Assessora de administradora suspeita de beneficiar o namorado

Posted on Dezembro 14, 2016, 5:51 pm
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Há uma história de amor no meio do escândalo da Misericórdia de Lisboa. Cláudia Manso Preto, assessora da administradora da Santa Casa da Misericórdia Helena Lopes da Costa, era namorada de um dos sócios de uma das empresas alegadamente favorecidas pela instituição, o actual presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, Davide Amado, eleito pelo PS.

É esta relação que ajudará a explicar o comunicado da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa sobre as buscas desta quarta-feira à Santa Casa liderada por Santana Lopes, onde se refere que estão a ser investigadas suspeitas sobre a “aquisição de bens e serviços pela SCML com recurso a contratação por ajuste directo a empresas com relações a trabalhadores e órgãos daquela instituição”. O crime em investigação é o de participação económica em negócio, que beneficiaria certas empresas e trabalhadores “em detrimento das regras que presidem ao regular funcionamento do mercado”.

Daí que os investigadores tenham promovido buscas às residências de Cláudia Manso Preto e da administradora com o pelouro da Saúde, Helena Lopes da Costa (na foto), figura muito próxima do provedor, que acompanha desde os tempos da Câmara de Lisboa.

508 mil euros em 18 contratos
O Presidente da Junta de Alcântara (na foto em baixo ao lado de António Costa) era na altura sócio-gerente da empresa Fellowscents, que ficou com um ajuste directo no valor de 26.826 euros para a venda de material informático, e director-geral da Atena T, à qual a Santa Casa atribuiu 508.858 euros em 18 contratos referentes, entre outras coisas, à instalação de redes de internet sem fios e Televisão Digital Terrestre em unidades de saúde, ao fornecimento de aparelhos de ar condicionado e a pequenas empreitadas.

Estas empresas integravam um grupo mais alargado de uma dezena e meia, aparentemente criadas de propósito para receberem da Santa Casa vários ajustes directos de material clínico e informático.

A empresa do engenheiro dos TSD
Como demonstrou uma investigação de José António Cerejo em 2014 no jornal Público, as empresas foram criadas por Afonso Viola e Fernando Catarino Narciso, engenheiro reformado da PT, e militante dos TSD (Trabalhadores Social Democratas), que Helena Lopes da Costa (igualmente militante do PSD) afirmou conhecer “perfeitamente” há muitos anos – e que, aquando da sua entrada para a administração da Santa Casa, lhe apresentou uma empresa ligada à área da saúde, de que era proprietário.

O estratagema de criar várias empresas com os mesmos accionistas permitia que, na aparência, fossem convidadas três empresas diferentes para participarem num ajustamento directo. Mas como os sócios estavam representados em todas as concorrentes, ganhariam sempre.

Contratada pela Junta
Davide Amado era ainda sócio-gerente da Sweetindex, empresa de material hospitalar convidada pela Santa Casa a fazer propostas em processos de ajuste directo vencidos por outras empresas de Afonso Viola e Fernando Catarino Narciso.

Quando Davide Amado tomou posse como presidente da junta de freguesia de Alcântara, contratou a Positivesboço, uma empresa criada por Fernando Catarino Narciso e um filho para uma empreitada no valor de 9.500 euros. Esta Positivesboco também assinou um contrato com a Misericórdia de Lisboa, no valor de 147.225 euros.

Assessora afastada sem processo disciplinar
Depois de o escândalo ter sido divulgado, sem que o nome de Cláudia Manso Preto tenha vindo a público, o Provedor ordenou a instauração de um inquérito, no âmbito do qual cinco funcionários da Santa Casa foram alvo de processos disciplinares, sem que contudo tenham sido apurados responsáveis.

Foram na altura instituídas novas regras que obrigam as empresas concorrentes a processos aquisitivos da Santa Casa a exibirem uma certidão da Conservatória do Registo Comercial, para se detectar se há relações entre accionistas de empresas convidadas para o mesmo ajuste directo. Santana Lopes mandou suspender em 2014 todos os procedimentos de aquisição em curso com as empresas envolvidas no escândalo.

Cláudia Manso Preto (na foto em baixo), ao que a SÁBADO apurou, não foi visada por um processo disciplinar, mas foi afastada das funções que desempenhava como assessora de Helena Lopes da Costa, tendo sido transferida para os Recursos Humanos do Hospital de Santana, uma instituição gerida pela Santa Casa. Contudo esse afastamento durou menos de dois anos: Cláudia Manso Preto voltou a exercer as funções de assessora da administradora Helena Lopes da Costa, cargo que desempenha actualmente.

A SÁBADO tentou, sem sucesso até ao momento, ouvir Cláudia Manso Preto, Afonso Viola e Fernando Catarino Narciso. Davide Amado não quis prestar declarações sobre este assunto. Mas a SÁBADO apurou que o namoro do presidente da junta de freguesia de Alcântara com a assessora de Helena Lopes da Costa terminou.

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