A queda de Isaac dos Anjos: os reais motivos “algemados na banca do chefe”

Dias após a surpreendente exoneração do até então Governador de Benguela, o Engenheiro, Isaac dos Anjos, o País político, a comunidade acadêmica e a sociedade civil, em geral, continua a reflectir entorno do referido movimento levado a cabo pelo chefe do Executivo, José Eduardo dos Santos, sob proposta, como é óbvio, de algumas figuras de proa do seu Partido, o MPLA, no caso, que sustenta o Governo angolano, na sequência das eleições de 2012.

Da justificava oficial (que seria exigível na governação transparente e responsável) nada foi dito. O único dado que foi tornado público sobre a matéria tem a ver com a própria exoneração. No entanto, como era de esperar a praça pública consegue furar os cordões partidários e arrancar aquilo que não se pretendeu levar a ela – a praça.

Do levamento individualizado dos dados e da sua análise a que todos somos permitidos a fazer, independentemente dos factos e de como ocorreram, temos a seguinte segmentação relativa aos motivos reais da queda do Governador.

1º A obstrução das vias do saque do erário público e o enfurecimento de militantes. É público o dado de que quando Isaac dos Anjos fora nomeado encontrara, em Benguela, uma «gang» bem organizado que fazia o que bem entendesse com o erário público sobretudo nas questões em que o Estado tinha que fazer contratos para atingir um interesse público. Esta «gang» (violenta na perspectiva da gestão da coisa de todos) detinha fontes de contratos ligados aos sectores de saneamento básico, construção de infraestruturas básicas, funcionamento da máquina administrativa e estabelecimento de relações nepotistas com Luanda.

Com a nomeação de dos Anjos, esta «gang» violenta perdeu, consideravelmente, todo o poderia que detinha nesses sectores porquanto, dos Anjos, passou a privilegiar a intervenção de todos os benguelenses locais desde que tenham demonstrado capacidade para actuação nos mesmos sectores. Permitiu, por exemplo, a que a recolha do lixo não fosse um sector explorado, somente, por dois ou três benguelenses ligados ao Governo da Província e com esquema a partir de Luanda. Nesse sector reduziu de 40 milhões dólares para 20 milhões.

Estendeu, por outro lado, a outras empresas provinciais o trabalho de fornecimento de material de escritório, entre mesas, blocos, agendas, papeis, máquinas, computadores, carros, limpeza e outros, contrariamente ao que encontrara em que duas ou três pessoas do Partido a nível provincial enriqueciam com esses serviços em detrimento de muito boa gente com condições materiais para o efeito.

2º O chumbo dos negócios ilícitos de Ministros e membros do «bureau» político do MPLA residentes em Luanda.

A regularização de todas as questões ligadas a contratação pública que passou a considerar os cidadãos como iguais, um princípio constitucionalmente consagrado, nesta condição, atingiu pessoas bem posicionadas no aparelho governativo e partidário. Referimo-nos de Ministros e membros do Partido que, em coluio com os seus “afilhados” de Benguela, “faturavam” do erário público, em claro enriquecimento sem causa.

É isso que fazia com que orçamentos fossem aprovados para certos investimentos públicos em Benguela, com atribuição das verbas mas tais ficavam nos bolsos dos padrinhos da «gang» violenta a que temos vindo a citar.

3º O Racismo no Comité Provincial e o sentimento elitista dos camaradas em Benguela. O comité dos camaradas, em Benguela, é considerado como uma propriedade quase que exclusiva dos benguelenses de cor clara, ou simplesmente mulatos! É assim que os mulatos de Benguela são quase todos obrigados a militar no maioritário sendo quase que impossível encontrar um deles na oposição. Esta «gang» violenta dos “mulatos” que dizem mandar em tudo e todos, (fruto do apadrinhamento que recebem da estrutura máxima do Partido a partir de Luanda). Eduarda Magalhães, a título exemplificativo, é tida a nível daquela província como uma fomentadora dos principais problemas internos.

Passa por cima de quase todos por causa da sua alegada afinidade com Joana Lina, a mulher mais forte no «Bureau» político dos camaradas. É sua comadre e diz-se que quando os seus filhos vão à Luanda fixam morada na residência oficial daquela, daí que, questões organizativas do Partido na Província são facilmente ignoradas por si. Esta «gang» passou a ver Isaac dos Anjos (negro) um estranho no ninho da “crioulização” do Partido em Benguela.

4º Incentivo profilático do combate à bajulação desmedida Isaac dos Anjos, tendo em atenção a sua natureza humana passou, como era habitual antes de ir à Benguela, a ter opinião própria. Tecia, inclusive, criticas ao pessoal interno como forma de mostrar aos militantes e cidadãos em geral, que o exercício da cidadania suplanta capas partidárias.

Juntados estes «itens» depreende-se que a exoneração de Isaac dos Anjos ultrapassa mera estratégia política e eleitoral apregoada pelo Partido no poder. Resulta, sim, de «makas» antigas que aglutinam militantes do seu próprio Partido e que ditaram, assim, tal medida. É, no fundo, a consequência do seu desempenho exemplar na gestão da coisa de todos, na firmeza em tratar os cidadãos pela nacionalidade e não pelo vinculo político, consubstanciado a isso a redução da riqueza ilícita dos mulatos de Benguela que detêm poder político com pilares em Luanda e de outros políticos que não sendo de Benguela tinham naquela província uma fonte de enriquecimento ilícito e que foram combatendo o homem durante os três anos que Isaac Governou Benguela, chegando a ponto de nos últimos meses a Província não ter recebido dinheiro público para efeitos de funcionamento e/ou investimentos públicos com vista a reclamar depois do mau trabalho do Governador e Primeiro Secretário do Partido.

No entanto, esse cenário (da sua exoneração) tem, obviamente, muitas consequências: uma massa militante que perde crédito ao seu próprio Partido e que alguns se frustram com a ocorrência; Oposição que ganha terreno nisso tudo; espaço do diálogo que fica limitado e projectos que deixam de ser executados durante muito tempo bem como o evidenciar de um Partido que beneficia, sempre, pessoas intriguistas e que queiram enriquecer-se em nome do povo.

Por: Francisco Jorge

 

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