Os nossos milionários

Faz hoje 14 anos desde que foi publicada pelo «Angolense» a conhecida matéria jornalística que escancarou, pela primeira vez, os nomes dos detentores de fortunas em Angola. Numa altura em que a riqueza no país ainda se constituía em rigoroso tabu, o jornal indicou sem pejo que ela havia mudado de cor


Por SEVERINO CARLOS | Facebook


O que acontece quando, num país de falsa liberdade democrática, um governante acha que foi injuriado e caluniado por um jornal? A resposta não tem ciência alguma. O mais comum é vermos o governante supostamente difamado, deixar-se embriagar pelo poder e pela ira, e recorrer à arma que melhor conhece na relação com os jornalistas: punir com a prisão.
Foi o que há 14 anos passou pela cabeça do general Kundi Payhama, na altura ministro da Defesa, quando, a 11 de Janeiro de 2003, saiu a matéria A RIQUEZA MUDOU DE COR: OS NOSSOS MILIONÁRIOS, publicada pelo «Angolense», jornal percursor do que menos de dois meses depois seria o «Semanário Angolense».
A edição havia saído à rua num sábado. E já na 2ª feira a seguir, em plena ressaca do polémico artigo jornalístico, o ministro da Defesa investia sem hesitações contra a publicação. Furibundo, deixou o seu gabinete, na zona da Cidade Alta, com os seus batedores de trânsito de sirenes ligadas e um punhado de soldados da sua guarnição. Abriu caminho pelas ruas congestionadas da baixa de Luanda até parar à zona do Cruzeiro, onde se localizava a sede do «Angolense».
Todos os que se encontravam na redacção do jornal àquela hora começaram por sentir uma estranha sensação no estômago quando ouviram as sirenes e o ribombar das motos dos batedores deterem-se mesmo à porta da publicação. Imediatamente foram tomados de suores frios ao verem um imperial e marcial ministro da Defesa apear-se da viatura protocolar, com soldados de armas em punho à sua volta, e, com cara de poucos amigos, dirigir-se exactamente às instalações do jornal onde perguntou se Graça Campos estava.
A reunião entre o ministro da Defesa e Graça Campos, na altura editor-chefe da publicação, decorreu à porta-fechada e não levou muitos minutos. Kundi Payhama manifestou o seu profundo desagrado e avisou logo aí que se reservava o direito de mover um processo judicial contra o jornal. E foi o que sucedeu.
O nome do general Kundi Payhama, figura emblemática do regime e até então tida como uma das suas referências morais no que à acumulação de riqueza diz respeito, constava de uma lista de 59 personalidades referidas na matéria em causa como sendo detentores de fortunas avaliadas, cada uma, em não menos de US$ 50 milhões. Aí estavam, finalmente, os milionários de Angola, para conhecimento dos demais cidadãos.
Na verdade, a publicação dessa lista não resultara de qualquer exercício de adivinhação, prestidigitação ou de tiro ao alvo. Hoje já se pode revelar que nessa «operação» entraram fontes que estão no «insight» do próprio regime, com conhecimentos bastante consistentes da forma como se estava a processar a chamada acumulação primitiva de capital em Angola.
Esse exercício foi facilitado igualmente pelos dados que a própria realidade do país tratara de produzir, baseada em abundantes e crescentes sinais exteriores de riqueza que se vinham manifestando e que só mesmo diante de miopia e hipocrisia se poderiam ocultar. Sabe-se, por exemplo, de um episódio ocorrido naquela época, em que um membro do Governo, com a maior desfaçatez, juntou os amigos mais íntimos numa «festança» e com eles comemorou o facto de a sua conta bancária ter entrado na casa dos US$ 100 milhões.
Na realidade, quando a matéria saiu, dados perfeitamente verificados e expostos aos olhos do universo político e económico do país, já indiciavam a existência de grandes fortunas que foram sendo acumuladas ainda com Angola a viver um insano conflito armado. Bastava, para tanto, dar-se uma espreitadela às inúmeras denúncias que ciclicamente eram veiculadas pela imprensa doméstica e internacional. E o que o «Angolense» também fez na altura foi socorrer-se e fazer um «apanhado» de todos os dados que estavam dispersos por várias publicações estrangeiras e nacionais.
Coligidos estes dados, e com as fontes do jornal a confirmarem-nos, com uma margem de erro relativamente pequena, foi possível então chegar à conclusão de que havia já nessa época pelo menos 20 personalidades detentoras de fortunas contabilizadas em mais de 100 milhões de dólares norte-americanos por cabeça, repartidos entre activos financeiros e patrimoniais. Esta era a «super-liga», pois a maioria dos milionários figuravam numa «segunda divisão» em que as riquezas acumuladas estavam estimadas em menos de US$ 100 milhões, mas não inferiores a US$ 50 milhões.

PROCESSOS EM CATADUPA

Depois de se ter reunido com Graça Campos, o ministro da Defesa – indicado na lista do «Angolense como tendo uma fortuna avaliada em não menos de US$ 50 milhões – tratou de cumprir a ameaça de que moveria um processo judicial por injúria e difamação. E não é que moveu mesmo? Isto depois de o governante se ter desmanchado em declarações públicas negando ser detentor de riqueza. Chegou mesmo às raias de afirmar que além do seu salário como ministro da Defesa apenas possuía uma pequena casa na Huíla que herdara de sua mãe.
Kundi Payhama foi apenas o primeiro a trazer a DNIC à liça. A ele seguiram-se outros membros da «nomenclatura», nomeadamente Dino Matross, na altura vice-presidente da Assembleia Nacional, e Mário António, membro do BP do MPLA e administrador da GEFI, holding de negócios desse partido. Alinharam também na purga a Graça Campos, que já então fundara o Semanário Angolense, os processos intentados por Mário Palhares, PCA do Banco Africano de Investimentos, e Faustino Muteka, ministro da administração do Território.
Todos estes processos judiciais, que na realidade tinham o intento de condicionar psicologicamente os jornalistas de um modo geral, inibindo-os de denunciar os desvarios dos novos-ricos em ascensão no país, acabaram em tribunal por fracassar. Graça Campos foi absolvido em todos eles.
Mas a nascente classe de endinheirados do país é que, pelos vistos, passou a assanhar-se ainda mais na exibição das fortunas sem causa, com manifestações escandalosas de fausto e opulência. Alguns meses depois de ter jurado que apenas tinha como propriedade a casinha que sua progenitora lhe deixara, o mesmo Kundi Payhama já se mostrava, tranquila e olimpicamente, em condições de abrir um banco. Foi travado superiormente por quem lhe lembrou a irracionalidade e contradição em que incorreria caso abrisse um negócio próprio para milionários. Mas estes negócios e outros, como jogos de fortuna e azar, acabaram por vir à superfície, mais tarde, quando a poeira levantada pelo «Caso Milionários» já havia assentado e todos compreenderam, tacitamente, que a riqueza em si mesma não constituía drama algum. De resto, na altura, o empresário Mello Xavier, em sentido contrário às reclamações manifestadas pela generalidade dos integrantes da lista, veio a público dizer que possuía muito mais do que os US$ 100 milhões que lhe haviam sido atribuídos.
De facto o que está em questão é que 14 anos depois, a falta de pudor na exibição da riqueza aumentou em proporção directa com as desigualdades entre os poucos que vivem, que nem nababos, no fausto e na opulência, e a multidão dos que quase nada têm. Este é realmente o drama de que enferma o país e precisa de ser eliminado.
===================================================

ANGOLENSE Nº 217 | 11 A 18 DE JANEIRO DE 2003

A LISTA DOS ENDINHEIRADOS PUBLICADA HÁ 14 ANOS

Divididos em dois grupos consoante o que cada um tinha (cargos da época), vejamos, então, quem foram os grandes detentores de riqueza nacional arrolados na matéria publicada pelo «Angolense» há exactos 14 anos.

A) MAIS DE 100 MILHÕES DE DÓLARES

JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS
Presidente da República

LOPO DO NASCIMENTO
Deputado do MPLA

JOSÉ LEITÃO
Chefe da Casa Civil do PR

ELÍSIO DE FIGUEIREDO
Embaixador

JOÃO DE MATOS
Ex-CEMG das FAA

HIGINO CARNEIRO
Ministro das Obras Públicas

HÉLDER VIEIRA DIAS «KOPELIPA»
Chefe da Casa Militar do PR

ANTÓNIO MOSQUITO
Empresário (Grupo Mbakassy & Filhos)

VALENTIM AMÕES
Empresário (Grupo Valentim Amões)

SEBASTIÃO LAVRADOR
Bancário

JOSÉ SEVERINO
Empresário

JOAQUIM DAVID
Ministro da Indústria

MANUEL VICENTE
PCA da Sonangol

SIANGA ABÍLIO
Administrador Sonangol P. & Produção

MÁRIO PALHARES
PCA do BAI

AGUINALDO JAIME
Ministro-adjunto do Primeiro-Ministro

ANTÓNIO FRANÇA«NDALU»
Embaixador e General na reserva

AMARO TATI
Governador do Bié

NOÉ BALTAZAR
Director-delegado da ASCORP

DESIDÉRIO COSTA
Ministro dos Petróleos

B) MAIS DE 50 E MENOS DE 100 MILHÕES DE DÓLARES

JOÃO LOURENÇO
Secretário-Geral do MPLA

ISAAC DOS ANJOS
Embaixador na África do Sul

FAUSTINO MUTEKA
Ministro da Adm. do Território

ANTÓNIO VAN-DÚNEM
Secretário do Conselho de Ministros

DUMILDE RANGEL
Governador de Benguela

SALOMÃO XIRIMBIMBI
Ministro das Pescas

FÁTIMA JARDIM
Ex-ministra das Pescas

DINO MATROSS
1º vice-presidente da Ass. Nacional

ÁLVARO CRAVEIRO
Ex-director-adjunto da ENDIAMA

FLÁVIO FERNANDES
PDG da Multiperfil

FERNANDO GARCIA MIALA
Director Serviço de Segurança (SIE)

ARMINDO CÉSAR
Empresário (Grupo César & Filhos)

RAMOS DA CRUZ
Governador da Huíla

JOÃO ERNESTO SANTOS
Governador do Moxico

GONÇALVES MUANDUMBA
Deputado do MPLA

ANÍBAL ROCHA
Governador de Cabinda

LUDY KISSASSUNDA
Governador do Zaire

LUÍS PAULINO DOS SANTOS
Ex-Governador do Bié

FERNANDO BORGES
Empresário

PAULO CASSOMA
Governador do Huambo

RUI SANTOS
Empresário (SISTEC)

MÁRIO ANTÓNIO
Administrador da GEFI

SILVA NETO
Administrador da Sonangol

JÚLIO BESSA
Ex-ministro das Finanças

PAIXÃO FRANCO
Presidente do FDES

MELLO XAVIER
Empresário e Deputado MPLA

KUNDI PAYHAMA
Ministro da Defesa

ISMAEL DIOGO
Presidente da FESA

MARIA MAMBO CAFÉ
Membro do BP do MPLA

AUGUSTO TOMÁS
Deputado do MPLA

GENEROSO DE ALMEIDA
PCA do BCI

LUÍS FACEIRA
General

MÁRIO CIRILO DE SÁ «ITA»
General

ADOLFO RAZOILO
General

GILBERTO LUTUCUTA
Ministro da Agricultura

SIMÃO JÚNIOR
Empresário (Grupo Chamavo e GEMA)

CARLOS FEIJÓ
Assessor do PR

ARMANDO DA CRUZ NETO
CEMG das FAA

(CONTINUA)

Deixe seu comentario