorpos com «uns tantos empresários» que com o evoluir do tempo revelaram-se autênticas «armadilhas».

Colocar de lado os demais interesses encontrados em Benguela terá minado sobremaneira o seu consulado e a sua sobrevivência. São homens de negócios com todos os sacramentos feitos ao nível daquelas paragens, que se sentiram excluídos de muitas iniciativas empresariais da edilidade local. Não poucas vezes, esses empresários queixaram-se do que consideravam atropelos à Lei da Contratação Pública. Fala-se, por exemplo, de uma tal de «Horizonte Global», uma empresa que estranhamente «ganhava tudo e mais alguma coisa», porque conotada com o círculo de interesses do então governador.

Boca malparada

 

O demitido dirigente esqueceu-se também que a determinada altura tornava-se inteligente colocar um «assanho» na boca para evitar dizer o que muitos não querem ouvir, mesmo em se tratando de verdades insofismáveis. Um exemplo fresco? A recente crítica à política da Administração Geral Tributária (AGT), não se tendo coibido de lançar dolorosas alfinetadas à política de cobrança praticada por aquela instituição.

E Isaac, como se lhe conhece, é dono de uma boca por demais destravada. Não poucas vezes resolve falar o que lhe vem à alma, sem sequer medir o contexto, nem olhar para a pessoa a atingir. Quando lhe dá na gana o homem dispara, mesmo que os estilhaços venham a provocar outras vítimas.

Se vidente ou não, parecia que já previa que o dia do seu «juízo final» em Benguela estaria próximo, ao virar da esquina, ao ritmo de um rápido piscar de olhos. «Na política e no futebol, estar no meio de fanáticos pode inibir-nos a expor as verdadeiras preferências, com receio de sofrer graves represálias. Por isso digo sempre: sou engenheiro agrónomo. Ocupo cargos políticos de passagem, para dar um contributo ao meu país! O mundo político é muito rígido, não há abertura para elogiar o adversário, por mais acertado que ele esteja. O que deveria interessar é o teor, não a forma»

E no final, de forma premonitória, reconheceu: «Assim que eu falei aqui neste microfone, não sei se o meu emprego já não estará em risco». E não é que o homem estava certo! Acabou, ainda que temporariamente, no desemprego.

Ainda que em surdina, foi este conjunto de bocas malparadas, sobretudo, que terão precipitado a movimentação de um grupo de avanço, liderado por Jú Martins que, mais tempo menos tempo, anunciaria o fim da «saga angelical» do governador Isaac.

Outros «pecados mortais»

 

É voz corrente entre os benguelenses que o agora exonerado governador provincial teve a seu desfavor alguns problemas de gestão e outros projectos mal explicados, porque na sua maioria entregues a empresas próximas a si.

Sobre o dorso de Isaac dos Anjos pesam por exemplos «pecados» como o facto de nunca ter conseguido explicar e tão pouco prestar contas do destino dos dinheiros de uma conta bancária domiciliada no BCI, para onde eram canalizados verbas resultantes da venda de terrenos. Aliás, tão pouco os seus colaboradores directos estavam autorizados a falar desses dinheiros…

Sectores bem informados em Benguela revelaram ao Correio Angolense que, em face desta derrapagem, o Ministério das Finanças terá advertido o Palácio da Praia Morena em como a referida conta era ilegal, na medida que a ideal seria a Conta Única do Tesouro.

A justificação de Dos Anjos era a de que havia necessidade de realizar o pagamento em tempo útil às empresas que trabalhavam no loteamento dos terrenos. Este argumento não encontrava acolhimento em sectores da província familiares ao processo, uma vez tratarem-se de empresas com as quais o antigo governador mantinha também interesses, muitas delas idas da Huíla, província que o mesmo governara antes de aportar Benguela.

Moral da história: é voz corrente em Benguela que à semelhança dos seus antecessores, o homem também não resistiu ao pernicioso vírus do «cabritismo». Comia – e bem! – onde se encontrava amarrado.

E nem tudo foram espinhos…

 

Contrariamente ao que se pensa, Isaac não foi só um «Anjo mau». Teve também na sua folha de serviços elementos positivos. Por exemplo, reconhecem os benguelenses, foi sob sua gestão que a água voltou a molhar o Vale Agrícola do Cavaco (onde trabalhou na década de 80 como funcionário do gabinete de aproveitamento do vale), vários anos depois de completa seca. Com ela, a produção de banana foi aumentada e o seu escoamento é agora facilitado graças ao esforço para asfaltar na totalidade as vias de acesso ao mesmo vale.

Estruturou ainda uma série de outros projectos, muitos dos quais traçados na era de Dumilde Rangel, como são os casos dos projectos Blue Ocean, a Cidade do sal, embora ao que se diz em Benguela «ele tenha interesses nisto tudo».

Por isso, quando se pergunta se deixa saudades, os bengueleses que conversaram com o CorreioAngolense foram unânimes na resposta: «sim e não». E explicaram: «sim, porque em Angola não se tem memória de alguém que dê sequência ao trabalho do seu antecessor, em nome do bem comum. Não, porque não deixou boas referências em termos de equidade na distribuição de obras, de tal forma que muitas empresas faliram antes mesmo da crise».

CORREIO ANGOLENSE

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