Dinheiro chinês passa a valer em Angola

Posted on Novembro 28, 2015, 12:47 pm
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O yuan, a moeda chinesa, vai passar a ser aceite nas trocas comerciais entre Angola e a China a partir do próximo ano. E vice-versa: também o kwanza vai ser aceite em compras no mercado chinês.

E isto, que decorre do acordo monetário que os dois países firmaram aquando da última visita à China do Presidente da República, vai ter uma expressão generalizada, ou seja, vai ser possível indiscriminadamente pagar produtos chineses com kwanzas e angolanos, designadamente e no imediato, petróleo com yenes? Seguramente que não.

Tudo depende da extensão dos montantes acordados entre os dois países. No início do passado mês de Junho, após a celebração de oito acordos de cooperação entre os dois países, o Presidente da China anunciou estarem na forja entendimentos quanto a três matérias fundamentais no relacionamento bilateral e que respeitam à cobertura ‘swap’ das moedas dos dois países (explicamos em baixo o que isso é), à protecção do investimento recíproco e à eliminação da dupla tributação.

A China é o maior cliente de Angola, absorvendo mais de 40% da produção angolana de petróleo e também um dos principais fornecedores e financiadores do país. A evolução do yuan e a sua aceitação internacional tem, pois, uma importância crucial para os angolanos, que muito provavelmente passar-se-ão a deslocar mais vezes em negócios ou às compras a Pequim e Xangai.

O yuan tem vindo a ganhar influência, num processo que não começou recentemente e algumas das etapas que cumpriu passaram desapercebidas a muitos. Desde 2008 que a China vem firmando, por todos os continentes, incluindo o norte-americano e europeu, acordos monetários.

O país asiático tornou-se a segunda potência económica mundial e foi o dinamismo da sua economia um dos factores decisivos para que a economia global resistisse à crise financeira de 2008/2009. No entanto, a sua moeda não era aceite internacionalmente. Quando os chineses, a meio deste ano, a procuraram colocar no mercado, deixando o seu preço ajustar-se ao seu valor real, o yuan depreciou-se, provocando, como se sabe, uma crise que propagou em cascata pelos mercados internacionais e que chegou mesmo a causar o pânico.

Yuan xadrez

E, no entanto, os Estados Unidos há muito clamavam contra a subvalorização do yuan, alegando que as autoridades chinesas mantinham o valor nominal da moeda abaixo do seu valor real para assim conquistar competitividade desleal para os seus produtos. As autoridades chinesas decidiram manter um câmbio fixo após a crise 2008/2009, temendo que uma valorização afectasse a sua relação com a zona euro, que se debatia com problemas.

Entretanto, a China reorientou a sua política económica e também abrandou o seu ritmo de crescimento. Estes factos, associados à queda bolsista dos activos sobrevalorizados, conduziu a uma forte desvalorização do yuan, mas não travou o alargamento da sua influência.

E a China, além de impor a sua moeda, faz um grande desafio ao domínio do dólar, um dos pilares da supremacia dos EUA. O anúncio da venda, em Maio deste ano, pela Rússia de petróleo em troco de yuans é um gigantesco desafio ao império norte-americano.

Já em Maio de 2009 num artigo intitulado ‘A morte do dólar’, o jornal londrino The Independent observava que “’na mais profunda transformação financeira na história recente do Médio Oriente, os países árabes do Golfo planeiam – em conjunto com China, Rússia, Japão e França – deixar de transacionar petróleo em dólares, passando a utilizar um cabaz de moedas, incluindo o iene japonês, o yuan chinês, o euro, o ouro, e uma nova e unificada moeda planeada para as nações que fazem parte do Conselho de Cooperação do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, Abu Dhabi, Kuwait e Catar. Têm sido realizados encontros secretos entre os ministros das Finanças e directores dos bancos centrais da Rússia, China, Japão e Brasil para prepararem o esquema, o que significa que o preço do petróleo não será mais fixado em dólares’.

Acordos monetários

Um ‘swap’ de moedas é um intercâmbio de fluxos de pagamentos com pagamentos de juros e de capitais em moedas diferentes com uma taxa de câmbio acordada. O ‘swap’ de moedas pressupõe que se fixe, à partida, um determinado montante (que passa a estar ‘protegido’ ao abrigo do acordo), uma taxa de câmbio, combinando-se taxas de juros fixas e variáveis. Desde 2008 que a China vem fazendo este tipo de acordos, primeiro na zona asiática, depois cobrindo variados países, incluindo Grã-Bretanha e Canadá.

Moeda de reserva do FMI a partir de Segunda-feira

 O Yuan, ou renminbi, vai passar a integrar, na próxima Segunda-feira, a lista de moedas de reserva do Fundo Monetário Internacional (FMI). Cumpre-se assim um velho sonho das autoridades chinesas. Na lista de moedas de reservas do FMI figuram o dólar norte-americano, o euro, a libra esterlina e o iene.

Uma pesquisa realizada pela rede de troca de informação financeira SWIFT, em Agosto, revelou que o yuan chinês entrou na lista das quatro moedas de pagamento mais utilizadas do mundo, superando o iene japonês em valor.

Há quem não tenha dúvidas de que o yuan ultrapassará a libra, tornando-se a terceira moeda mais trocada no mundo.

O yuan ganha terreno por todo o lado. Na Coreia do Sul, os depósitos em yuan multiplicaram-se por 55 num único ano. Na Grã-Bretanha, o governo lançou um yuan bond (um título denominado em yuans) e até o Banco Central Europeu pondera se deverá incluir o yuan entre as suas reservas oficiais.

A globalização traz assim consigo a tendência para a desdolarização da economia internacional, o que põe em xeque a ordem monetária saída do acordo de Bretton-Woods, em 1944, a qual impôs o dólar como moeda de referência internacional, ficando as restantes moedas indexadas ao dólar que, por sua vez, teria uma determinada ligação ao ouro.

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