Colapso financeiro na TCUL

Uma «task force» criada por Augusto Tomás barafustou gavetas e cofres, analisando à lupa todos os papéis da TCUL, e descobriu uma enorme «cratera» nas contas daquela empresa do Estado. Por alto fala-se em mais de 100 milhões evaporados…

A polémico e muito contestado presidente do Conselho de Administração da empresa de Transportes Colectivos Urbanos de Luanda (TCUL), Freitas Neto, pode estar a apresentar-se ao gabinete com gordas olheiras, por força da insónia que o tem apoquentado nos últimos dias.

Os sinais já vinham sendo dados e as reclamações ouvidas já há largo tempo, pelo que o ministro dos Transportes não tergiversou: criou uma equipa de auditores para peneirar tudo que está relacionado com a actual gestão da estratégica empresa pública de transportes. E o que descobriu, dizem as fontes do Correio Angolense familiarizadas com o dossier, foi o suficiente para os auditores ficarem de olhos arregalados e menearem a cabeça em sinal de reprovação.

 Os especialistas escolhidos a dedos por Augusto Tomás para este trabalho de auditoria confrontaram-se com um gigantesco “buraco financeiro” – indiciador de má gestão – consubstanciado no saque e desvios de verbas. Os números não são especificados, mas fala-se em algo acima da centena de milhões de kwanzas.

Em boa verdade, a empresa tem sido estremecida com cíclicos abalos sísmicos do ponto de vista financeiro e com graves efeitos colaterais traduzidos na ausência de pagamento dos salários mensais.

A fazer fé no porta-voz da comissão sindical da empresa, Domingos Epalanga, mais de 112 milhões de kwanzas que serviriam para o pagamento do subsídio de diuturnidade dos trabalhadores encontram-se neste momento em posse indevida. O sindicalista tem o dedo indicador apontado ao presidente do Conselho de Administração da TCUL. De um modo geral, segundo ele, os trabalhadores acreditam que Freitas Neto e um punhado de administradores com ele mancomunados estejam no centro de uma operação que terá defraudado os cofres da empresa, de acordo com o relatório preliminar da audição feita à empresa.

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Freitas Neto: «Essas informações não condizem com a verdade. O que lhe posso dizer é que não roubo à empresa»

A crise salarial, os constantes e injustificados cortes de subsídios não são «fenómenos novos». Desde 2013, ano em que Freitas Neto chegou à liderança da transportadora, denuncia o sindicalista, o direito de receber um salário completo, pontual e regular passou a ser uma miragem para os trabalhadores.

O colapso financeiro agora identificado atingiu o seu apogeu em 2015, período em que os trabalhadores tiveram que enfrentar longos 10 meses de trabalho sem ver a cor dos seus ordenados, situação que não só provocou um total estado de indigência, como também os levou a despoletar uma onda de greves sucessivas para a restituição da legalidade.

Os trabalhadores não engoliram também o facto de lhes ter sido cortado, sem aviso prévio nem qualquer justificação plausível, o décimo terceiro mês referente aos anos de 2015 e 2016, respectivamente.

Segundo informam os trabalhadores, jogando em antecipação mas agindo de muita má-fé, a 20 de Dezembro do ano passado, o PCA da TCUL remetera um exaustivo memorando ao ministro dos Transportes, no qual «jurava» ter encontrado uma fórmula para o fim das reivindicações na empresa, após supostas conversações com as estruturas sindicais.

Freitas Neto garantira ainda a Augusto Tomás que questões como o pagamento do décimo terceiro mês de 2015 e 2016 reclamado pelos trabalhadores estavam já resolvidas. Mas Domingos Epalanga rotula de «mentirosas» as informações prestadas ao ministro pelo PCA da TCUL.

Um dos rostos visíveis do movimento sindical, Epalanga foi acusado pelo Conselho de Administração da empresa de “quebra de sigilo profissional” e de afrontas a superiores hierárquicos, o que lhe custou a suspensão e consequente afastamento de todas as funções por tempo indeterminado.

O sindicalista assegurou, porém, ao Correio Angolense que o argumento da «quebra de sigilo profissional» não colhe, «uma vez que os documentos que eles dizem ser confidencial são do domínio público».

Acredita tratar-se de manobras diversionistas por parte da direcção com vista a limitar a sua liberdade sindical. Daí que tenha já intentado uma queixa junto de instâncias judiciais, em virtude de a transportadora recusar-se a indemnizá-lo ou readmiti-lo.

Freitas Neto: «É tudo falso»

Em contacto telefónico mantido com o Correio Angolense, o presidente do Conselho de Administração da TCUL, Freitas Neto, considera falsa todas as acusações que sobre si impendem, ao mesmo tempo que promete para breve esclarecer o alegado descaminho de dinheiros e abordar outras questões.

«Essas informações não condizem com a verdade. O que lhe posso dizer é que não roubo à empresa», disse, lacónico, Freitas Neto.

Em relação à alegação da prática de suspensões e despedimentos arbitrários, o responsável da TCUL defendeu-se dizendo que a empresa não expulsa ninguém, mas sim despede «quando é instaurado um processo disciplinar com base em argumentos laborais».

 

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