Dono da Macon é alvo de operação que investiga desvio de US$ 45 milhões do BNA

O empresário brasileiro de descendência japonesa e naturalizado angolano Valdomiro Minoru Dondo, um dos homens mais ricos e poderosos de Angola e dono da empresa Macon, foi alvo na quarta-feira da Operação Le Coq, que mobilizou cerca de 60 agentes da Polícia Federal (PF) no Rio para o cumprimento de quatro mandados de condução coercitiva e 12 de busca e apreensão. A pedido da Justiça francesa, o Ministério Público Federal, em parceria com a PF, investiga a utilização de intermediários em contratos entre o governo angolano e empresas estrangeiras na produção de papel moeda mediante pagamento de US$ 45 milhões em propina. Duas juízas francesas acompanharam a operação.

Minoro e Oscar Henrique Durão Vieira, um dos sócios do negócio, não foram encontrados pela PF, mas os agentes conduziram, sob coerção, Vicente Cordeiro de Lima e Gerson Antônio de Souza Nascimento, com quem foram apreendidos 127 relógios no valor superior a R$ 1 milhão. Os quatro são acusados de participar de esquema que lesou contratos do Banco Central angolano com a empresa francesa Oberthur, especializada na fabricação de papel moeda.

De acordo com investigações iniciadas na França, os brasileiros, associados a angolanos e fazendo-se de representantes da Oberthur, teriam recebido comissões de 35% no valor dos contratos com o Banco Central, entre 2001 e 2012, à revelia da empresa francesa. Para isso, criaram uma cadeia de empresa de fachada, localizadas em Portugal e Hong Kong, que recebiam a propina.

Nos negócios de Minoru, não há limites entre o público e o privado. Como pessoa física, é sócio de Pedro Sebastião Teta, vice-ministro da Ciência e Tecnologia, na Júpiter; do brigadeiro Leopoldino Fragoso, o Dino, na Supermar; da irmã da primeira-dama, Artemísia Cristina Cristóvão de Lemos, no Bob’s; novamente de Leopoldino Fragoso, na Tilápia Psicultura; de Pitra Neto, ministro do Trabalho e Segurança Social, na 2000 Empreendimentos; do chefe da Casa Militar da Presidência e diretor do Gabinete de Reconstrução Nacional, general Manuel Hélder Vieira Dias, o Kopelipa, na Medicamentos e Cosméticos do Prenda; e ainda, como pessoa jurídica (pela Midras), do ex-ministro das Finanças José Pedro de Morais, na Gesa Health.

Minoru é também o terceiro maior acionista do BNI, banco que tem na composição societária novamente o ex-ministro José Pedro de Morais, o ex-chefe de Estado Maior e general do Exército João de Matos e o presidente da Assembleia Nacional, Paulo Kassoma, representado pela filha, Kanda.

Há 15 anos, José Pedro de Morais e o ex-governador do Banco Nacional (o Banco Central daquele país) Amadeu de Jesus Castelhano Maurício (demitido em 2009) foram favorecidos com 21 remessas do Trade Link Bank (uma offshore nas Ilhas Cayman), procedentes do Brasil, no valor total de US$ 2,7 milhões.

Pelos extratos bancários obtidos com a quebra do sigilo bancário da Trade Link nos Estados Unidos, durante as investigações sobre o valerioduto, a offshore fez 20 remessas no valor aproximado de US$ 2,6 milhões para contas de Morais entre 2003 e 2005. As remessas variaram de US$ 76 mil a US$ 360 mil. Os documentos oficiais registram que, só em 2003, a Trade fez 12 transferências para o ex-ministro, no valor de US$ 1,4 milhão. Os recursos saíram de uma conta do Trade Link, no Banco Standard, em Nova York, e seguiram até uma conta em nome de Morais no Banco Internacional de Crédito (BIC), em Lisboa, Portugal.

Nos extratos da offshore, consta também uma remessa de US$ 176 mil para Amadeu Castelhano, então a mais alta autoridade monetária de Angola, no dia 12 de março de 2002. O dinheiro saiu da conta da Trade no Standard, passou pelo Banco Africano de Investimentos e, depois do giro, voltou a uma conta em nome de Amadeu, no Citibank, em Nova York.

Minoru é próximo de ambos. De Morais, é sócio em dois negócios. Já os cartórios de registro de imóveis do Rio revelam que, em 30 de janeiro de 2004, o empresário comprou de Antônio Jacinto Castelhano (parente de Amadeu) as sobrelojas 207 e 208 do edifício situado na Avenida Presidente Vargas 590, no Centro.

Nos anos 1990, revela ainda a pesquisa nos cartórios cariocas, Minoru fez dois negócios com Sebastião Basto Lavrador, outro ex-governador do Banco Nacional: em novembro de 1997, o empresário foi procurador de Maria Fernanda Noguera Alcântara Monteiro Lavrador (mulher de Lavrador) na compra do apartamento 301 da Praça Ataualpa 86; dois anos depois, em 9 de julho de 1999, o empresário vendeu para o próprio Lavrador a sala 201 do bloco 10 da Avenida das Américas 500, na Barra, com direito a quatro vagas de garagem.

Em Angola, Minoru já foi acusado de fazer negócios com o Ministério da Saúde, a Casa Militar, o Ministério das Finanças e vários governos provinciais, supostamente transferindo os recursos para empresas suas situadas em paraísos fiscais, como Ilha da Madeira, Ilhas Cayman, Suíça e Miami. Mas as investigações ordenadas pelas autoridades locais nada constataram até hoje.

A proximidade entre Minoru e a família do presidente José Eduardo dos Santos, há três décadas no comando de Angola, é conhecida no país. Os negócios de Minoru em Angola começaram com a empresa Macon, de transportes coletivos, antes concentrados em lotadas de táxi e caminhonetes. Reportagem da revista “The Economist” questionou a utilidade de investimentos do governo, mostrando que foram comprados três mil ônibus, quando o país só tinha 1.500 motoristas habilitados.

No começo desta década, suas empresas lucravam R$ 90 milhões anuais com contratos públicos em Angola.

Minoro não foi localizado para comentar as investigações. A Polícia suspeita que ele esteja em Luanda. Na época, o empresário negou ao GLOBO irregularidades em seus negócios e relações com autoridades angolanas. Minoru confirmou ter sociedade com autoridades governamentais angolanas, sem citar seus nomes, afirmando que os negócios eram legais porque elas podiam ser sócias desde que não atuassem como executivas.

Alvo de outras investigações

Reconheceu ainda que foi alvo de denúncias em Angola, feitas por opositores ao regime, mas garantiu que pediu a investigação delas e que nada de irregular fora constatado. Na época, disse ter participação majoritária em “cinco ou seis”, minoritária em “dez ou 12″ e, no restante das 20 empresas, ter cerca de 30%.

Ele foi acusado em Angola de selar negócios com o Ministério da Saúde, a Casa Militar, o Ministério das Finanças e governos provinciais, supostamente transferindo recursos para empresas suas situadas em paraísos fiscais, como Ilha da Madeira, Ilhas Cayman, Suíça e Miami.

Quem o empresário brasileiro Valdomiro Minoru Dondo 

O manda-chuva angolano tem centenas de propriedades e negócios em Luanda, e luxuosos apartamentos em Miami, São Paulo e Rio de Janeiro – onde é patrono da escola de Samba Unidos da Tijuca. Ele lidera um conglomerado de empresas em negócios que envolvem shopping centers, o ramo de transporte, equipamentos, comércio exterior – empresas estas favorecidas há anos por financiamento do BNDES. Reza a lenda que Minoru guarda o dinheiro que ganha em paraísos fiscais como a Ilha da Madeira e Ilhas Cayman, entre outros.

Quando o empresário Valdomiro Minoru Dondo encomendou um bolo gigante, em forma de bolsa Louis Vuitton, a intenção era agradar à mulher, que comemorava 40 anos em festa no Museu Histórico Nacional, na Praça XV. Sem querer, porém, o anfitrião ajudava ali a escrever um pedaço da História de Angola. Naquela noite de novembro de 2008, Agla Dondo não seria a única homenageada. Ao brindar ao casal, os convidados festejaram também a entrada em cena de uma nova elite econômica da África. Gente como os Dondo, que souberam fazer fortuna ao sabor do milagre angolano alavancado pelo petróleo (salto de 0,1% do PIB nos anos 1990 para uma previsão de 10,5% no ano que vem).

Filho de imigrantes japoneses, Minoru nasceu no interior de São Paulo. Jovem, mudou-se para o Rio. Mas foi em Angola, após cair nas graças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido há três décadas no poder, que ele virou mito. Num país devastado pela guerra civil, enriqueceu tendo como sócias as mesmas autoridades que compram os seus seviços. Ele garante que não está entre os 20 maiores empresários daquele país, mas é modéstia. Minoru é visto como um dos dez homens mais ricos de Angola, lista praticamente composta por generais e outros membros do governo central. Seus negócios, iniciados nos anos 1980, prosperam na mesma velocidade em que correm as histórias sobre a sua obscura relação com o poder, marcada por denúncias de favorecimento, licitações fraudulentas e evasão de recursos.

— Intriga de funcionário demitido. Sofremos uma ampla investigação, mas a Inspeção Geral do Estado nos inocentou — disse o empresário.

Com mais de 20 empresas em Angola, cinco no Brasil (no ramo de importação e exportação) e residências no Rio, Luanda e Miami, Minoru não gosta de perder tempo em aeroportos. Com cidadania angolana, não precisa de visto em Luanda. É amigo do presidente José Eduardo dos Santos e oferece apartamentos para reuniões ministeriais. No Rio, amizades na Polícia Federal e no mundo do samba lhe garantem regalias e discreta notoriedade. Ao desembarcar, não entra em fila. Há sempre um policial a aguardá-lo. Na quadra da uma escola de samba do Grupo Especial, já foi chamado de patrono.

No Aeroporto Internacional do Rio, não é difícil saber quando Minoru está chegando. Basta conferir a presença do agente federal aposentado Aroldo Oliveira Mendonça, sempre pronto a livrá-lo de incômodos do desembarque. Aposentado há três anos, Aroldo entra livremente na área restrita. Ex-dirigente da Unidos da Tijuca, amigo dos diretores da Liga das Escolas de Samba, o agente passou parte da carreira no aeroporto. Hoje, quer ser sócio de Minoru.

No ano passado, a Superintendência da Polícia Federal no Rio instaurou processo administrativo disciplinar contra o delegado Rodrigo de Souza Alves e sua mulher, a escrivã Érika Cerqueira de Carvalho. O objetivo era o de apurar as circunstâncias que teriam levado Minoru a custear, em outubro de 2008, a viagem do casal a Angola. Ambos, na época, eram lotados no aeroporto. As passagens e diárias de hotel foram pagas pela Promoangol, holding do grupo angolano VMD, de Minoru.

Amigo de Aroldo, Rodrigo frequentou, ao lado de outro delegado federal, Leonardo Tavares, o camarote do agente na Unidos da Tijuca. No banco de dados da PF, consta que Minoru, no período de agosto de 2008 a fevereiro de 2010, entrou e saiu do país aproximadamente 70 vezes, sendo 15 no plantão de Rodrigo e outras 14 no plantão de Leonardo.

—- Nos meus plantões, é possível que ele tenha saído da fila, mas o privilégio termina aí — diz Leonardo.

Os negócios de Minoru se estendem também a jogos de azar. Há oito anos, uma de suas empresas remeteu 144 máquinas caça-níqueis do Brasil para Angola, por encomenda de outra empresa então de sua propriedade em Luanda, a África Trevo, uma das três autorizadas pelo governo local a explorar oficialmente os jogos de azar naquele país. Ele foi responsável também pelo lançamento da loteria “Raspadinha da sorte” em Angola.

Para um país com 37% da população abaixo da linha da pobreza, que figura entre os piores do planeta em índice de desenvolvimento humano, Minoru é um fenômeno. Oficialmente, suas empresas lucraram no ano passado US$ 90 milhões. Ele atua nas áreas de importação e exportação, fornecimento de bens alimentícios, TI, saúde e fármacos, comunicação, hotelaria e restaurantes, pesca, transporte público, shopping centers, construção e incorporação de imóveis.

GLOBO | colaboração da Voz de Angola

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